Está aqui

Fotografias de Marx

Não será pelas fotografias que se conhecerá o pensamento, o percurso, ou a vida de Marx. Artigo de Nuno Pinheiro.
A última foto de Karl Marx, na Argélia, em 1882, por E. Dutertre. Coleção do Instituto Internacional de História Social: www.iisg.nl

Conhece-se um número relativamente pequeno de fotografias de Marx, tal como seria previsível no Século XIX. Duas coleções estão online, uma com 11, outra com 12 imagens no ISG em Amsterdão. A importância política que o seu pensamento tomou levou a que dessas fotografias se tenham feito centenas, ou mesmo milhares de novas representações de Marx. Essas recriações das fotografias originais são ilustrativas de várias formas de encarar o marxismo. Da forma quase religiosa e santificada do neorrealismo soviético e ainda mais do chinês, até formas mais radicais e inspiradas em tendências artísticas do século XX.

Benjamin cita Brecht como tendo dito que uma fotografia das fábricas Krupp ou AEG não mostraria verdadeiramente essas fábricas, ou seja, não mostraria o modo de produção capitalista. Tenfelde demonstrou o contrário, uma fotografia, ou melhor, todo o arquivo de fotografia das fábricas Krupp mostra o sistema de produção capitalista em muitas, para não dizer todas, as suas variantes (Bilder von Krupp. Fotografie und Geschichte im Industriezeitalter, München 1994).

As fotografias de Marx podem não ser um meio válido de estudo da teoria marxista, mas seguramente que nos aproximam mais de Marx. Não pretendemos agora abordar os milhares de representações feitas a partir desse punhado de fotografias pelas várias correntes construídas a partir do pensamento de Marx.

A primeira e mais básica leitura é que as fotografias de Marx mostram um homem do seu tempo. Um homem que se faz retratar como outros da classe burguesa em ascensão, seguindo  a visão mais clássica e tradicional sobre o sucesso do retrato fotográfico, nomeadamente da Carte de Visite. E todos os retratos de Marx conhecidos correspondem a este tipo de imagem. Fotografia de estúdio, retrato individual ou de grupo. Não se praticava ainda uma fotografia de instantâneo familiar, só ia aparecer na última década do século XIX, menos ainda o fotojornalismo que o pudesse apanhar em alguma ação política.

As fotografias mais antigas que se conhecem são de 1861, bem no início da carte de visite e da “cartomania”em Inglaterra. A série de fotografias é de Beard, um fotógrafo que terá feito negócio, mas não fez fama. Marx tinha 43 anos, já tinha escrito algumas das suas obras fundamentais, apresentava-se austera e sobriamente como qualquer burguês do seu tempo. Não a distinguiríamos de outros retratos do mesmo tempo.

Em 1864 há um retrato de grupo com as suas filhas Jenny, Eleonor e Laura e Engels. A fotografia foi novamente feita em Londres e parece ser um instantâneo no campo. O mais natural é que seja um retrato de estúdio com um fundo campestre, o que era normal nesta época. Estes retratos de família não são tão comuns como o retrato individual anterior e, nas fotografias conhecidas de Marx, não tem paralelo.

O retrato feito no estúdio de “The Fort Photographers”, em Margate, 1867, também tem alguns adereços. A cadeira, a mesa com o chapéu pousado, um cenário que pretende fazer crer que se está numa casa burguesa. É semelhante nos adereços à de 1861 e está dentro do padrão da época. É novamente um Marx burguês e respeitável.

Mais conhecido é o retrato de Mayall em 1875, um Marx mais maduro, depois de ter ganho algum destaque devido ao seu papel de defesa da Comuna de Paris. Esta é a fotografia mais conhecida, a base da maior parte das representações póstumas de Marx, mais ou menos romanceadas. John Mayall era um dos fotógrafos britânicos mais reconhecidos, a sua carreira vinha dos anos 1840  com o daguerreotipo. Fez a primeira Carte de Visite da Rainha Vitória e acabou por vender centenas de milhares de retratos e álbuns da rainha e da família real. Estas destinavam-se aos álbuns de família que nos anos 1860 incorporavam fotografias de celebridades, o que significava antes de mais a realeza. O seu estúdio era um grande negócio produzindo cerca de meio milhão de Carte de Visite por ano nessa altura.

Os retratos de Marx terão dado o seu modesto contributo ao volume de negócios de Mayall, Engels terá comprado um milhar de cópias que distribuiu entre socialistas e talvez se tenham vendido mais. A fotografia de Marx foi importante para o afirmar e ao Marxismo como corrente mais importante do movimento socialista.

Uma leitura mais óbvia das fotografias situa Marx como um homem do seu tempo, inserido na classe burguesa. É uma leitura que tem sido usada para desvalorizar o pensamento marxista, mas creio que só deprecia uma leitura religiosa do pensamento de Marx só essa o situa fora do tempo e da história.

