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Garantimos o sistema, e quem nos garante a nós?

O mundo que conhecíamos entrou em Crise. Temos motivos para preocupação? Claro que sim, mas quais? O que é que os cidadãos comuns, que pouco percebem de Credit default Swaps ou de produtos estruturados, podem esperar desta derrocada financeira?

Artigo de Mariana Mortágua para esquerda.net

Somos todos directamente afectados quando Estados por todo o mundo injectam milhões dos bolsos dos contribuintes numa desesperada tentativa para salvar as mesmas instituições e o mesmo sistema que nos trouxe até este ponto.

Para não deixar falir a industria que sempre afirmou (querer) ser independente do poder Estatal, o Governo dos EUA prepara-se para injectar cerca de 700 mil milhões de dólares (5 vezes mais do que a ONU aprovou para atingir os Objectivos do Milénio) no sistema financeiro Norte Americano, havendo já quem afirme que este valor poderá facilmente ascender aos cinco biliões (5 000 000 000 000) de dólares.

Em Portugal, o Governo já fez aprovar um plano de prestação de garantias às instituições financeiras no valor de 20 mil milhões de Euros. Estamos também todos a par dos 900 milhões de Euros que serão injectados no Banco Português de Negócios, devido às perdas resultantes de vários anos de gestão danosa. O Governo contínua, no entanto, sem assumir publicamente o valor que será necessário injectar no BPN na sequência do processo de nacionalização.

As consequências da crise não afectam, no entanto, todas as pessoas de igual modo.

Segundo estatísticas da Comissão Europeia, Portugal é o país com maiores desigualdades na distribuição de rendimentos da EU a 27. Em média, os administradores portugueses recebem 32 vezes mais que os restantes trabalhadores das empresas (contra 10 vezes mais na Alemanha, por exemplo, ou 15 em Espanha).

Se olharmos para os valores do coeficiente de Gini (que mede a desigualdade na distribuição dos rendimentos) abaixo apresentados, podemos facilmente verificar que, para além dos rendimentos em Portugal não se terem tornado menos desiguais nos últimos anos, esta assimetria apresentou ainda um ligeiro aumento nos últimos anos, distanciando-se dos valores apresentados tanto pela Europa dos 15 como dos 25.

Valores do Coeficiente de Gini segundo o Eurostat (Quanto mais alto o coeficiente, maior a desigualdade)

Se seguirmos analisando alguns indicadores relativos à economia Portuguesa podemos, provavelmente, ficar com uma ideia mais clara das reais condições de vida que a maior parte dos cidadãos Portugueses enfrenta.

Taxa de Desemprego e de crescimento do PIB real segundo dados do FMI

O gráfico acima mostra-nos a taxa de crescimento do PIB em termos reais, por comparação à taxa de Desemprego em Portugal, nos últimos 10 anos.

Se tivermos em consideração que o PIB real, porque é ajustado à inflação, mede o poder de compra existente numa determinada economia, torna-se inevitável concluir que as famílias a viver em Portugal têm vindo, ao longo dos últimos anos, a perder a sua capacidade para fazer frente ao consecutivo aumentos do preços registado.

Este facto, conjugado com o aumento dos apelos ao crédito por parte dos bancos em busca de maiores lucros e com as pressões de um sistema capitalista, profundamente baseado numa economia de consumo ilimitado, conduziu a um nível de endividamento insuportável para a maior parte da população.

O modelo neoclássico de capitalismo em que vivemos tem demonstrado uma enorme capacidade para criar nos indivíduos novas necessidades a cada dia que passa. Com o auxílio dos mecanismos de publicidade e marketing, tem provado ser capaz de sugar todo o rendimento disponível das famílias através do consumo, ao mesmo tempo que contrai fortemente os salários dos trabalhadores, com o único objectivo de multiplicar os lucros dos senhores do capital. No entanto, tal como já foi referido, um forte aumento da procura, combinado com uma diminuição dos salários reais, só pode ter como consequência um nível alarmante de endividamento.

Endividamento dos particulares segundo o Banco de Portugal

Segundo dados do Banco de Portugal, o endividamento dos particulares representava, em 2007, 97% do PIB Português, e cerca de 129% do rendimento disponível. Ou seja, a soma dos valores em dívida por parte dos particulares foi em 2007 praticamente equivalente a tudo aquilo que se produziu no país. Podemos também concluir, com base nestes dados, que os particulares consumiram mais do dobro de todo o rendimento disponível na economia.

Estes valores tornam-se ainda mais preocupantes quando verificamos que, ainda segundo o Banco Portugal, o valor em dívida associado a sociedades não financeiras ronda 114% do PIB.

Quando, ao empobrecimento e consequente endividamento generalizado da população, adicionamos as crescentes taxas de desemprego, bem como o aumento do número de trabalhadores em situações precárias, o cenário não se torna mais animador.

A maior parte das famílias a viver em Portugal enfrenta hoje, para além de uma subida dos preços do consumo, ou seja, da inflação, um aumento do preço dos créditos devido às elevadas taxas de juro praticadas que terão inevitavelmente que pagar sob o risco de perderem as suas habitações e património.

Fazer face a estas exigências e compromissos sob a permanente ameaça de desemprego, mais presente devido ao aumento do número de empresas a fechar as suas portas como reflexo da crise, ou às massivas operações de despedimentos a que temos vindo a assistir, não se torna tarefa fácil.

As últimas previsões apontam para que as 7 maiores economias mundiais entrem num período de contracção nunca visto depois da II Guerra Mundial. Estima-se que o PIB conjunto do G7 sofra um recuo de 1,1% em 2009.

A Alemanha, uma das mais importantes economias Europeias entrou agora em recessão técnica (dois trimestres consecutivos de contracção do PIB) e espera-se que outros países sejam ainda absorvidos por esta onde depressiva.

A Comissão Europeia prevê ainda que a recente escalada do nível de preços (nomeadamente do petróleo e dos alimentos) atinja os 3,6% e só estagne perto dos 3,8%.

Perante esta conjuntura, não temos nem devemos exigir menos do que reformas estruturais por parte dos Governos. Torna-se necessário e urgente não só e não tanto salvar o sistema financeiro actual, mas reformar as suas bases retirando as devidas conclusões desta crise.

Simultaneamente, é absolutamente imperativa a aplicação de medidas sociais. É urgente elaborar planos de salvamento e resgate, também dos bancos e instituições financeiras, mas principalmente dos níveis de vida das populações, dos trabalhadores.

Mariana Mortágua

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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