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O mundo precisa de alternativas, não só de regulações

Não podemos satisfazer-nos em falar apenas na crise financeira e na necessidade de regulação. Se não se fizer nada, de 20% a 30% de todas as espécies vivas poderão desaparecer daqui a um quarto de século. O nível e a acidez dos mares aumentarão perigosamente, o que pode gerar entre 150 e 200 milhões de refugiados climáticos a partir da metade do século XXI.

Por François Houtart

O mundo tem necessidade de alternativas e não somente de regulações. Não é suficiente remodelar um sistema, trata-se de transformá-lo. É um dever moral e, para compreendê-lo, adoptar o ponto de vista das vítimas permite ao mesmo tempo fazer uma constatação e exprimir uma convicção; a constatação de que o conjunto das crises, financeiras, alimentares, energéticas, hídricas, climáticas, sociais, assinala uma causa comum, e a convicção de que podemos transformar o curso da história.

A constatação

Quando 850 milhões de seres humanos vivem abaixo da linha de pobreza e o seu número aumenta, quando a cada vinte e quatro horas, dezenas de milhares de pessoas morrem de fome, quando dia após dia desaparecem etnias, modos de vida, culturas, pondo em perigo o património da humanidade, quando o clima se deteriora e quando se pergunta se vale ainda a pena viver [ao modo de] uma Nova Orleans, ou Sahel, nas Ilhas do Pacífico, na Ásia central, onde se é cercado pelos oceanos, nós não podemos satisfazer-nos apenas em falar de crise financeira.

Já as consequências sociais desta última [crise financeira] são sentidas bem além das fronteiras da sua própria origem: desemprego, carestia, exclusão dos mais pobres, vulnerabilização das classes médias e alongamento no tempo da lista das vítimas. Sejamos claros, não se trata somente de um acidente de percurso ou de abusos cometidos por alguns actores económicos que será necessário sancionar. Confrontamo-nos com uma lógica que percorre toda a história económica dos dois últimos séculos. [Lógica] de crises em regulações, de desregulações em crises, o desenrolar dos factos responde sempre à pressão das taxas de lucro: em aumento, desregula, em baixa controla-se, mas sempre em prol da acumulação do capital, ele mesma definido como o motor do crescimento. Aquilo que se vive hoje em dia não é, por conseguinte, algo de novo. Não é a primeira crise do sistema financeiro e alguns dizem que não será a última.

Entretanto, a bolha financeira criada durante as últimas décadas, graças, entre outras coisas, ao desenvolvimento das novas tecnologias da informação e das comunicações, tem subdimensionado todos os dados do problema. A economia tornou-se cada vez mais virtual e as diferenças de rendimentos explodiram. Para acelerar as taxas de lucros, uma arquitectura complexa de produtos derivados foi instaurada e a especulação instalou-se como um modo operacional do sistema económico. Contudo, aquilo que é novo, é a convergência lógica entre as desregulamentações que conhece, hoje em dia, a situação mundial.

A crise alimentar é um exemplo. O aumento dos preços não foi, primeiramente, o fruto de uma maior ou menor produção, mas o resultado combinado da diminuição das existências, de manobras especulativas e da ampliação da produção de agro-combustíveis. A vida dos pessoas humanas, por conseguinte, foi sujeitada à busca de lucros. Os números da bolsa de Chicago são a ilustração.

A crise energética vai bem além da explosão conjuntural dos preços do petróleo. Ela marca o fim do ciclo da energia fóssil barata (petróleo e gás), cuja manutenção a um preço inferior provocou uma utilização irreflectida da energia, favorável a um modo de crescimento acelerado, que permitiu uma rápida acumulação do capital a curto e médio prazo. A super-exploração dos recursos naturais e a liberalização das trocas, sobretudo desde os anos 70, multiplicou o transporte das mercadorias e incentivou os meios de deslocação individuais, sem levar em consideração as consequências climáticas e sociais. A utilização de derivados do petróleo como fertilizantes e pesticidas generalizou-se numa agricultura produtivista. O modo de vida das classes sociais superiores e médias construiu-se sobre o desperdício energético. Neste domínio, também, o valor de troca tomou o lugar sobre o valor de uso.

