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Lugares da memória democrática

Temos a obrigação e a missão de socializar o conhecimento que existe, através da memória dos resistentes e da história. Entrevista com Luís Farinha, diretor do Museu do Aljube.
“A importância dos museus é constituírem-se como lugares de memória democrática, onde acumulamos o conhecimento que já existe quer através da memória dos resistentes, quer através da história” Luís Farinha

Qual a importância da museologia, dos museus, para preservar a memória não só da ditadura, mas da resistência à ditadura?

A importância dos museus é constituírem-se como lugares de memória democrática, onde nós acumulamos o conhecimento que já existe quer através da memória dos resistentes, quer através da história, que se desenvolveu muito nos últimos anos sobre esse período.

Temos a obrigação e a missão de socializar esse conhecimento. Ou seja, de torná-lo cada vez mais amplo, conhecido, porque naturalmente nem todas as pessoas tinham a noção da realidade na sua totalidade. O país vivia sob uma grande máscara de silêncio, obtido através de mecanismos muito eficazes, quer o medo que era imposto pela polícia, quer a censura, quer outros mecanismos de repressão e de opressão. Portanto, há um conjunto muito vasto da população portuguesa que passou um pouco há margem desta realidade, que não conheceu totalmente o que aconteceu.

Na verdade os milhares de presos e torturados não deixa de ser uma parte, apenas uma parte da população portuguesa. A grande maioria da população portuguesa passou por várias razões um pouco à margem desta realidade, primeiro porque não era urbana, depois porque vivia num mundo muito arcaico, porque não tinha conhecimento do que acontecia por várias razões. A história e a memória têm a obrigação de trazer ao conhecimento de todos, ao conhecimento da sociedade essa ausência de democracia longa, muito longa, longuíssima, de quase meio século, a que as pessoas se foram habituando quase sem darem por ela, sem terem a noção do que tinha sido, por exemplo, durante a I República viver em democracia.

O país vivia sob uma grande máscara de silêncio, obtido através de mecanismos muito eficazes, quer o medo que era imposto pela polícia, quer a censura, quer outros mecanismos de repressão e de opressão

A maior parte dos portugueses tem uma ideia completamente deformada da I República. Na verdade, a I República foi uma primeira experiência democrática. Ou seja, tinha partidos políticos, tinha sindicalismo livre, tinha imprensa livre, tinha associativismo livre.

As pessoas não têm essa noção têm uma ideia deformada da I República. Um regime muito conflituoso muito caótico etc. mas na verdade não foi nada disso. O que aconteceu foi que a maior parte dos nossos bisavós não fazia a mínima ideia do que era passar de um regime, onde havia partidos políticos, associações culturais, vida cultural, imprensa livre para um regime que não tinha nada disso.

E foram passando lentamente sem tomarem consciência, foi a pouco e pouco, a pouco e pouco, a pouco e pouco, com o auxílio de facto de mecanismos opressivos e repressivos muito fortes, o exército, a polícia política, a censura, o auxílio de instituições como a igreja, conservadoras, e o silêncio instalou-se.

E só não existia silêncio para um conjunto de gente organizada politicamente, que obviamente corria todos os riscos e que passou pelas cadeias às vezes dezenas de anos, vidas inteiras de cadeia.

Portanto, nós temos a obrigação de dizer às pessoas todas, não é só aos jovens. Às vezes tem-se a ideia de que os jovens são incultos, não são politizados, não sabem, não é nada disso. Os jovens sabem muito bem e quando cá vêm percebem tudo muito bem e sabem tudo muito bem, desde que conheçam. Infelizmente não conhecem, é outra questão, assim como não conhecem muitos portugueses.

Este museu é uma casa de memória”

Este museu [Aljube], que é uma casa de memória, tem como obrigação dar a conhecer esse tempo, quer do ponto de vista das memórias que vamos acumulando, porque fazemos aqui recolha de memórias de ex-resistentes de ex-combatentes, etc, quer através do conhecimento histórico que já é bastante vasto. Felizmente, o estado novo e a ditadura militar é dos períodos mais bem conhecidos da história portuguesa de sempre. Houve um conjunto de cidadãos que se dedicaram muito afincadamente a conhecer, a investigar e a dar a conhecer e a divulgar a história do estado novo, a história da ditadura militar e isso tem de passar aos portugueses todos, não pode ser apenas para meia dúzia de portugueses.

O museu é uma forma de termos aqui milhares de pessoas, em 2018, tivemos aqui 30.000 pessoas, durante o ano

O museu é uma forma de termos aqui milhares de pessoas, repare o ano passado, 2018, tivemos aqui 30.000 pessoas, durante o ano. Dir-se-á, são poucas, são poucas e muitas. São 30.000 e dessas 30.000 um quarto tiveram visitas orientadas. Longas às vezes de duas horas, em que se têm autênticas aulas de memória, de história.

Este é o lugar destes museus de memória que existem. Em Portugal é o único, aqui no sul da Europa não há muitos, pode-se dizer que em Espanha não há nenhum, embora os espanhóis gostassem muito de ter. Em Itália também não há nenhum sobre o fascismo italiano, embora também gostassem muito de ter. Os gregos também gostavam de ter, vêm cá de vez em quando e dizem: nós não temos um museu destes, mas gostávamos de ter.

