Está aqui

A noite das barricadas há 50 anos em Paris

Na noite de 10 de maio de 1968, em poucas horas num espaço curto em Paris, foram erguidas 60 barricadas, sem qualquer plano prévio ou estratégia coerente. Na manhã de 11, após a brutal repressão policial, os estudantes apelam à greve geral a partir de 13 de maio. Por Carlos Santos.
m poucas horas num espaço curto em Paris, foram erguidas 60 barricadas, sem qualquer plano prévio ou estratégia coerente

Sobre as barricadas dirão1, 40 anos depois, Daniel Bensaïd e Alain Krivine:

“As barricadas de 10 de maio foram, em grande parte; o trabalho de uma inspiração espontânea, contagiante e comunicativa, que repentinamente fez saltar os paralelepípedos, nascer cadeias humanas para os carregar, surgir paredes barrocas dignas do cavalo Facteur2, derrubar árvores, tomar a forma de um dispositivo em loop; sem plano preconcebido, no perímetro da rua Gay-Lussac à rua Mouffetard e da rua Soufflot à avenida Claude Bernard.”

O início de Maio de 68 em Paris

Nesse ano, o 1º de Maio foi comemorado em Paris, com um desfile convocado pela CGT, algo que não acontecia desde 1954. A manifestação juntou entre 50 e 100 mil pessoas, tendo o serviço de ordem da CGT expulsado, segundo a polícia, “elementos trotskistas, prochineses e anarquistas”, dos quais 17 ficaram feridos.

Estudantes concentrados em Paris, maio de 1968 - foto wikimedia
Estudantes concentrados em Paris, maio de 1968 - foto wikimedia

No dia seguinte a Universidade de Nanterre foi fechada e, a 3 de maio, o reitor da Sorbonne chamou a polícia para expulsar os estudantes, uma atitude que rompia com a tradição académica e revoltou os universitários3. As manifestações prolongam-se pela noite e são duramente reprimidas. 567 pessoas foram identificadas e detidas, algumas dezenas ficaram feridas, sete presos são levados a julgamento.

No fim de semana de 4 e 5 de maio, a UNEF (União nacional dos estudantes de França), juntamente com o Movimento 22 de março4 e outros grupos estudantis, apela à greve e a manifestações a 6 de maio. No domingo 5 de maio, sete pessoas são julgadas, tendo quatro sido condenadas a dois meses de prisão efetiva. “Libérez nos camarades!” foi gritado à porta do tribunal e será uma exigência central de todas os protestos dos dias seguintes.

A 6 de maio, segunda-feira, oito “revoltados de Nanterre” vão a conselho de disciplina da universidade de Paris, sob a ameaça de serem expulsos. As manifestações começam de manhã e prolongam-se ao longo do dia. Ao final da tarde, a polícia de choque intervém, os confrontos prolongam-se durante horas, com o lançamento de granadas de gás lacrimogéneo e violentas bastonadas por parte da polícia, ao que respondem os estudantes lançando pedras e cocktails molotov. Segundo a France-Press, 422 estudantes são presos e 345 polícias ficam feridos. Crescem os apoios aos estudantes entre os residentes das zonas em que se verificam os confrontos, nomeadamente no Quartier Latin.

No dia seguinte, 7 de maio a mobilização estudantil amplia-se muito mais, durante muitas horas mais de 30.000 estudantes fazem uma pacífica longa marcha pelas ruas de Paris. Professores juntam-se aos estudantes, que cantam a Internacional junto ao túmulo do soldado desconhecido.

A 8 e 9 de maio, os apoios aos estudantes crescem: pela primeira vez, as centrais sindicais CGT e CFDT manifestam solidariedade, cinco prémios Nobel franceses apelam à amnistia dos estudantes presos. No entanto, os estudantes não são libertados e a Sorbonne permanece encerrada, apesar das promessas, até do ministro da Educação.

10 de maio, a noite das barricadas

Como nos dias anteriores, os estudantes realizam nova manifestação, com uma novidade: pela primeira vez, os estudantes secundaristas fecham escolas, saem à rua e juntam-se, aos milhares, aos universitários, indo para a frente da marcha.