Hoje, esta crise que corre o risco de prejudicar gravemente a acumulação do capital, coloca em descoberto a urgência de encontrar soluções. Elas devem contudo, em tal perspectiva, respeitar a lógica básica: manter o nível das taxas de lucro, sem levar em conta externalidades, ou seja, aquilo que não entra no cálculo contabilístico do capital e cujo custo deve ser suportado pelas colectividades ou pelos indivíduos. É o caso dos agro-combustíveis e as suas consequências ecológicas: destruição, pela monocultura, da biodiversidade, dos solos e as águas subterrâneas; e sociais: expulsão de milhões de pequenos camponeses que vão povoar as favelas e agravar a pressão migratória.

A crise climática, a respeito da qual a opinião pública mundial ainda não tomou consciência de toda a sua gravidade, é, de acordo com os peritos do GIEC (Grupo Internacional dos Peritos do Clima, pela sigla em francês) o resultado da actividade humana. Nicolas Stern, antigo colaborador do Banco Mundial, não hesita em dizer que "as mudanças climáticas são o maior malogro da história da economia de mercado." Com efeito, aqui como previamente, a lógica do capital não conhece "externalidades", excepto quando começam a reduzir as taxas de lucro.

A era neoliberal, que fez crescer as taxas de lucro, coincide igualmente com uma aceleração das emissões de gases de efeito de estufa e do aquecimento climático. O aumento na utilização de matérias primas e dos transportes, do mesmo modo que a desregulação das medidas de protecção da natureza, aumentou as devastações climáticas e diminuiu as capacidades de regeneração da natureza.

Se não se fizer nada num futuro próximo, de 20% a 30% de todas as espécies vivas poderão desaparecer daqui a um quarto de século. O nível e a acidez dos mares aumentará perigosamente e poder-se-ão contar entre 150 e 200 milhões de refugiados climáticos a partir da metade do 21° século.

É neste contexto que se situa a crise social. Desenvolver espectacularmente 20% da população mundial, capaz de consumir bens e serviços de elevado valor agregado, é mais interessante para a acumulação privada a curto e médio prazo, do que responder às necessidades básicas dos quem têm apenas um poder de compra reduzido ou nulo. Com efeito, incapazes de produzir o valor agregado e não tendo senão uma escassa capacidade de consumo, eles não são mais do que uma multidão inútil, no máximo susceptível de ser objecto de políticas assistenciais. O fenómeno acentuou-se com a predominância do capital financeiro. Uma vez mais a lógica da acumulação prevaleceu sobre as necessidades dos seres humanos.

Todo este conjunto de anomalias conduz a uma verdadeira crise de civilização, caracterizada pelo risco de um esgotamento do planeta e uma extinção da vida, o que significa uma verdadeira crise de sentidos. Então, regulações? Sim, se constituem as etapas de uma transformação radical e permitem uma saída de crise que não seja a guerra; não, se fazem apenas prolongar uma lógica destrutiva da vida. Uma humanidade que renuncia à razão e abandona a ética, perde o direito à existência.

Uma convicção

A linguagem apocalíptica não é certamente portadora de acção. Em contrapartida, uma constatação da realidade pode levar a reagir. A investigação e a colocação em prática de alternativas são possíveis, mas não sem condições. Elas supõem, primeiro, uma visão a longo prazo, utopia necessária; em seguida, medidas concretas escalonadas no tempo e, por último, actores sociais portadores dos projectos, num combate cuja dureza será proporcional à recusa da mudança.

A visão a longo prazo pode articular-se em redor de alguns eixos essenciais. Em primeiro lugar, um uso renovável e racional dos recursos naturais, o que supõe outra filosofia com relação à natureza: não mais a exploração ilimitada de uma matéria, neste caso objecto de lucro, mas o respeito daquilo que constitui a fonte da vida. As sociedades do socialismo dito real, pouco inovaram neste sentido.

Seguidamente, privilegiar o valor de uso sobre o valor de troca, o que significa outra definição da economia: não mais a produção de um valor agregado, fonte de acumulação privada, mas a actividade que assegura as bases da vida, material, cultural e espiritual dos seres humanos através do mundo. As consequências lógicas são consideráveis. A partir desse momento, o mercado serve de regulador entre a oferta e a procura, em vez aumentar a taxa de lucro de uma minoria. O desperdício das matérias primas e da energia, a destruição da biodiversidade e a atmosfera, é combatida, levando em consideração as "externalidades" ecológicas e sociais. As prioridades na produção de bens e serviços mudam de lógica.

