Está aqui

Perguntas e respostas sobre a guerra que estava esquecida em Donbass

A atenção mediática mundial virou-se para o bombardeamento de um jardim de infância no leste da Ucrânia. Mas a região está em guerra há oito anos. Alberto Sicilia esclarece o que está em disputa neste conflito.
Jardim de infância bombardeado esta quinta-feira. Foto de EPA/JOINT FORCES OPERATION PRESS SERVICE/Lusa.
Jardim de infância bombardeado esta quinta-feira. Foto de EPA/JOINT FORCES OPERATION PRESS SERVICE/Lusa.

Esta quinta-feira, um obus de artilharia atingiu um jardim de infância numa povoação na região de Luhansk, no leste da Ucrânia. Três pessoas ficaram feridas ligeiramente. O governo da Ucrânia acusou as forças separatistas do Donbass pelo ataque. Estas responderam no seu canal oficial do Telegram que o exército ucraniano foi o culpado por ter atacado o território que controlam.

O leste da Ucrânia está em guerra há oito anos

A atenção de todos os meios de informação do mundo tem estado centrada por estes dias na Ucrânia. Por isso, este ataque teve tanta repercussão. Mas a realidade é que a zona de Donbass está em guerra permanente há oito anos, houve vários milhares de mortes e mais de um milhão de refugiados internos.

Porque há uma guerra no leste da Ucrânia?

No ano de 2014, algumas semanas depois dos protestos de Kiev que culminaram com o governo de Yanukovich a fugir do país e com a anexação russa da Crimeia, duas regiões do leste da Ucrânia proclamaram-se independentes do país.

A República Popular de Donetsk e a República Popular de Luhansk contam com o apoio económico e o fornecimento de armas por parte de Moscovo.

Porque é que a Rússia não anexou estas regiões como o fez com a Crimeia?

A península da Crimeia tinha para a Rússia um valor simbólico e estratégico muito maior que o de Donbass.

A Rússia considerava que a Crimeia sempre tinha sido uma “parte histórica” da sua nação que nunca deveria ter sido transferida para a Ucrânia.

Para além disso, o porto de Sebastopol fica na Crimeia. É a base naval importante da Marinha Russa no Mar Negro (e, assim, a sua saída para o Mediterrâneo).

Então que quer a Rússia para estas duas regiões do Leste da Ucrânia?

O governo de Moscovo defende que Donetsk e Luhansk deveriam continuar a fazer parte da Ucrânia mas com um estatuto constitucional especial. Por exemplo, estas regiões deveriam ter poder de “veto” se alguma vez o governo de Kiev quiser integrar-se na Nato.

Quem está a ganhar esta guerra?

Nenhum dos dois lados. A frente apenas se deslocou quando o conflito estalou em 2014. O exército ucraniano de um lado e os milicianos do outro disparam artilharia que muitas vezes acaba por atingir edifícios onde vivem civis.

Através dos “Acordos de Minsk” negociaram-se 29 cessares-fogo que foram violados sucessivamente com acusações cruzadas sobre quem teve a culpa.

Porque esta guerra poderia desembocar num conflito de grande escala?

A guerra de Donbass continuou no esquecimento durante anos.

Mas agora a Rússia tem mais de 100.000 tropas na fronteira com a Ucrânia, vários governos ocidentais estão a enviar armas ao governo de Kiev e todos os meios de comunicação voltaram a estar interessados no que acontece na zona.

Nestas condições, qualquer desgraça como a que poderia ter acontecido esta quinta-feira no jardim de infância de Luhansk poda desencadear um conflito de grande escala.


Alberto Sicilia é doutorado em física teórica e jornalista freelancer que tem acompanhado a Grécia, a Ucrânia, o Egito, a Síria, Gaza e o Iraque.

Texto publicado originalmente no seu blogue Principia Marsupia. Traduzido para o Esquerda.net por Carlos Carujo.

política: 
Ucrânia
(...)

Neste dossier:

Guerra na Ucrânia

A agressão militar desencadeada por Putin foi o passo mais recente de um conflito antigo. Reunimos aqui artigos de análise da situação e a perspetiva da esquerda russa e ucraniana. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Steve Bannon, uma das figuras mais influentes da extrema-direita norte-americana. Foto de Gage Skidmore/Flickr.

Ucrânia: a extrema-direita americana escolheu Putin

Na Europa, a extrema-direita dividia-se tradicionalmente entre o apoio aos seus congéneres ucranianos e o apoio ao regime de Putin. A força do dinheiro desempatava no caso de grandes partidos como os de Le Pen e de Salvini. Nos EUA, depois da invasão a balança passou a pender mais claramente para a admiração pelo presidente russo.

Manifestantes do grupo de esquerda "Movimento Social" manifestam-se contra a guerra. Foto do Facebook desta organização.

Uma carta à esquerda ocidental a partir de Kiev

Com a capital ucraniana a ser bombardeada, o historiador de esquerda Taras Bilous decidiu escrever uma carta à esquerda que “exagera a influência da extrema-direita na Ucrânia mas não presta atenção à extrema-direita nas “Repúblicas Populares” e evitar criticar as políticas conservadoras, nacionalistas e autoritárias de Putin”.

Manifestação de apoiantes do Azov em 2019 em Kiev. Foto de Goo3/Wikimedia Commons.

Os dois rostos da extrema-direita ucraniana

A propaganda de Putin mostra a Ucrânia como um estado fascista. A ocidente a extrema-direita ucraniana costuma ser negligenciada. Adrien Nonjon faz aqui o retrato realista de um fenómeno que apesar de continuar a ser “marginal”, tenta ser “o novo ponto de convergência e de partida para uma revolução nacional pan-europeia”.

