Organização do Mundial impõe restrições ao trabalho dos jornalistas

Nas condições definidas pelo comité organizador, as cadeias televisivas comprometem-se a não filmar propriedades residenciais, comerciais e zonas industriais, além de edifícios religiosos, governamentais, escolas ou hospitais.

06 de novembro 2022 - 14:58
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As equipas de reportagem das cadeias televisivas que vão cobrir o Mundial de Futebol no Qatar estão sujeitas a regras muito apertadas para fazerem o seu trabalho. Os termos e condições que deverão aceitar para filmar no país impõem uma série de restrições que as irá impedir, por exemplo, de filmar os locais onde estão alojados os trabalhadores migrantes em condições miseráveis. Em 2015, repórteres da BBC foram detidos durante dois dias durante uma reportagem sobre as condições de alojamento de migrantes. E em novembro passado, dois jornalistas noruegueses passaram pela mesma situação quando saíam do país após investigarem o mesmo tema.

Segundo o Guardian, estas regras - entretanto retiradas do site da organização após a publicação da notícia a 15 de outubro - aplicam-se às equipas de televisão e aos fotógrafos, mas não aos jornais impressos que não filmam as suas entrevistas. Em vez de proibirem temas concretos de reportagem, as restrições aplicam-se aos locais onde não será permitido filmar, que “incluem mas não se limitam a casas, complexos de apartamentos, sítios de hospedagem”. Ou seja, na prática impedem as entrevistas sobre assuntos que as pessoas não estão dispostas a falar em locais públicos.

A organização do Qatar nega a imposição de condições que dificultam o trabalho jornalístico, alegando que “milhares de jornalistas escrevem a partir do Qatar livremente e sem qualquer interferência a cada ano”. E diz que atualizou estas regras, que na versão anterior fazia as cadeias televisivas assinarem o compromisso de que não iriam produzir reportagens que pudessem ser “inapropriadas ou ofensivas para a cultura Qatari e os princípios Islâmicos”.

No entanto, o documento obriga os jornalistas a “não filmar/fotografar em locais excluídos” destas condições, como “propriedades residenciais, empresas privadas, zonas industriais” ou “edifícios governamentais, de educação, saúde e religiosos”.

Para James Lynch, da ONG britânica de direitos humanos FairSquare, estas restrições serão muito difíceis de cumprir, “se até filmar ao pé de propriedade privada e governamental viola os termos da autorização” de permanência no país. “Quantas organizações irão autorizar reportagens sobre temas sociais no Qatar se se arriscam a ir parar a tribunal?”, questiona o ativista, prevendo que o resultado será a quase ausência de reportagens sobre assuntos que não tenham a ver com o futebol.

A “ambiguidade propositada” dos termos e condições para o trabalho dos media com a finalidade de estes serem mais cuidadosos nos temas que abordam também preocupa Jamimah Steinfeld, editora-chefe do Index on Censorship. “Se a BBC está a ser empurrada para uma posição onde só pode cobrir a glória do evento, então isso seria um mau resultado”, afirma ao Guardian. Por seu lado, a BBC não diz se concordou ou contestou estas regras, afirmando apenas que tem uma história de tratamento jornalístico dos assuntos que fala por si e que “este Campeonato do Mundo não será diferente”. Também a ITV afirma que a sua cobertura irá centrar-se no futebol, “mas não fugirá às controvérsias fora do terreno de jogo”.

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