Um terceiro eixo é constituído por uma generalização da democracia, não somente aplicada ao sector político, por uma democracia participativa, mas também no sistema económico, em todas as instituições e entre os homens e as mulheres. Uma concepção participativa do Estado decorre necessariamente, do mesmo modo que uma reivindicação dos direitos humanos em todas as dimensões, individuais e colectivas. A subjectividade reencontra um lugar.

Por último, o princípio do multiculturalidade vem completar os outros três eixos. Trata-se de permitir a todos os saberes, mesmo os tradicionais, participar na construção das alternativas, a todas as filosofias e culturas, quebrando o monopólio da ocidentalização, a todas as forças morais e espirituais capazes de promover a ética necessária. Entre as religiões, a sabedoria do hinduísmo na relação com a natureza, a compaixão do budismo nas relações humanas, a sede de justiça na corrente profética do Islão, as forças emancipatórias de uma teologia da libertação no cristianismo, o respeito das fontes da vida no conceito da terra-mãe dos povos autóctones da América Latina, o sentido da solidariedade expresso nas religiões da África, são contribuições potenciais importantes, no âmbito evidentemente de uma tolerância mútua garantia pela imparcialidade da sociedade política.

Tudo isso são utopias! Mas o mundo tem necessidade utopias, na condição de elas se traduzirem numa prática. Cada um dos princípios evocados é susceptível de aplicações concretas, que já têm sido objecto de propostas por parte de numerosos movimentos sociais e organizações políticas. A nova relação com a natureza significa, entre outras coisas, a recuperação pelos Estados da soberania sobre os recursos naturais e a sua não apropriação privada; a detenção das monoculturas e da diminuição em valor da agricultura campesina, a ratificação, o aprofundamento das medidas de Kyoto e de Bali sobre o clima.

Privilegiar o valor de uso provoca a não mercantilização dos elementos indispensáveis à vida: as sementes, a água, a saúde, a educação; o restabelecimento dos serviços públicos; a abolição dos paraísos fiscais; a supressão do sigilo bancário; a anulação das dívidas odiosas dos Estados do Sul; o estabelecimento de alianças regionais, sobre base não da competitividade, mas de complementaridade e de solidariedade; a criação de moedas regionais, o estabelecimento de multipolaridades e bem como outras medidas também. A crise financeira constitui a ocasião única de pôr estas medidas em aplicação.

Democratizar as sociedades passa pela organização da participação local, incluindo a gestão de matérias económicas e vai até à reforma das Nações Unidas. A multiculturalidade exprime-se pela abolição das patentes sobre o saber, pela libertação da ciência da influência dos poderes económicos, pela supressão dos monopólios da informação, pelo estabelecimento da liberdade religiosa.

Mas quem será portador deste projecto? É verdade que a engenharia do capitalismo é transformar as suas próprias contradições em oportunidades. How global warming can make you wealthy? (Como o aquecimento global pode enriquecê-los?) lia-se numa publicidade do jornal USA Today do início de 2007. O capitalismo poderá, então, renunciar aos seus próprios princípios? Evidentemente não. Só uma nova relação de poder haverá [de ser portadora deste projecto], o que não exclui a adesão de certos actores económicos contemporâneos. Mas uma coisa é certa: o novo actor histórico, portador dos projectos alternativos, é hoje plural. São os trabalhadores, os camponeses sem terra, os povos indígenas, as mulheres, primeiras vítimas das privatizações, os pobres das cidades, os militantes ecologistas, os migrantes, os intelectuais ligados aos movimentos sociais. A consciência desse actor colectivo começa a emergir. A convergência das suas organizações está apenas no seu começo e ainda carece frequentemente de ligações políticas. Certos Estados, nomeadamente na América Latina, já têm criado condições para as alternativas se realizarem. A duração e a intensidade das lutas destes actores sociais dependerá da rigidez do sistema existente e da intransigência dos seus protagonistas.

Ofereçam então na Organização das Nações Unidas um espaço, de modo que possam exprimir-se e apresentar as suas alternativas. Será a vossa contribuição para a inversão do curso da história, indispensável de modo a que o ser humano reencontre um espaço de vida e possa assim reconstruir a esperança.

Comunicação proferida no painel sobre a crise financeira proferido na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, no dia 30 de Outubro de 2008. Retirado do site do Fórum Mundial das alternativas (FMA) .