Pela primeira vez, os estudantes secundaristas fecham escolas, saem à rua e juntam-se, aos milhares, aos universitários, indo para a frente da marcha
Pela primeira vez, os estudantes secundaristas fecham escolas, saem à rua e juntam-se, aos milhares, aos universitários, indo para a frente da marcha

De novo, ao longo de horas a manifestação vai engrossando e, ao início da noite, chegará já às 20.000 pessoas. Depois de exigirem a libertação dos estudantes presos, junto à prisão de La Santé, os manifestantes dirigem-se de novo para o Quartier Latin.

A concentração prolonga-se com a situação num impasse, nem os estudantes abandonam a rua e as suas reivindicações, nomeadamente a libertação dos seus camaradas presos a 3 de março, nem a polícia abandona o local – o governo não cede nem um passo, espera que os estudantes se cansem.

De repente, surge a ideia de levantar barricadas (ver nota 1). Às 21.15h está erguida a primeira barricada, com paralelepípedos, mas também com todo o tipo de materiais que podem juntar, como andaimes, fios, ferros e, ao longo da noite, carros virados. Durante horas, são levantadas mais de 60 barricadas, numa pequena área da cidade de Paris.

O impasse dura até às duas horas da manhã, quando a polícia recebe a ordem de reprimir e destruir as barricadas.

Na manhã de dia 11, Daniel Cohn-Bendit apela: “a todos os sindicatos, a todos os partidos de esquerda, a entrarem em greve geral a partir de segunda-feira, em solidariedade com os estudantes e os jovens trabalhadores”

Os acontecimentos são transmitidos em direto pela rádio. Na televisão, o programa “Panorama” que então era emitido todas as sextas-feiras às 20.30h, é “brutalmente amputado”, depois da sua visualização por dois representantes dos ministros da Educação e da Informação, que exigem os cortes sob a argumentação de que não é “suficientemente equilibrado”5.

Durante as horas de expectativa há mesmo momentos de negociações em direto através da rádio (RTL), com a participação de líderes estudantis e do vice-reitor da Academia de Paris, mas que não resultam porque o governo recusa ceder. Daniel Cohn-Bendit, dirá que “as barricadas não eram apenas um meio de autodefesa, mas tornaram-se símbolos de uma certa liberdade”, demonstrando um “sentimento de força e de unidade”.

Entre as duas e as cinco horas da madrugada, a polícia de choque desmantela as barricadas e varre as pessoas lá presentes. O resultado são, segundo a polícia, 367 pessoas feridas, entre as quais 251 polícias e 102 estudantes.

A brutal repressão não consegue calar o protesto, pelo contrário a ampliação é real e, na manhã de dia 11, Daniel Cohn-Bendit pede aos estudantes que dispersem e apela: “a todos os sindicatos, a todos os partidos de esquerda, a entrarem em greve geral a partir de segunda-feira, em solidariedade com os estudantes e os jovens trabalhadores”. Assim será.

Artigo de Carlos Santos para esquerda.net


Notas:

3 Ler artigos no esquerda.net: aqui e aqui.

Sobre o/a autor(a)

Editor do esquerda.net Ativista do Bloco de Esquerda.
(...)

Resto dossier

“Dizer Não É Pensar” - frase de Alain, Émile-Auguste Chartier (1868-1951), tornou-se simbólica em 1968

1968 – 50 anos depois

O ano de 1968 ficou marcado pela revolta de Maio em França. No entanto, 1968 foi muito mais do que o Maio francês. Foi um movimento de revolta e mudança que marcou o mundo e que, 50 anos depois, continua presente e marcante. Dossier organizado por Carlos Santos

Imagem simbólica da ofensiva do Tet em 1968

1968 começou no Vietname

Em fevereiro de 1968, as forças de libertação lançaram no Vietname do Sul a ofensiva do Tet, que representou uma viragem na guerra e no crescimento da resistência e marcou o ascenso da luta de libertação até à vitória. Por Pierre Rousset.