O norte da Europa é um pouco diferente, porque como teve regimes como o nazismo e teve a resistência à guerra há museus que tocam nesses assuntos, da resistência à guerra e ao fascismo e ao nazismo. Todo o sul da Europa, que viveu ditaduras até tardíssimo, não tem um museu como este.

Ao contrário, por exemplo, da América Latina, onde há dezenas de casas de memória em todos aqueles países, desde a Argentina até à Colômbia. Têm dezenas de casas de memória sobre as ditaduras que aqueles paśes viveram ao longo do século XX e o objetivo deles é exatamente o mesmo também.

Claro que nós aqui tentamos dar a conhecer de formas muito diferentes ou com visitas orientadas ou com atividades culturais ou com colóquios.

Todo o sul da Europa, que viveu ditaduras até tardíssimo, não tem um museu como este

Por exemplo, aqueles três colóquiios que está a ver ali (apontando para três cartazes de iniciativas) foram colóquios internacionais, um foi em 2016, outro em 2017, este de 2017 foi com países da América Latina. Estiveram cá sete ou oito países da América Latina, das tais casas da memória. Este último foi do ano passado e tem a ver com uma temática portuguesa e ibérica das esquerdas radicais. Temos aqui muitas formas de desenvolver, porque também é essa a ideia, de desenvolver o conhecimento que existe, dar a conhecer o que já está sedimentado e socializar, dar a conhecer ao maior número de portugueses e de estrangeiros que nos visitam o que foi a história da resistência à ditadura sem a qual nós não teríamos tido o fim das guerras, o fim da ditadura, o 25 de Abril, a democracia que temos. Não teríamos tido nada disso.

E é preciso que as pessoas percebam, por um lado percebam isso, e percebam também que a Liberdade é uma coisa que não é eterna e que pode perfeitamente regredir. Como lhe dizia há pouco, os nossos bisavós de certeza, quando colaboraram no golpe militar de 28 de maio de 1926, muitos deles, e houve muita gente a colaborar nesse golpe militar, civis até forças sindicais participaram, de certeza que eles não sabiam o que ia acontecer. Se eles advinhassem que ia acontecer um regime fascista com aqueles anos todos e com aquelas caraterísticas, um regime imperialista e guerrista colonialista, de certeza que eles não tinham participado.

Não advinhavam, não é? O mesmo pode perguntar-se aos alemães. Se for à Alemanha e perguntar a um conjunto muito grande de alemães que estão vivos ainda hoje: o senhor imaginava quando apoiou o Hitler e votou imaginava que ia haver o Holocausto? Ele vai dizer que não e provavelmente até está a ser sincero. O que quer dizer que temos que estar avisados.

Já me respondeu à segunda pergunta que ia fazer, sobre as iniciativas que o museu pode ter. O exemplo do museu do Aljube é bastante importante…

Desenvolvemos muitas atividades diferentes. Desenvolvemos atividades na área do serviço educativo. Temos um serviço educativo que recebe milhares de pessoas organizadas em grupos

Também vão a escolas?

Também vamos a escolas, também vamos a associações culturais, também vamos a outros países

Também vamos a escolas, também vamos a associações culturais, também vamos a outros países. Ainda há pouco tempo estive em Sevilha porque os sevilhanos querem transformar a cadeia de Gavidia1, que era uma cadeia em tudo semelhante a esta, nos anos 70. Querem transformá-la também num museu de memória e daqui a uns dias vou estar na Galiza, na Casa do Povo da Galiza, porque os galegos querem transformar uma prisão em museu de memória. O ano passado estive na Colômbia numa destas casas de memória. E também viajamos no nosso país

Ainda há pouco tempo estivemos em Espinho, na Escola Secundária de Espinho. Fizemos a distância a meias, veio uma antifascista do Porto, São Mamede de Infesta, e encontrámo-nos em Espinho. Na Escola de Espinho, com cerca de 200 e tal alunos a assistir, ela prestou o seu testemunho ao vivo, fizemos uma filmagem, temos esse testemunho para o futuro da vida de uma mulher que era filha de um daqueles marinheiros que fizeram a revolta de 1936 e ela depois foi presa. Uma vida de resistência.

Temos ciclos de recolha de testemunhos, desenvolvemos colóquios, desenvolvemos atividades de vária ordem

Temos ciclos de recolha de testemunhos, desenvolvemos colóquios, desenvolvemos atividades de vária ordem. Por exemplo, no dia 23 de abril vamos ter um peddy paper para jovens, para dar a conhecer os locais e as ações da revolução de Abril aqui na baixa de Lisboa.

É um serviço educativo com múltiplas formas de atividade. Este ano temos um concurso de contos, com mais de meia centena de pessoas a participar nesse concurso, que depois terá uma publicação, que já existiu no ano passado.