François Houtart é professor emérito da Universidade Católica de Louvain (Bélgica)

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Resto dossier

Crise Financeira Internacional (2008)

Com frequência diária, o Esquerda.net reúne neste dossier análises e opiniões variadas para ajudar a compreender as origens e o significado da crise financeira que está a abalar o planeta. De consulta obrigatória.

Via Campesina: soberania alimentar contra a crise

A Via Campesina internacional inaugurou a sua 5ª Conferência no dia 19, em Maputo, Moçambique, ao ritmo de danças e tambores africanos. Sob o slogan "Soberania Alimentar já! Com a luta e a unidade dos povos!", 600 camponeses, homens e mulheres, representantes de organizações de cerca de 70 países do mundo celebraram a inauguração de seu congresso, que se realiza a cada 4 anos.

Afinal, EUA já não vão comprar "activos tóxicos"

O secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, disse na quarta-feira que o plano de resgate de 700 mil milhões de dólares, anunciado pelo governo dos Estados Unidos e aprovado pelo Congresso, já não vai ser usado para comprar os chamados "activos tóxicos" na posse dos bancos, como fora previsto. Em vez disso, o dinheiro do plano deverá ser usado para comprar acções de instituições em dificuldade.

Lista das escolas que suspenderam a avaliação

Há que dizer que muitas escolas têm efectivamente a avaliação suspensa sem sequer terem tomado uma posição sobre o assunto, limitando-se a não colaborar num processo que consideram inexequível e burocrático. Mas há aquelas que decidiram formalmente suspender a avaliação, fosse em Reuniões Gerais de Professores, em Conselho pedagógico, ou Executivo. O esquerda.net apresenta uma lista em actualização, dado que o número aumenta todos os dias. Chamamos a atenção para esta decisão corajosa e "sem papas na língua" do Conselho Executivo do Agrupamento de Escolas Avelar Brotero (Odivelas), bem como para o Conselho Executivo da Escola Francisco Rodrigues Lobo, de Leiria.

Os lucros excessivos provocaram a crise

Quando, daqui a alguns meses, se procurar atenuar a actual recessão através de uma política de investimentos públicos, deveria aproveitar-se a ocasião para erguer um monumento à memória de Marriner Stoddard Eccles, presidente do Banco Central americano de 1934 a 1948 e aí gravar páginas do seu Beckoning Frontiers [New York: Ed. Alfred A. Knopf, 1951] onde analisa, em pormenor, as causas do colapso económico de 1929-1930 e da grande depressão que se lhe seguiu.

O mundo precisa de alternativas, não só de regulações

Não podemos satisfazer-nos em falar apenas na crise financeira e na necessidade de regulação. Se não se fizer nada, de 20% a 30% de todas as espécies vivas poderão desaparecer daqui a um quarto de século. O nível e a acidez dos mares aumentarão perigosamente, o que pode gerar entre 150 e 200 milhões de refugiados climáticos a partir da metade do século XXI.

Declaração sobre a proposta de uma “Cúpula Global” para reformar o sistema financeiro internacional

550 organizações sociais de 88 países tomam posição sobre a reunião do G-20, marcada para 15 de Novembro para debater a crise financeira mundial. As organizações denunciam as políticas neoliberais impostas aos países em desenvolvimento, apoiam uma conferência internacional convocada pelas Nações Unidas, mas não o G20, reivindicam uma resposta verdadeiramente mundial a esta crise e apresentam princípios para isso acontecer.

A China face à crise financeira

A actual crise mundial não afecta directamente a República Popular através da derrocada dos mercados financeiros e da contracção do mercado do crédito, como é o caso nos Estados Unidos e na Europa. As suas consequências são indirectas, e sublinham a dependência da economia chinesa face à conjuntura internacional.

Crise económica mundial: uma oportunidade histórica para a mudança

Uma declaração de cidadãos, movimentos sociais e organizações não-governamentais de apoio a um programa transitório de transformação económica radical, nascida de discussões entre associações presentes no Fórum dos Povos Ásia-Europa, realizado em Pequim em Outubro de 2008.

Bloco lança "O Espectro de Wall Street"

"O Espectro de Wall Street - O crash financeiro e a crise de sobreprodução" é o título da conferência proferida por Francisco Louçã, que também pode ser ouvida aqui. O objectivo desta sessão era apresentar de uma forma simples uma interpretação dos principais factores da crise financeira. Agora, o Bloco editou uma brochura que transcreve a apresentação de Louçã.

