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Gaza, entre a morte lenta ou rápida

Um cessar-fogo em Gaza, sem levantar o bloqueio, significa que os palestinianos de Gaza serão forçados a aceitar morrer lentamente pelas políticas de bloqueio israelita, em vez de morrer rapidamente pela mais sofisticada máquina de guerra. Artigo de Hikmat Ajjuri, embaixador da Palestina em Portugal
Hikmat Ajjuri, embaixador da Palestina em Portugal. Foto Sinn Féin/Flickr

Desde 2006, quatro ofensivas brutais foram lançadas por Israel, o poder ocupante, contra a Faixa de Gaza, habitada por 1,8 milhões de pessoas. Duas em cada três delas são refugiados, forçados a deixar as suas casas em 1948, a fim de criar espaço para os imigrantes judeus no que hoje é considerado Israel.

Israel, como sempre, foi especialista em provocar os palestinianos, criando um pretexto para lançar estas ofensivas, que são, supostamente, uma autodefesa, contra absolutamente todas as leis da natureza.

Ao longo dos últimos 25 dias, Israel, o poder ocupante, tem lançado quase dois milhões de quilogramas de explosivos sobre Gaza, cuja área total de 360km2 é a zona mais populosa do Mundo (cinco mil habitantes por cada km2).

Israel, como qualquer outro país, tem o direito de proteger os seus cidadãos, mas tal como é descrito na Convenção de Genebra, uma força de ocupação é obrigada pelo direito internacional a proteger os civis sob sua ocupação e deixar de prejudicá-los. Israel é um dos signatários desta Convenção e deve respeitar as regras com as quais concordou. Além disso, deve respeitar o Direito Internacional Humanitário (DIH). Esta lei proíbe, de forma clara, alvejar deliberadamente alvos civis. Ao longo dos últimos 25 dias, Israel, o poder ocupante, tem lançado quase dois milhões de quilogramas de explosivos sobre Gaza, cuja área total de 360km2 é a zona mais populosa do Mundo (cinco mil habitantes por cada km2). Juntos, com as armas consideradas internacionalmente ilegais, mataram 62 famílias inteiras. Foram lançados ataques contra escolas da ONU, utilizadas como abrigos antiaéreos, hospitais, ambulâncias e equipas médicas, e foi destruída uma central elétrica.

O resultado imediato é a morte de 1362 pessoas, ferimento de 7600 (quase todos civis) e desabrigo de cerca de 400 mil: Por outro lado, os combatentes palestinianos, durante o mesmo período, mataram três civis israelitas e 56 soldados.

Amira Hass, uma jornalista israelita, disse, num artigo publicado no jornal israelita "Haaretz" (23/7/2014), que "o ataque de Israel contra Gaza é a vingança pela recusa dos palestinianos em aceitar a ocupação". E acrescentou: "Digam o que quiserem sobre os rockets do Hamas, mas, pelo menos, conseguiram arranhar a superfície da confiança de Israel na normalidade da sua dominação sobre outros povos".

Hamas é a única das 12 fações palestinianas que não reconhece o Estado de Israel, razão pela qual a comunidade internacional é solidária com Israel contra o Hamas. Do outro lado, quase nenhum dos mais de 20 partidos em Israel explicitamente reconhece um Estado Palestiniano soberano nas fronteiras anteriores a 1967.

Estranhamente, Israel é o único Estado na face da terra que não reconhece o Estado de Israel, porque recusa até agora definir as suas próprias fronteiras. É o único Estado do Mundo que tem fronteiras e capital não reconhecidas internacionalmente.

Estranhamente, Israel é o único Estado na face da terra que não reconhece o Estado de Israel, porque recusa até agora definir as suas próprias fronteiras. É o único Estado do Mundo que tem fronteiras e capital não reconhecidas internacionalmente.

Além disso, é o único Estado que se deslegitima porque a sua adesão à ONU foi condicionada pela sua aplicação do plano de partilha (resolução 181).

O reconhecimento mútuo entre Israel e os palestinianos, ou o que é conhecido como Acordo de Oslo, foi entre a OLP e o Governo de Israel. Hamas, como outros partidos israelitas individuais, não é obrigado a endossar esse reconhecimento.

Em conclusão, reitero que o bloqueio desumano de Gaza ao longo dos últimos sete anos tenha destruído a economia de Gaza e causado a morte de mais de 1500 pacientes palestinianos. que foram privados do acesso aos serviços de saúde e a um melhor tratamento fora de Gaza. lsto explica porque um cessar-fogo em Gaza, sem levantar o bloqueio, significa que os palestinianos de Gaza serão forçados a aceitar morrer lentamente pelas políticas de bloqueio israelita, em vez de morrer rapidamente pela mais sofisticada máquina de guerra. como se vê na atual desumana ofensiva israelita.

Esta ofensiva contra Gaza é um genocídio contra todos os palestinianos e, consequentemente, a comunidade internacional está legalmente obrigada a interferir para proteger as suas leis e em particular o seu Direito Internacional Humanitário e forçar uma solução política propícia para os dois Estados da Palestina e Israel.


Artigo publicado no Jornal de Notícias, 2/7/2014

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