A crise das dívidas soberanas

Como um castelo de cartas, a crise começou pela Grécia, alastrou à Irlanda, e prepara-se para apanhar Portugal. A banca e os seus agentes querem utilizar esta Grande Recessão para conseguir debilitar o estado de bem-estar, reduzir a dimensão social da Europa e reduzir os direitos sociais e laborais.

31 de dezembro 2010 - 18:35
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Em 27 de Abril, a agência de notação Standard & Poor anunciou o corte do “rating” à Grécia de BBB+ para BB+, passando os títulos da dívida daquele país a serem considerados "junk" ("lixo"). A Grécia passara a ser considerada como o país mais arriscado da zona euro.

O anúncio levou à imediata queda do euro face ao dólar. A Grécia pediu um empréstimo à União Europeia e ao FMI.

Um mês antes, o Wall Street Journal noticiara que, em Janeiro de 2010, um grupo de grandes especuladores de "hedge funds", entre os quais George Soros, tinha-se reunido num jantar, no qual ficou combinado o esforço para provocar a desvalorização do euro até um dólar.

Começou assim a chamada crise das dívidas soberanas, que se alastrou, com índices diferentes de gravidade, à Irlanda, a Portugal, à Espanha e Itália.

“Existe forte evidência de que a Banca e os seus agentes, que incluem desde o BCE ao Fundo Monetário Internacional (o que se chama na terminologia anglo-saxónica o establishment financeiro) querem utilizar esta Grande Recessão para conseguir o que desejam desde o princípio da UE: debilitar o estado de bem-estar, diluir e reduzir a dimensão social da Europa e reduzir os direitos sociais e laborais”, observou o economista Vicenç Navarro.

Foi a receita usada na Grécia: para obter a redução do défice orçamental de 12,7% do produto interno bruto (PIB) para os 2,8% em 2012, foram anunciadas medidas de uma austeridade sem precedentes, incluindo o aumento imediato de impostos, o aumento da idade da reforma, cortes na remuneração dos funcionários públicos.

O “senhor que se segue” foi a Irlanda, que em Novembro recorreu a um plano de resgate financeiro da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para salvar o sector bancário, no valor de 100 mil milhões de euros. O governo irlandês anunciou logo em seguida um novo pacote de austeridade que incluiu medidas como a redução do salário mínimo, o aumento do IVA, a eliminação de 24 mil postos de trabalho no sector público e o corte de 2,8 mil milhões no orçamento da Segurança Social até 2014. Os impostos sobre as empresas, porém – que são baixos – não sofreram quaisquer alterações.

“A lógica neoliberal é sempre a única que se reconhece como legítima, apesar dos seus evidentes fracassos…Enquanto economistas, aterroriza-nos constatar que estas políticas continuam a estar na ordem do dia. Mas os factos trataram de as questionar”, alertou um manifesto divulgado por economistas franceses.

No final do ano, os “mercados” (isto é, os bancos e os especuladores) apostavam que o próximo alvo seria Portugal.

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