Mercados não são solução para a habitação

Depender dos bancos privados para financiar o acesso à habitação vai deixar mais pessoas sem tecto nas cidades, em lugar de convertê-las em proprietárias, alertou Raquel Rolnik, relatora especial da Organização das Nações Unidas para Habitação Adequada.

Crise: perda global é de 2.800.000.000.000 dólares

O Banco de Inglaterra estimou em 2,8 biliões de dólares (milhões de milhões) as perdas sofridas pelos bancos, as seguradoras e os fundos de investimento em todo o mundo, devido à crise financeira. O cálculo foi divulgado pelo banco central britânico no seu relatório semanal sobre a City. Nos Estados Unidos, as perdas passaram de 739 mil milhões para 1,57 biliões de dólares; e na Europa, de 344 mil milhões para 785 mil milhões de euros.

A depressão: uma visão de longa duração

Começou uma depressão. Os jornalistas ainda estão timidamente a perguntar aos economistas se podemos ou não estar a entrar numa mera recessão. Não acreditem nem por um minuto. Já estamos no início de uma completa depressão mundial, com desemprego extensivo em quase todo o lado.

A desigualdade global tem de acabar

Os pobres têm subsidiado os ricos desde há muito tempo. Um maior envolvimento do estado na actividade económica é agora necessário. O mais importante é que o sistema financeiro internacional fracassou em encontrar duas exigências óbvias: prever instabilidades e crises e transferir recursos das economias ricas para as pobres. A análise é da economista indiana Jayati Ghosh.

De que real é esta crise o espectáculo?

Nas últimas semanas, fala-se frequentemente da "economia real" (a produção de bens). E opõe-se-lhe a "economia irreal" (a especulação), de onde viria todo o mal, visto que seus agentes teriam-se tornado "irresponsáveis", "irracionais" e "predadores". Essa distinção é, evidentemente, absurda. O capitalismo financeiro é, há cinco séculos, uma peça central do capitalismo em geral.

Não é hora de pensar no défice

O Dow Jones disparou! Não, despencou! Não, disparou! Não... Pouco importa. Enquanto o mercado de ações maníaco-depressivo domina as manchetes, a história realmente importante está nas más notícias que não param de surgir sobre a economia real. Fica claro agora que resgatar os bancos é apenas o começo: a economia não-financeira também precisa desesperadamente de ajuda.

Biliões para salvar os bancos. E só os bancos

"Achamos que é uma vergonha se conseguir milhares de milhões de dólares para salvar os bancos e não haver dinheiro para erradicar a pobreza no mundo", disse Marina Navarro, porta-voz na Espanha de aproximadamente mil organizações solidárias mobilizadas na sexta-feira passada.

É tempo de abandonar a economia de casino!

As Attac da Europa aprovaram uma declaração comum em que apontam: "Para responder a esta crise não basta moralizar o capitalismo ou atribuir culpas aos agentes dos mercados financeiros. Uma regulamentação superficial e uma gestão da crise a curto prazo teriam como única consequência salvar o sistema e conduzir-nos para novos desastres. Responder a esta crise exige sair do neoliberalismo e pôr fim ao domínio da finança sobre o conjunto da sociedade".

Crise: conversa fiada

Voltaire dizia que o Sacro Império Romano não era sacro, nem império, nem romano. Os neoliberais dizem-nos que um descuido gerou uma bolha especulativa que será corrigida com algumas resoluções do Banco Central. É uma piada.

O capitalismo obsceno

O desastre financeiro levou, na sua queda, todo o edifício ideológico dos advogados da "mundialização feliz". Estão a ser feitas constatações óbvias: a financiarização é um cancro que apodrece a vida de milhares de milhões de seres humanos e que lhes inflige uma dupla penalização. Na verdade, tudo vai ser feito para que sejam as vítimas que paguem a louça partida, e que desencalhem a situação de uma minoria de delinquentes sociais.

Wallerstein: O capitalismo está a chegar ao fim

Depois de ter, antes de todos, previsto o declínio do império americano, Immanuel Wallerstein afirma agora que entrámos desde há 30 anos na fase terminal do sistema capitalista. "A situação torna-se caótica, incontrolável para as forças que até então o dominavam, e assiste-se à emergência de uma luta, já não entre os detentores e os adversários do sistema, mas entre todos os actores para determinar o que o vai substituir", diz o sociólogo norte-americano.

