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Paz dos Reis, o primeiro cineasta português

Homem de múltiplos interesses, Paz dos Reis, a par da sua actividade comercial num estabelecimento chamado Flora Portuense situado na Praça de D. Pedro, mais tarde designada Praça da Liberdade, foi um excelente fotógrafo premiado, por diversas vezes, em Portugal e no estrangeiro. Artigo de Jorge Campos. 

Num dia de Setembro de 1896, na Rua de Santa Catarina, no Porto, assiste-se a algo de invulgar. Um homem alto, pela aparência identificado com a burguesia da cidade, afadiga-se em torno de uma caixa de madeira envernizada apoiada num tripé em tudo idêntico ao utilizado pelos fotógrafos profissionais. Diante dele, a porta principal da Camisaria Confiança. À hora do almoço, operários, homens e mulheres, começam a sair. O homem imprime então um movimento de rotação tão uniforme quanto possível a uma manivela destacada do corpo da caixa.

Não sabemos se assim foi exactamente. Paz dos Reis poder-se-ia ter feito acompanhar por um familiar e fotógrafo profissional, Magalhães Bastos, e ter sido este a manivelar o filme. Admite-se, até, ter havido outros, antes dele, a interessarem-se pelo cinematógrafo, do qual, aliás, os portugueses já tinham conhecimento através de Erwin Rousby. Seja como for, deixando de lado as questões de pormenor, quem por ali passava na Rua de Santa Catarina acabava de assistir ao nascimento do cinema português.

Tanto quanto se conhece o nosso primeiro cineasta era um espírito atento à modernidade no contexto singular da sociedade portuense de tradição liberal e individualista. Terá pertencido à Maçonaria, em cujas lojas se encontrava a maioria dos mais destacados republicanos da época. Em plena crise da monarquia constitucional, foi preso após a revolta de 31 de Janeiro de 1891, mas deverá ter sido absolvido visto o seu nome não constar da lista de condenações do Conselho de Guerra de Matosinhos, onde os conjurados foram presentes. A sua notoriedade social permitiu-lhe ocupar os cargos de vereador e de vice-presidente da Câmara do Senado do município, bem como a presidência do prestigiado Ateneu Comercial do Porto.

Homem de múltiplos interesses, Paz dos Reis, a par da sua actividade comercial num estabelecimento chamado Flora Portuense situado na Praça de D. Pedro, mais tarde designada Praça da Liberdade, foi um excelente fotógrafo premiado, por diversas vezes, em Portugal e no estrangeiro. São da sua autoria algumas das imagens mais impressivas das movimentações republicanas no Porto. Igualmente da sua autoria, ficou célebre uma série de postais denominada Artistas Portugueses com retratos de actores célebres à época. E não se coibiu de experimentar a fotografia estereoscópica, produzindo um número significativo de duplos clichés indispensáveis à obtenção dos efeitos de relevo pretendidos.

Contemporâneo de Louis e Auguste Lumière, Paz dos Reis mostrou a Saída do Pessoal Operário da Camisaria Confiança a 12 de Dezembro de 1896 numa sessão no Palácio do Príncipe Real – mais tarde, Teatro Sá da Bandeira – da qual constavam igualmente outros filmes da sua autoria. O Jornal de Notícias desse dia anunciava a exibição de “12 perfeitíssimos quadros, sete nacionais e cinco estrangeiros”. Os quadros portugueses, além do já mencionado, eram O Jogo do Pau, Chegada de um Comboio Americano a Cadouços, O Zé Pereira nas Romarias do Minho, A Feira de São Bento, A Rua do Ouro e Marinha. Exibidos durante o intervalo de uma zarzuela, muito do agrado do público da época, os quadros tiveram maior êxito do que o até então obtido pelas vistas estrangeiras pela simples razão de darem vida a temas portugueses com os quais o público estava familiarizado.

Este tipo de reportagens ou filmes documentais – cujos autores, de um modo geral, permanecem no anonimato –  seria a imagem quase exclusiva do cinema português do final do século XIX e do início do século XX. Quer no Porto quer em Lisboa. No Porto, a exibição dos filmes dos primeiros tempos tinha lugar de destaque no salão High Life, fundado em 1906 por António Esteves e Edmond Pascaud. Quanto a Paz dos Reis, que fez centenas de pequenos filmes sobre o quotidiano, na sua esmagadora maioria perdidos ou destruídos, e que chegou a tentar estender a sua produção ao Brasil, foi não apenas o nosso primeiro cineasta, mas também o nosso primeiro repórter de imagens em movimento.

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