Interconexão entre as crises, entrevista com Eric Toussaint

21 de dezembro 2008 - 0:00
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"É preciso realizar uma ruptura radical", diz Eric Toussaint, ao comentar as soluções para resolver as crises mundiais, em entrevista exclusiva à IHU On-Line , publicada a 9 de Dezembro. Para ele, "é preciso romper com o capitalismo", mas de imediato, explica, é preciso tomar uma série de medidas urgentes para enfrentar as crises financeira, económica, alimentar e climática.



IHU On-Line - Como entender que as crises financeira, alimentar e climática estejam tão interligadas, uma influenciando a outra?



Eric Toussaint - É muito claro que há uma interconexão entre as crises financeira, alimentar e climática. A interconexão está ligada ao modo de produção que domina o Planeta hoje, ou seja, ao sistema capitalista. A busca do lucro privado máximo provocou nos últimos tempos uma evolução que resultou principalmente na crise financeira e na crise alimentar. A crise climática é resultado de uma evolução mais longa do capitalismo.



A crise financeira, por sua vez, é resultado do desregulamento do sistema bancário privado nos Estados Unidos e nas outras partes do Planeta, e também do desregulamento a nível do movimento de capitais. Há 20 anos, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e outras instituições, assim como o governo dos países mais industrializados, cresceram, pois todos os controles que existiam durante décadas sobre o movimento de capitais foram suprimidos. Para países como o Brasil e outros emergentes, são os planos justamente estruturais recomendados pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário que resultaram no abandono dos controles sobre o movimento de capitais. Há com isso, um desregulamento financeiro generalizado, o que permitiu às instituições bancárias privadas e a outras instituições financeiras criarem novos produtos financeiros que fogem a todas as regras. E essa lista é bastante longa. Pode-se tomar, por exemplo, os credit default swap (CDS), que consistem nestes seguros contra risco de falta de pagamento da dívida. Esses créditos representam o valor que é garantido, ou seja, mais de 50 mil milhões de dólares. Trata-se de uma quantidade absolutamente enorme que é garantida por produtos financeiros que ninguém controla. E há outras criações de produtos financeiros que chamamos de CDO etc. Estou falando rapidamente sobre este assunto. E simplesmente saliento que a partir do ano passado estas montagens financeiras, complexas, não regulamentadas, entraram em crise.



Crises financeira e económica geram declínio da economia



O segundo elemento da crise é a crise económica. Não há somente uma crise financeira; há uma crise económica que começou no sector imobiliário nos Estados Unidos, onde houve uma superprodução de imóveis. Assim, há uma crise financeira, ou seja, uma crise da dívida privada, e uma crise económica que, ao se misturar à crise financeira, produz agora uma crise económica que atinge a todos os sectores. Os mais atingidos são os sectores da produção de automóveis, da metalurgia em geral, o qual reduz a procura global que produz agora o declínio económico no sector de matérias-primas. Há uma queda muito forte no preço da matéria-prima desde o mês de Setembro de 2008.



Busca a qualquer preço pelo lucro gera fome e desequilíbrio no Planeta



A crise alimentar está ligada à crise financeira. Por quê? Porque uma série de grandes investidores financeiros, como o Fundo de Pensões, o Banco de Investimentos, o Banco de Negócios, os bancos comerciais, as companhias de seguros começaram a investir capitais no mercado de produtos alimentares. Os principais mercados de produtos alimentares são os de Chicago, de Minneapolis e de Kansas City, nos Estados Unidos. Grandes sociedades financeiras especularam sobre o preço de produtos alimentares, especialmente os cereais. E isto está ligado ao desregulamento financeiro. Mas a crise alimentar foi causada por outros factores: pela crise climática e pelo aumento da produção de agrocombustível, também conhecido como biocombustível. Isto vem, sobretudo, de uma mudança importante ocorrida a partir de 2005 nos países da América do Norte e Europa Ocidental. As grandes sociedades de agronegócios que produzem biocombustíveis convenceram o governo de Washington, a comissão europeia e os governos dos países da Europa Ocidental a subvencionarem a produção de biocombustíveis. É preciso saber que, nos países do norte, os biocombustíveis não são rentáveis, salvo se há uma subvenção do Estado. E o agronegócio pediu subvenções do Estado para que uma parte da produção alimentar fosse dirigida à produção de biocombustíveis. Então, com esse desvio, provocou-se uma redução da oferta de produtos alimentares, o que gerou um aumento muito forte no preço dos alimentos.