Stiglitz: Na Europa “é preciso autorizar défices superiores a 3% do PIB”

Em entrevista ao jornal Le Monde publicada no passado Sábado, 11 de Outubro de 2008, Joseph Stiglitz,  prémio Nobel da Economia em 2001, afirma que para enfrentar a crise na Europa são precisas soluções comuns "europeias", defende que "é preciso autorizar défices superiores a 3% do PIB" e considera ainda: "Os estatutos do Banco Central Europeu, que está focalizado na inflação e não no crescimento, são também um problema".

Tudo o que quer saber sobre a crise mas tem medo de não entender

O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? O pior já passou? O que a crise de superprodução dos anos 70 tem a ver com os acontecimentos recentes? Qual a relação entre a política de reestruturação neoliberal, adoptada para superar a crise de superprodução, e o colapso de Wall Street? Como se formam, crescem e explodem as bolhas e como se formou a actual bolha imobiliária? Walden Bello, professor de ciências políticas e sociais, oferece algumas respostas a tais questões.

A natureza antidemocrática do capitalismo, por Noam Chomsky

A liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram de "parlamento virtual" de investidores e credores, que controlam de perto os programas governamentais e "votam" contra eles, se os consideram "irracionais", quer dizer, se forem em benefício do povo e não do poder privado concentrado.

Os capitalistas que paguem a crise!

O novo plano Paulson tal como o primeiro financiamento francês de um banco falido, o Dexia, mostram o que é a resposta capitalista para a crise: salvar o sistema salvando os ricos, pagando por ela as pessoas que obviamente não têm responsabilidade no desastre. Não à unidade nacional para salvar o capital!

Mundo enfrenta risco severo de desastre financeiro e de depressão global

Neste momento, o comboio da recessão já saiu da estação; o comboio da crise financeira e bancária saiu da estação. A ilusão de que a contracção dos EUA e das economias avançadas seria curta e superficial foi substituída pela certeza de que será longa e prolongada.

Crise vem pôr a nu os limites históricos do sistema capitalista

Bolsa de Xangai. Foto de 2dogs, FlickRNesta apresentação feita em 18 de Setembro em Buenos Aires, o economista marxista francês François Chesnais expõe a forma como o capitalismo, na longa fase de expansão que ficou atrás, tentou superar os seus limites imanentes. E como todas essas tentativas contribuíram para criar agora uma crise muito maior. Comparável à de 1929, mas que ocorre num contexto totalmente novo.

A dupla crise europeia: financeira e democrática

A crise financeira atingiu a Europa, apesar dos discursos que, desde há um ano, pretendiam tranquilizar, mas que revelavam uma total cegueira sobre as suas causas e amplitude. A integração financeira atingiu um tal grau que todos os bancos e instituições financeiras foram envolvidos na bolha imobiliária e participaram na especulação sobre títulos hipotecários. A economia real é agora afectada, pois vários países membros da UE entraram em recessão.

Desequilíbrios estruturais do capitalismo actual

A actual crise económico-financeira internacional insere-se no marco de um ciclo longo recessivo, do qual o capitalismo não conseguiu sair desde o seu início, em meados da década de 70 do século passado. Sem essa inserção, fica difícil a apreensão do carácter dessa crise, das consequências que pode produzir e do cenário que deve surgir depois dela.
Por Emir Sader, publicado originalmente no Brasil de Fato.

De onde sairá o dinheiro para salvar os ricos e os bancos?

Uma das questões que mais chama a atenção dos cidadãos comuns é de onde vai sair ou de onde estão a sair as centenas e centenas de milhares de milhões de dólares que os bancos centrais e o tesouro norte-americano estão a pôr à disposição dos bancos.

Plano Paulson não evita recessão nos EUA

Para o economista James Galbraith, o plano de socorro nos EUA só empurra o problema para o próximo presidente. Para ele, "o que acontece aqui não é socialismo, mas um acto de tentar salvar um grupo de pessoas culpado de actos muito prejudiciais".

A solução de Bush não chega nem a ser um placebo

Todos sabemos que há remédios que, apesar de não curarem a doença, confortam o doente, e inclusive que há placebos que, sem nada modificar a situação real do paciente, fazem-no acreditar que melhorou, ou mesmo que ficou curado. Pois bem, o plano Bush não chega nem a ser placebo.

