No final de 2021, o grupo israelita Aman adquiriu 90% do capital da HCCM Consulting, consultora especializada em tecnologias da informação que tinha como principais clientes a EDP, Santander Totta, Imprensa Nacional Casa da Moeda e o Ministério das Finanças. Os restantes 10% ficaram nas mãos do até então presidente executivo da empresa, Rui Pereira da Silva, que deixou o cargo de administrador em janeiro deste ano para se tornar consultor da KPMG, acompanhando projetos de aplicação dos sistemas SAP, o líder de mercado em software de gestão de empresas.
O então CEO da HCCM Consulting explicava na altura o negócio com o grupo Aman ao portal Eco, afirmando que “o que vieram procurar foi recursos [humanos]. Nos países em que estão há já uma falta muito grande. Aqui também, mas acreditam que ainda existe a possibilidade de encontrar bons consultores especializados e profissionais nas áreas de desenvolvimento de software. (…) Sempre numa ótica de nearshoring, isto é, criar equipas em Portugal para prestar serviços para projetos fora do país”, justifica”.
O grupo Aman é uma das 10 maiores empresas israelitas de tecnologias da informação, emprega 2.500 trabalhadores em Israel e outros 1.500 espalhados por empresas no resto do mundo.
Com o início da guerra em Gaza, a escassez de mão de obra especializada no setor das tecnologias da informação israelita ainda se agravou mais com a mobilização de muitos destes trabalhadores enquanto reservistas do exército. Mas para o grupo Aman, trouxe também a oportunidade de expandir a sua área de negócio para o setor da defesa e segurança. “Na Eternity, uma das nossas subsidiárias, cerca de 50% da nossa atividade é agora na área da segurança com a contratação de equipas a um ritmo alucinante. Se pudéssemos, cresceríamos ainda mais, porque a procura está longe de estar esgotada”, dizia em junho o vice-presidente para a Tecnologia do grupo, Ariel Oz. No site da Eternity, o exército israelita aparece como um dos clientes com lugar de destaque.
A guerra trouxe também o aliviar da burocracia nos projetos relacionados com a área da Defesa, com Oz a sublinhar que assim que o projeto recebe o financiamento, a empresa recebe todo o tipo de incentivos, desde pessoal militar para integrar no projeto e orçamentos que permitem à empresa abrir divisões paralelas, sem afetar a atividade normal. Asaf Bar, o CEO of Eternity, dizia em abril que apesar da cooperação com o setor da Defesa ser antiga, há agora uma tendência para as empresas do setor mudarem a finalidade dos seus produtos para serem aplicados na área da Segurança.
“Estamos comprometidos com os princípios do sionismo e o desejo de contribuir para o país, mas desde outubro vimos um crescimento de centenas de pontos percentuais na procura por soluções de dados, em especial soluções baseadas na Inteligência Artificial com o objetivo de encurtar o tempo de resposta o rigor da informação”, afirmou Ariel Oz, elencando a IA, robótica ou a engenharia biológica como algumas das áreas com maior procura por parte do aparelho militar israelita.
Áreas vitais do Estado têm software com assistência do grupo Aman
Entre os contratos assinados por entidades públicas com a HCCM Consulting desde a sua passagem para as mãos deste grupo tecnológico israelita estão algumas entidades vitais do ponto de vista da soberania do país. A mais relevante deste ponto de vista - e também quanto ao valor do contrato assinado dias antes da invasão de Gaza, que ultrapassa os dois milhões de euros - é a Secretaria-Geral do Ministério da Defesa Nacional, com a aquisição e atualização das licenças do Sistema Integrado Gestão da Defesa Nacional (SIGDN), a ferramenta de uniformização e controlo dos procedimentos internos do Ministério da Defesa Nacional.
Em fevereiro deste ano, também a Autoridade Tributária contratou os serviços da HCCM Consulting por 311 mil euros em fevereiro deste ano para obter assistência técnica ao software SAP. O contrato prevê a assistência 24h por dia e um tempo de resposta máxima de uma hora no caso de “completa falha ou paragem do sistema, bem como por erros de funcionamento que afetem as principais funções”.
E em julho foi a Agência para as Migrações e Asilo (AIMA) a adquirir por concurso público à consultora do grupo Aman o licenciamento do software de processamento de dados Nintex Automation para mil utilizadores, acrescido dos serviços técnicos especializados e da formação aos funcionários da AIMA que tratam do seu Sistema de Informação e Gestão Automatizada de Processos. O valor do contrato é de cerca de 200 mil euros e a consultora foi a única concorrente.
Outros clientes públicos recentes do software e assistência técnica da consultora do grupo Aman foram as Infraestruturas de Portugal (setembro de 2024, 237 mil euros), o Instituto Nacional de Estatística (fevereiro de 2024, 41,9 mil euros), a Imprensa Nacional Casa da Moeda (agosto e setembro 2023, 465 mil euros), a RTP (agosto 2023, 135 mil euros), as universidades de Coimbra e Lisboa (ambas em agosto de 2023, cerca de 170 mil e 700 mil euros, respetivamente) e o Banco de Portugal (novembro de 2022, 66 mil euros por ajuste direto). Feitas as contas desde que a HCCM Consulting passou para os donos israelitas, o Estado português pagou mais de quatro milhões e meio de euros em troca de serviços prestados por esta empresa de tecnologia.
Grupo prevê crescimento do negócio com tecnologia de uso militar
O responsável pela atividade internacional do grupo Aman, Shabtai Cohen, dizia em junho que ela se baseava em três princípios, o primeiro dos quais era a aquisição de empresas em países que são favoráveis a Israel. E previa que “os investimentos em tecnologia do ramo militar irão crescer significativamente no futuro próximo por causa destas crises. Não estávamos preparados para o 7 de Outubro e isso precisa de mudar antes que rebente a próxima guerra”.
O crescimento do grupo Aman faz-se também através da aquisição de empresas do ramo da tecnologia militar. Uma das aquisições recentes foi a RSL Electronics, que entre 2015 e 2018 forneceu peças para os caças F-16 da Força Aérea Portuguesa, em contratos a rondar no total os 350 mil euros.
O grupo Aman orgulha-se também de ter posto o seu conhecimento ao serviço da máquina sionista de propaganda online, desenvolvendo “uma ferramenta inteligente que usa a inteligência artificial para combater a inteligência artificial adversária - tudo em nome de fortalecer a legitimidade de Israel no mundo”, explicou Ariel Oz, acrescentando que esta ferramenta “identifica novas publicações com conteúdo falso ou problemático com potencial de se tornar viral, com o objetivo de denunciar eficazmente esse conteúdo e apagá-lo por completo das redes sociais e da internet”. Ou seja, uma ferramenta usada para retirar publicações de organizações e ativistas pró-Palestina da internet.
Para além das parcerias com os militares, o grupo Aman apresenta ainda como clientes várias empresas apontadas no portal Who Profits por lucrarem com a ocupação ilegal de terras palestinianas em Jerusalém, Cisjordânia e Montes Golã, como é o caso dos supermercados Shufersal, da petrolífera Paz Oil e dos bancos Discount Bank e Hapoalim Bank.