Não são só os retratos burgueses a permitir esta leitura, o seu uso também. Sem chegar aos milhares da Rainha Vitória, a distribuição póstuma (eventualmente também em vida) dos retratos de Marx serviu para estabelecer o Marxismo como corrente socialista dominante. A Carte de Visite foi uma das primeiras formas de distribuição de imagens massificadas e, mesmo não tendo chegado a números como o de alguns monarcas do seu tempo, as fotografias de Marx tiveram uma grande difusão, além das compradas por Engels e das vendidas diretamente, terão sido reproduzidas e vendidas por outros fotógrafos noutros países.

O “Marx como homem do seu tempo” também tem sido usado para desvalorizar os marxistas do século XX, mas vamos analisemos algumas fotografias. Tão emblemática como a fotografia de Marx de 1875 é a de Guevara por Alberto Korda em 1960, foi reproduzida infinitamente em todos os suportes, incluindo T shirts.
Trotsky foi fotografado por Robert Kapa em Copenhaga, em 1928.  Embora não sendo a fotografia mais conhecida de Trotsky é significativa na história da fotografia, como iniciadora da carreira de Kapa, e uma das primeiras do novo fotojornalismo. Outro nome fundamental da história da fotografia, Cartier-Bresson, fotografou Sartre em 1946. É uma fotografia que tem tudo Sartre, o cachimbo, a névoa, até um enquadramento que parece desequilibrado, simbolizando a heterodoxia. Nos 50 anos de Maio de 68, não poderia esquecer Daniel Cohn-Bendit fotografado por Gilles Caron desafiando a polícia, de que é possível ver os capacetes desfocados.

Qualquer destas fotografias é pelo menos tão interessante, embora nem sempre tão emblemática como a de Marx em 1875.

Não será pelas fotografias que se conhecerá o pensamento, o percurso, ou a vida de Marx. São até relativamente pobres, até porque escassas e estereotipadas quando comparadas com as de marxistas do século XX. Permitem situar Marx na sociedade burguesa oitocentista, a sociedade de que fazia parte e que combatia. É uma abordagem mais humana, menos santificada (Marx não era um santo, sabemos) que a do dogmatismo (conceito religioso) estalinista, mas é isso que as torna interessantes. Não são fotografias de ação revolucionária, essas só viriam no século XX.

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
(...)

Resto dossier

Bicentenário de Karl Marx

A 5 de maio comemora-se o 200º aniversário do nascimento de Karl Marx. O esquerda.net publica alguns contributos sobre a figura e a importância do legado de Marx para a compreensão do mundo de hoje. Dossier organizado por Luís Branco

Fotografias de Marx

Não será pelas fotografias que se conhecerá o pensamento, o percurso, ou a vida de Marx. Artigo de Nuno Pinheiro.

Karl Marx e O Capital: O detetive que queria decifrar a suprema intriga

O livro não era fácil. Nem para os filósofos, que tinham que mergulhar na economia, nem para os economistas, que tinham que sofrer a crítica à sua submissão ideológica e demais conceitos filosóficos, nem muito menos para os leigos, inocentes de todas essas deambulações.  Artigo de Francisco Louçã.

O Encontro de Marx com a Economia Política

Nesta versão abreviada do segundo capítulo do recém-lançado livro Another Marx: Early Writings to the InternationalMarcello Musto acompanha os passos de Karl Marx no ano em que viveu em Paris, uma etapa marcante que abriu os horizontes da sua investigação e mudou para sempre os fundamentos da ciência económica.

Marx, revolução por ela mesma

Marx não teve a noção da capacidade da burguesia para resistir e até para avançar. Nós já temos a fita do tempo e a medida das transformações que conhecemos como necessárias. Artigo de Luís Fazenda.

Immanuel Wallerstein

Leiam Karl Marx! Uma conversa com Immanuel Wallerstein

O "regresso a Marx" a que assistimos nos debates sobre alternativas após a crise financeira dão o mote a esta conversa entre os sociólogos Marcello Musto e Immanuel Wallerstein.

Um Marx para comemorar

Ao fim de tanto tempo era suposto já se poder ter um Marx para comemorar. Polir, dar-lhe o lustro da actualidade. Tirá-lo da gaveta de vez em quando e conseguir arrumá-lo depois. Artigo de Carlos Carujo.

As três críticas de Marx

Nem filosofia da história, nem sociologia de classes, nem sistema de economia, o que é então a teoria de Marx? Excertos do livro "Marx, o Intempestivo", de Daniel Bensaïd.

Marx no século XXI: E se as perguntas contassem mais do que as respostas?

Centro e cinquenta anos depois da primeira publicação do primeiro livro de O Capital, nesta segunda década do século XXI, o que resta do legado intelectual de Karl Marx? Artigo de Jean Batou.

Congresso 200 anos de Karl Marx: intervenções, vídeos e podcasts

O Bloco de Esquerda assinalou o bicentenário do nascimento de Karl Marx com uma conferência internacional em Lisboa. Leia aqui algumas das apresentações, ver os vídeos e ouvir os podcasts dos participantes nesta conferência.