Provavelmente vamos ter duas a três centenas de pequeninos filmes, de um e meio dois minutos, feitos por jovens sobre o Aljube, com o tema “Do Aljube guardei esta memória”. Com o seu telemóvel, com máquina fotográfica tiram fotografias quando vêm fazer a visita e fazem o filme sobre o que viram e concorrem

"Temos muitos ciclos"

Há muitas e diversas formas de o serviço educativo desenvolver o seu trabalho.

Outra área é a da recolha de testemunhos e de objetos de memória, que são guardados no centro de documentação. Neste momento, temos cerca de 200 ou mais registos, quer em vídeo, quer em áudio, de testemunhos de pessoas que vieram aqui ao museu ou que nós fomos ao encontro deles, pessoas das mais variadas profissões, das mais variadas áreas políticas, que estão dispostos a prestar esse depoimento e que vêm deixá-lo aqui para as pessoas poderem consultar.

Temos o ciclo dos livros do Aljube

Temos muitos outros ciclos, temos o ciclo dos livros no Aljube, é um ciclo que tem por vezes mais de uma iniciativa vez por mês. Na semana passada tivemos um lançamento, que foi sobre a candidatura de Arlindo Vicente, 1958. E o do livro dos “Esquecidos em Abril”, [das pessoas que morreram no dia 25 de abril de 1974].

Apesar de estarem lá [na placa que assinala os assassinatos, na rua António Maria Cardoso, em Lisboa] os nomes, nunca se chegou a um registo correto dos nomes das pessoas. Os jornais da época davam nomes totalmente contraditórios. A placa que tem erros e o Fábio Monteiro fez muito bem em fazer uma investigação fundamentada sobre quem foram os quatro mortos, quatro não cinco porque há um guarda que também foi morto.

Também fazemos visitas temáticas à cidade

Também fazemos visitas temáticas à cidade, a partir do Aljube. Houve já várias sobre temas muito diversos, por exemplo sobre os bairros operários ou a vida operária - grande parte dos prisioneiros do Aljube eram operários e ir ao encontro dessas zonas operárias, muitas delas degradadas como o caso da zona oriental da cidade, Chelas, Beato ou outras zonas.

Ou por exemplo visitar as casas clandestinas que houve às centenas. Ou tipografias clandestinas.

Há pessoas vivas que viveram lá, que tiveram experiências de vida lá, tiveram lá os filhos, fizeram centenas de jornais nessas casas.

Há muitas formas de agir no Aljube.

Fazemos exposições temporárias, o espaço à entrada, no rés do chão, é um espaço com exposições temporárias. A que lá está é sobre o campo de concentração do Tarrafal, a próxima que vai abrir ainda em abril é uma exposição interessante, sobre as prisões portuguesas atualmente ou seja a vida prisional atual a ambiência prisional. É um trabalho de dois fotógrafos, um português e um suíço, que nós vamos aqui mostrar durante uns meses no Aljube.

Uma temática que tem mais a ver com a atualidade do que propriamente com a experiência anterior mas que vai ter também fotografias históricas das prisões portuguesas, inclusive do Aljube.

O Museu de Peniche, nesse quadro, será uma boa ajuda para a divulgação em Portugal.

Eu encaro positivamente esta multiplicação que vai ocorrendo. O próprio Tarrafal está nesta fase, em projeto numa tentativa de torná-lo Património da Unesco. O governo caboverdiano está a tentar reunir recursos para transformá-lo.

Encaro esta multiplicação de pontos da memória da ditadura com muito interesse

Eu encaro esta multiplicação de pontos da memória da ditadura com muito interesse, independentemente de serem um, dois, três, quatro, cinco, seis, não vejo nenhum tipo de problema. Devo dizer que em alguns destes países da América Latina há… por exemplo no Chile há várias casas da memória, não só em Santiago mas em várias cidades. Na Colômbia também, na Argentina também há várias casas da memória. Não é só em Buenos Aires, há em outros sítios da Argentina, Encaro esta questão como de muita utilidade, social, educativa, política, porque estes museus em última instância são museus políticos com uma temática política histórica, mas política.

As pessoas precisam de conhecer a história contemporânea portuguesa, que conhecem relativamente mal, e isso é um benefício que todos esses pontos vão trazer. O conhecimento sobre esta época vai mudando a pouco e pouco.

Facilmente as pessoas ignoram o que aconteceu, facilmente se sujeitam a experiências que não imaginavam que podiam acontecer e, de facto, a nossa procupação como historiadores, como cidadãos e como museólogos da memória é dar a conhecer, divulgar, socializar e educar a população para a necessidade de defender os direitos humanos. De defender a cidadania ativa, de as pessoas se preocuparem com política, porque é com isso que governamos o mundo ou desgovernamos.

Vejo a multiplicação como muíssimo vantajosa. Quer este pórtico na Baixa Chiado, onde vão passar milhares de pessoas dentro do Metro, quer a placa, mais modesta porque é um sítio longínquo, Caxias, mas é importante, estiveram lá as mulheres [presas políticas], e portanto é importante que se assinale, neste caso também, com uma placa toponímica, uma prisão política como foi a de Caxias.

Entrevista com Luís Farinha, historiador e diretor do Museu do Aljube


Notas:

(...)

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