Putin foto de Antonio Marín Segovia/Flickr.

A guerra de Putin na Ucrânia: nas pegadas de Saddam Hussein

Há um paralelo impressionante entre o comportamento de Vladimir Putin na Ucrânia e o comportamento de Saddam Hussein no passado. Os dois homens recorreram à força, acompanhados de reivindicações notavelmente semelhantes, para alcançar ambições expansionistas. Por Gilbert Achcar.

Barricada dos independentistas em Luhanksem 2014. Foto de Qypchak/Wikimedia Commons.

“Há sentimentos muito contraditórios na população de Donbass”

O investigador Gerard Toal tem feito inquéritos às populações do sudeste da Ucrânia e em Donbass em particular. Defende que a identidade desta região não é etno-nacionalista mas marcada sobretudo pelo orgulho na sua potência industrial da era soviética. E fala ainda das raízes do conflito e da agenda do governo de Putin.

Putin, o czar da extrema direita russa e europeia

Os principais aliados políticos de Vladimir Putin na Europa são partidos da extrema-direita. Por entre acordos de cooperação com o partido Rússia Unida e denúncias de financiamento ilegal a partir de Moscovo, as formações lideradas por Salvini, Marine Le Pen e Viktor Orbán integram a órbita europeia do chefe do Kremlin.

Bloco condena "agressão imperialista da Rússia" e defende "Ucrânia integral e neutral"

A Comissão Política do Bloco de Esquerda defende que Portugal deve "condenar a aventura militar de Putin e demarcar-se dos posicionamentos de apoio aos EUA e à expansão da NATO". Leia aqui o comunicado.

Banco Nacional da Ucrânia. Foto de Max/Wikimedia Commons.

A Ucrânia e o Império do Capital

A transição voraz do país para uma economia de mercado dirigida pelo bloco cleptocrático dominante tornou a Ucrânia numa vítima do implacável crescimento do império do capital vulnerável à colisão entre os imperialismos capitalistas russo e ocidental. Por Yuliya Yurchenko.

Manifestantes do Movimento Socialista Russo em 12 de fevereiro. Foto do Facebook do grupo.

Movimento Socialista Russo toma posição contra “imperialismo russo”

Putin culpou Lenine pela existência da Ucrânia e ameaçou mostrar a Kiev “o que significa descomunização”. O MSR apela à retirada imediata de tropas russas e ao direito dos cidadãos ucranianos a decidir o destino do seu país "sem os imperialistas do ocidente ou do oriente".

Jardim de infância bombardeado esta quinta-feira. Foto de EPA/JOINT FORCES OPERATION PRESS SERVICE/Lusa.

Perguntas e respostas sobre a guerra que estava esquecida em Donbass

A atenção mediática mundial virou-se para o bombardeamento de um jardim de infância no leste da Ucrânia. Mas a região está em guerra há oito anos. Alberto Sicilia esclarece o que está em disputa neste conflito.

Manifestantes na praça Maidan a atirar cocktails molotov. Foto de Mstyslav Chernov/Wikimedia Commons.

Como uma insurreição de extrema-direita apoiada pelos EUA nos trouxe à beira da guerra

Em 2014, as disputas dos poderosos, a ira justa contra um status quo corrupto e oportunistas de extrema-direita derrubaram o governo ucraniano. A crise de hoje não pode ser compreendida sem entender as revoltas de Maidan – e o apoio de Washington. Por Branko Marcetic.

Praça Maidan em Kiev que se tornou o centro da revolta de 2014.

“Alemanha é o alvo principal da campanha mediática da invasão iminente”

Nesta entrevista, o sociólogo ucraniano Volodymyr Ishchenko explica as origens da atual crise e as ficções que se construíram acerca dela.

Biden passa revista a militares recém-formados. Foto de West Point/Flickr.

Chomsky: Abordagem dos EUA à Ucrânia e Rússia “deixou de ser racional”

Nesta entrevista ao Truthout, o intelectual norte-americano analisa as contradições dos EUA sobre “esferas de influência” e sobre “respeito à soberania” dos países, ao mesmo tempo que recorda a história do alargamento da Nato a Leste.

Destruição causada pela guerra em Sloviansk. Foto de Wojciech Zmudzinski/Flickr.

A “segurança coletiva” e o conflito na Ucrânia

O princípio da soberania absoluta de segurança e militar da Ucrânia tornou-se numa desculpa para manter a funcionalidade da NATO e colocá-la no seu contexto regional europeu sob a hegemonia dos EUA, após o seu fracasso no Afeganistão. Artigo de Gustavo Buster.

Restos de material de guerra do conflito em Debaltseve. Foto Unicef Ucrânia.

A Ucrânia, segundo o Kremlin

Ainda que seja inegável que há um confronto geo-estratégico entre NATO e Rússia, quem olhe para este conflito a partir da esquerda não deve fazer um duplo mortal com pirueta e acabar a apoiar o reacionário e contra-revolucionário Putin, cujas políticas fariam as delícias dos militantes do VOX. Por Miguel Vázquez Liñán.

Tanque T-90-S russo. Foto de Dmitry Terekhov/Flickr.

Ucrânia: Crise entre a Rússia e o ocidente tem estado na incubadora há 30 anos

Por um lado, a Rússia pretende opor-se à expansão da NATO para leste. Por outro, esta teme que a acumulação de meios militares na Bielorrússia e na fronteira com a Ucrânia possa ser o prenúncio de uma invasão deste país. Tensões que vêm desde a dissolução da União Soviética. Por Liana Semchuk.