Grandes eventos desportivos: será que valem a pena?

Porque é que, nos últimos anos, tantas economias avançadas do Ocidente decidiram não se candidatar a esses grandes eventos, ou até mesmo a retirarem as suas candidaturas? Por John Varano.

06 de novembro 2022 - 14:59
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Já lá vai o tempo em que ser anfitrião de algum dos maiores eventos desportivos, em espacial os Jogos Olímpicos e o Campeonato do Mundo da FIFA, trazia consigo bastante prestígio. Era uma honra que iria moldar o legado de um país ou de uma cidade. Podia ser um momento alto de simbolismo nacional e de transformação económica.

Então porque é que, nos últimos anos, tantas economias avançadas do Ocidente decidiram não se candidatar a esses grandes eventos, ou até mesmo a retirarem as suas candidaturas?

Acolher um evento desportivo proeminente a nível internacional é um convite aos holofotes globais, permite injetar dinheiro do turismo e é uma oportunidade para uma cidade ou um país reconstruir ou desenvolver as suas infraestruturas. Contudo, isso acarreta um compromisso financeiro gigantesco, além de um enorme risco.

A culpa é do Rio

O Campeonato do Mundo de Futebol de 2014 no Brasil teve um custo enorme. Atingiu 15 mil milhões de dólares, incluindo as derrapagens de pelo menos 75% e foi o mais caro da história da FIFA. O custo dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016 estava previsto em 4.58 mil milhões de dólares e derraparam 50%. Ambos os mega-eventos foram considerados maus investimentos. O Brasil enfrentou a pior recessão em 25 anos, houve cortes na saúde e educação e a polícia ficou sem receber por várias semanas.

Estes tipos de despesas tornaram-se difíceis de justificar. Os últimos dois anos assistiram à retirada de candidaturas de Boston, Budapeste, Davos, Hamburgo, Cracóvia, Munique, Roma e Estocolmo. A falta de candidatos levou a que os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 fossem atribuídos a Pequim - uma cidade que não é famosa por ser um pólo de desportos de Inverno. Longe dos Jogos Olímpicos, Londres tomou a decisão de última hora de se retirar de acolher o início do Tour de France de 2017; para o seu lugar entrou a menos badalada Düsseldorf.

As economias emergentes como o Brasil, bem como a Rússia e o Qatar, que irão acolher os Campeonatos do Mundo da FIFA em 2018 e 2022 respetivamente, não têm de considerar a mesma lógica económica simples. Para eles, tais eventos desportivos são um investimento nas suas posições globais; as derrapagens de custos e perdas aparentes são, de facto, o preço que estão dispostos a pagar por esse produto. O documentário de Bryan Fogel sobre doping - Icarus -, lançado recentemente na Netflix , lançou acusações de quão longe a Rússia estava disposta a ir para adquirir esse prestígio nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi.

Atração decrescente

Os Jogos Olímpicos e o Campeonato Mundial de Futebol da FIFA estão a atrair menos candidaturas, não atingindo os seus picos anteriores, como ilustrado no gráfico abaixo. Notar-se-á um pico nas candidaturas para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, o que vai contra a tendência geral, mas na realidade, a maioria dos candidatos retirou-se e deixou Pequim e Almaty, no Cazaquistão, como as únicas candidatas.


Número de candidaturas a Jogos Olímpicos e Mundiais de Futebol (1968-2028).

Todos os quatro Campeonatos do Mundo de 2010-2022 serão acolhidos por uma nação em desenvolvimento. No entanto, os próximos três Jogos Olímpicos de Verão terão lugar nas principais cidades das economias desenvolvidas - Tóquio, Paris e Los Angeles. Então, o que aconteceu? Uma explicação é que o Comité Olímpico Internacional (COI) tem vindo a fazer concessões. Mais importante ainda, o COI mudou o seu processo competitivo. Nomeou os anfitriões de duas Olimpíadas consecutivas para dar aos concorrentes mais tempo de preparação. Também permitiu que tanto Paris como Los Angeles decidissem o momento exato e ofereceu 1,8 mil milhões de dólares ao comité organizador de LA.

O COI compreendeu o apelo em declínio do seu acolhimento, ao mesmo tempo que se encarregou de encaminhar os dois concorrentes. Foi por isso que apresentou a Agenda Olímpica 2020, um plano destinado a proporcionar medidas de redução de custos e a reduzir a complexidade do processo de candidatura.

Vale a pena, então, acolher eventos desportivos tão importantes? Olhando para os Jogos Olímpicos, um estudo realizado pela Universidade de Oxford revelou que, em termos reais, o custo médio das derrapagens para todos os Jogos Olímpicos é de 156%. Não deve ser uma grande surpresa. Poucos grandes projetos têm um prazo absoluto e imutável para a sua conclusão. Isso pode aumentar os custos à medida que a cerimónia de abertura se aproxima e o dinheiro é atirado para quaisquer problemas remanescentes.

 Derrapagem de custos dos Jogos Olímpicos em comparação com outras obras públicas Flyvbjerg et. al. (2002); Ansar et. al. (2017); Budzier and Flyvbjerg (2011)

O mesmo estudo concluiu que os Jogos Olímpicos de Verão de Londres de 2012 foram os mais caros, com 15 mil milhões de dólares. Os Jogos de Verão de Montreal de 1976 registaram a maior derrapagem de custos, com mais 720%. O quadro abaixo demonstra que os Jogos Olímpicos de 1968 a 2016 (Verão e Inverno) tiveram todos derrapagens de custos significativas.

 Derrapagem dos custos nos Jogos Olímpicos em termos reais e calculados na moeda local Flyvbjerg, Stewart and Budzier (2016).

Potências emergentes

O declínio do entusiasmo em acolher mega-eventos deve-se a vários fatores. Crucial entre eles é a fragilidade das economias após a crise financeira global, e a crescente desigualdade na distribuição da riqueza e dos rendimentos. Isto traz cada vez mais cinismo em torno de grandes projetos desportivos que necessitam de um vasto financiamento, sobretudo quando não existe uma garantia genuína de benefícios substanciais e discerníveis para os contribuintes.

Antigamente, todos jogavam o mesmo jogo; os países competiam pelos direitos de gabarolice e davam pouca atenção à racionalidade económica ou ao legado de infra-estruturas. Mas agora, os países que mais facilmente podem justificar o risco são os que mais têm a ganhar na cena mundial, e não os que têm os bolsos mais fundos. A Rússia e o Qatar não precisam de apresentar lucro, mas querem uma voz mais forte nos assuntos globais.

Para as economias em desenvolvimento, o acolhimento de mega-eventos é motivado pela globalização e pelo "soft power". A China e a África do Sul mostraram recentemente que pode ser uma oportunidade excecional de conceber uma nova identidade de marca, tanto para os seus cidadãos como para o público global. A atualização da sua imagem global, no entanto, pode chocar com alguns obstáculos. Tanto a Rússia como o Qatar esperam acabar por projetar uma imagem de estados-nação modernos e em avanço, mas por agora ainda estão sobrecarregados com a impressão negativa criada pela corrupção e pelas acusações de suborno.

John Varano é investigador da Universidade de Oxford. Artigo publicado em agosto de 2017 no portal The Conversation. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net

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