Sob o pretexto de combater a crise climática, o agronegócio convenceu o governo do norte a subvencionar a produção de biocombustíveis, argumentando que com isso reduziria a produção de gás carbónico. Mas, analisando este pretexto e alternando as subvenções, aumentou-se o preço dos alimentos e provocou-se a crise alimentar. É preciso acrescentar que muitos cientistas consideram a produção de biocombustíveis responsável pela libertação e a produção de uma quantidade importante de gás carbónico. Então, não é uma energia tão limpa quanto se afirma. Transforma-se alimentos em combustíveis, pois tornou-se rentável desviar a produção alimentar para fazer biocombustíveis.



Como analisei recentemente no artigo "Retour sur les causes de la crise alimentaire mondiale" ("Retorno sobre as causas da crise alimentar mundial"), é preciso dizer que a produção de biocombustíveis no Brasil, feita a partir da cana-de-açúcar, não é a responsável directa pelo aumento do preço dos alimentos, uma vez que ela não é um alimento directo nem é como os cereais. Entretanto, a produção desses biocombustíveis tem um péssimo efeito sobre o meio ambiente e sobre o clima, porque gera monocultura e conduz ao desmatamento. Além do mais, a produção de biocombustíveis faz-se através da exploração da mão-de-obra. Os cortadores de cana-de-açúcar fazem parte de um sector agrícola de trabalhadores que são explorados, mal pagos, enfrentam condições de trabalho absolutamente escandalosas, detestáveis.



IHU On-Line - O que fazer para resolver essas crises? Por que o senhor afirma que a conjugação destas crises mostra aos povos a necessidade de se libertarem da sociedade capitalista e do seu modelo produtivo?



Eric Toussaint - Penso que seja preciso realizar uma ruptura radical. A partir do momento em que se constata que a crise está ligada ao sistema capitalista, é preciso romper com o capitalismo. É claro que isso implica uma mudança revolucionária, mas antes de se chegar à revolução é preciso tomar uma série de medidas imediatas. Na área de finanças, é preciso restabelecer um controle muito rígido sobre o movimento de capitais e um controle sobre as operações de trocas de moeda. É preciso tomar o controle pelo poder público do sector bancário e nacionalizar os bancos que estão à beira da falência. Quando se nacionaliza estes bancos, é preciso recuperar o custo da operação da nacionalização, descontando a soma do salvamento bancário do património dos accionistas e dos grandes administradores das sociedades financeiras. Na área alimentar, precisamos proibir a especulação no mercado de produtos alimentares, reduzir radicalmente a produção de agrocombustíveis, ou, em todo o caso, a produção feita a partir de alimentos. Pode-se imaginar uma produção de agrocombustíveis, mas no quadro da agricultura familiar, rural, orgânica, e não uma produção em grandes indústrias. É preciso retornar a uma política de soberania alimentar e, para isso, precisamos de reformas agrárias. É preciso, evidentemente reduzir - se se quer combater a crise climática - radicalmente a produção de gás carbónico. Os países do norte devem fazer um esforço mais radical, pois há uma dívida climática ou ecológica que foi acumulada por eles no curso dos dois últimos séculos, desde o princípio da Revolução Industrial.



IHU On-Line - Qual é a importância, neste momento de crise, de discutir novos modelos energéticos?



Eric Toussaint - Essa discussão é fundamental. É preciso reduzir radicalmente a produção de gás carbónico. Radicalmente quer dizer reduzir a 80%, nos países do norte e 25% nos países do sul. Então, é preciso um novo modelo energético para utilizar doravante energias renováveis que emitam o mínimo de gás carbónico.



IHU On-Line - Como os países do Terceiro Mundo, no caso da América Latina, podem evitar maiores consequências da crise financeira internacional utilizando a abundância dos seus recursos naturais e renováveis? O senhor acha que deveria haver uma mudança de estratégia por parte dos governos?