Grafitti “Jouissons sans entraves” (“Desfrutemos sem restrições”), Maio de 68 - O slogan pode ser interpretado à letra como o exagero do egocentrismo. Pode também evocar a possibilidade de se satisfazer doutra maneira que não pelo constrangimento ou pelo poder

Um intenso fervor artístico e cultural carateriza a explosão do Maio de 68

O Maio de 68 fez convergir duas abordagens geralmente divergentes. Este texto é a quarta e última parte do artigo “Maio de 68 no mundo”, de Gustave Massiah, publicado em Contretemps.

Maio de 68: algumas “palavras de desordem”

Onde maio é emancipação é porque foi esse lugar do encontro improvável entre mundos sociais distantes e condenados a não se cruzarem.

Conferência de imprensa com os realizadores Claude Lelouch, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Louis Malle, Roman Polanski - festival de Cannes, 1968

Maio 68: De Cannes a Paris, o mês que sacudiu o mundo

Se há uma herança de Maio, que é a dos movimentos sociais que então se expressaram, é a luta contra o sexismo, ou contra o racismo, ou pelos direitos civis, ou pelo ensino público, ou pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras na empresa, que definiram o mínimo de que parte a vida democrática. Por Francisco Louçã

A ocupação da fábrica LIP em Besançon durou anos - Imagem lesutopiques.org

O outro aspeto do Maio de 68: a greve geral com ocupação dos locais de trabalho

“No princípio de junho [de 68], havia sete milhões de trabalhadores em greve, na França toda. Não havia gasolina, não havia restaurantes abertos” destaca José Mário Branco ao esquerda.net, no seu testemunho sobre o Maio de 68. Entrevista de Carlos Santos

Em poucas horas num espaço curto em Paris, foram erguidas 60 barricadas, sem qualquer plano prévio ou estratégia coerente, 10 de maio de 1968

A noite das barricadas há 50 anos em Paris

Na noite de 10 de maio de 1968, em poucas horas num espaço curto em Paris, foram erguidas 60 barricadas, sem qualquer plano prévio ou estratégia coerente. Na manhã de 11, após a brutal repressão policial, os estudantes apelam à greve geral a partir de 13 de maio. Por Carlos Santos.

"Iremos até ao fim" Cartaz de Maio 68

Maio 68: À bientôt, J’espere

Em artigo publicado em 2008 na revista “A Comuna”, Mário Tomé salienta que em 1968 o “ambiente internacional era de crise do sistema” e afirma que “a revolução de Maio de 68 foi a primeira de âmbito global”.

Marcha contra a guerra do Vietname, Nova York, 27 de abril de 1968

Noam Chomsky sobre 1968

Uma das reações mais interessantes a emergir de 1968 surgiu na primeira publicação da Comissão Trilateral que entendia que se estava perante uma “crise da democracia” por haver demasiada participação das massas. Artigo publicado em “New Statesman”, a 8 de maio de 2008

Berlim Ocidental era a capital da guerra fria. Alguns anos antes, a realização nesta cidade de um Congresso pelo Vietname seria impensável

O Maio de 68 e o movimento antiguerra: de Londres a Berlim

Este artigo é um extrato do livro de Tariq Ali (Street Fighting Years), onde este conta os acontecimentos decorridos em Berlim durante o Congresso sobre a guerra do Vietname, organizado pela SDS, Liga estudantil socialista alemã.

“Muito do que acontece hoje tem as suas raízes nas alegres e audazes jornadas das massas juvenis que percorreram as ruas da capital do México e de outras cidades do país”

O 68 mexicano, 50 anos depois

O 68 mexicano, em especial a sua sangrenta tragédia final em Tlatelolco a 2 de outubro, foi o último grande marco na série de acontecimentos que abalaram o mundo nesse ano. Por Manuel Aguilar Mora.

"É injusto dizer que o Maio de 68 só chegou em 69 a Portugal"

Bruno Góis entrevistou Joana Lopes no Socialismo 2018 sobre os 50 anos do Maio de 68, e o impacto que o mesmo teve em Portugal.