Louçã defende medidas para proteger os mais afectados pela subida das taxas de juro

Na sessão pública sobre a crise financeira realizada em Lisboa, Francisco Louçã voltou a defender a descida das taxas de juro e criticou o silêncio do governo sobre os riscos da crise para o país. "A independência do Banco Central Europeu é um álibi para que ninguém assuma as responsabilidades", afirmou o economista e deputado bloquista. Clique para ouvir, em wma e veja o resumo da apresentação, em pdf.

Algumas coisas que os média não dizem sobre a crise nos EUA, por Michael Moore

O cineasta Michael Moore conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios electrónicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e o seu braço mediático (as redes de TV e outros meios) prosseguem a estratégia de atemorizar a população.

Crise: rir é o melhor remédio

Imagem do programa britânico Bremner, Bird & Fortune Quer entender as origens da crise financeira actual e ainda rir sem parar? Pois veja este vídeo retirado do programa humorístico Bremner, Bird & Fortune, produzido para o Channel Four britânico. Emitido em 7/10/07, mantém toda a actualidade e tem legendas em castelhano. Os humoristas John Bird e John Fortune desempenham os papéis de um entrevistador e de um investidor que explica os mecanismos da crise. E nada do que é dito é falso... Clique na imagem ou leia mais para ver o vídeo.

As razões da oposição ao Plano Paulson

A proposta do Secretário do Tesouro dos EUA, Hank Paulson, desperta forte reacção na sociedade ao propor o resgate dos banqueiros ricos e não dos devedores pobres. Entre os que se opõem à proposta estão nomes como George Soros, Paul Krugman e Michael Moore. Segundo Moore, os republicanos estão a usar os seus velhos truques de provocar medo e confusão "para continuar eles mesmos e o 1% da classe alta, obscenamente ricos".

A crise do capitalismo e a importância actual de Marx, entrevista com Eric Hobsbawm

Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a actualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: "Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que os seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista".

Entenda o plano que o Congresso dos EUA rejeitou

É possível que o Congresso dos EUA volte a votar o plano de resgate de Wall Street na quinta-feira. Os votos "não", analisa o Wall Street Journal, vieram de republicanos e de democratas predominantemente de distritos habitados por população de baixo rendimento, pessoas furiosas por o plano ajudar os banqueiros mas não as pessoas que já perderam as suas casas (por não poder pagar a hipoteca) ou estão em riscos de perdê-las. Baseados num artigo da BBC, preparámos um resumo das disposições do plano rejeitado na segunda-feira.

Plano privatiza ganhos e socializa perdas

Num artigo bombástico publicado no seu blogue, Nouriel Roubini, professor de economia na Universidade de Nova York, afirma que o plano de resgate aprovado nesta segunda-feira nos EUA é uma desgraça e um roubo, que privatiza os ganhos e socializa as perdas, e significa a salvação e o socialismo para os ricos. O Esquerda.net vai publicar regularmente artigos sobre a crise financeira mundial, reunidos num dossier em actualização permanente.

"A crise de Wall Street equivale à queda do Muro de Berlim"

Para o prémio Nobel de Economia de 2001, a crise financeira que atingiu Wall Street e os mercados financeiros de todo o mundo equivale, para o fundamentalismo de mercado, ao que foi a queda do Muro de Berlim para o comunismo. "Ela diz ao mundo que esse modelo não funciona. Esse momento assinala que as declarações do mercado financeiro em defesa da liberalização eram falsas", diz Stiglitz.

Nasceu o capitalismo sensato?

A nacionalização de instituições financeiras norte-americanas e inglesas é um "internamento" temporário, para estancar hemorragias antes de devolver os pacientes ao casino. Mas também é certo que estas nacionalizações instalam, como há décadas não havia, um debate estratégico no campo da economia.

700 mil milhões de dólares para apagar uma dívida privada e aumentar a dívida pública

Diariamente surge um conjunto de provas do carácter inaceitável do sistema económico e financeiro mundial. O governo federal americano acaba de decidir comprar os créditos imobiliários mal parados detidos pelos bancos e por outras instituições financeiras até ao montante de 700 mil milhões de dólares. Esta soma representa apenas a parte visível do iceberg do endividamento apodrecido.

É o fim do capitalismo?

Esta pergunta circulou nos últimos dias na imprensa financeira respeitável. Assim colocada, a pergunta não tem grande sentido. Todos conhecemos a correlação das forças sociais e políticas. E todos sabemos que uma transição sistémica desejável deverá ser o resultado de um longo processo de acumulação de forças democráticas e de vitórias socialistas no campo das ideias e das políticas públicas.