Eric Toussaint - É preciso garantir a segurança e a soberania energética utilizando ao máximo os recursos naturais e renováveis. Então, a América Latina tem uma capacidade e um potencial enormes nesse sentido. É preciso dar prioridade a isso e abandonar as centrais térmicas. Além disso, países como o Brasil e a Argentina devem abandonar o modelo de energia nuclear. A Venezuela também quer produzir energia nuclear, mas deve abandonar esta perspectiva.



Os governos da América do Sul precisam abandonar o modelo capitalista produtivista, e nas outras áreas da actividade económica reduzir ao máximo as despesas, por exemplo, de grandes infraestruturas. Sou muito crítico ao projecto Iniciativa pela Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana (IIRSA), lançado por Fernando Henrique Cardoso, e que visa dotar a América Latina de grandes infraestruturas - destruidoras do meio-ambiente -, e de grandes consumidoras de energias e de materiais. Há muito a ser melhorado na comunicação entre os países da América Latina. Por isso, os governos deveriam investir em caminhos de ferro ao invés de estradas.



IHU On-Line - Qual a importância, neste momento, de lutar pela anulação da dívida dos países do Terceiro Mundo? As chances aumentam ou diminuem?



Eric Toussaint - Está a nascer uma nova crise da dívida, com a qual os países da América Latina estão confrontados. A crise da dívida é produzida por dois fenómenos: a baixa das receitas de exportação, devido à baixa do preço das matérias-primas que a América Latina exporta para o mercado mundial, e o aumento do custo do crédito nestes últimos meses por casa da crise bancária nos países do norte. Os banqueiros do norte não querem emprestar dinheiro aos países do sul, então eles exigem uma remuneração mais elevada. Configura-se, assim, uma nova crise da dívida. Se quisermos afrontar esta situação, é preciso multiplicar as auditorias da dívida em todos os países da América Latina, identificar as dívidas ilegítimas e suspender o pagamento delas. Hoje isso é mais necessário do que nunca.



IHU On-Line - Na nova configuração social, marcada pela revolução cultural e tecnológica (suponha um desprendimento da sociedade industrial), qual o papel dos pequenos produtores (no caso da agricultura)?



Eric Toussaint - Este papel é primordial. Ele é fundamental no novo modelo de sociedade que deve romper com o capitalismo produtivista. A agricultura familiar orgânica deve constituir a actividade principal para produzir alimentos de qualidade, garantindo a soberania alimentar dos povos. Isso é válido para todos os países. É preciso uma grande reforma agrária e um apoio dos governos aos pequenos produtores.



IHU On-Line - Com essa junção de crises, como fica a imagem do capitalismo e do neoliberalismo? O senhor vislumbra uma mudança de parâmetros nesse sentido? Estamos chegando ao fim da era neoliberal?



Eric Toussaint - Assistimos à crise do sistema capitalista. Não é simplesmente a crise da versão neoliberal do capitalismo, mas uma crise muito mais profunda. Claro que o capitalismo não irá morrer por si mesmo. Ele desaparecerá pela acção consciente dos povos. É preciso, então, uma acção decisiva e consciente da sociedade para colocar fim a este sistema e substituí-lo por um modelo socialista e democrático. Estamos no final da era neoliberal, caminhando em direcção ao socialismo do século XXI.



IHU On-Line - É possível pensar que no futuro a energia será produzida e consumida no mesmo local? Qual a viabilidade desse projecto?



Eric Toussaint - Sim. Penso que em muitos lugares do Planeta isso é perfeitamente possível. É claro que haverá sempre a necessidade de deslocar uma parte da energia. Ou seja, será preciso distribuir a energia por um sistema de distribuição eléctrica, por exemplo. Mas poderá produzir-se o máximo de energia renovável no local. E preciso substituir as grandes barragens por um sistema muito mais leve e inteligente de barragem.



Entrevista de Graziela Wolfart e Patricia Fachin, divulgada também pelo blogue Outra política



Eric Toussaint é doutor em Ciências Políticas, pela Universidade de Liége, Belgica, y pela Universidade de Paris VIII, França. É autor de A Bolsa ou a Vida (Fundação Perseu Abramo, SP, 2002).

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