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Apresento-lhe o novo dono, John Grayken

Os que nos disseram que o homem era fiável, que ele só tem bancos pequenos e tudo corre bem, ou não viram a história toda ou esqueceram-se de a contar. Artigo de Francisco Louçã.
John Grayken à porta de um tribunal na Coreia do Sul onde depôs a favor de um acusado por manipulação de mercado. Foto Jeon Heon-Kyun/EPA

A simpática prenda do Novo Banco ao fundo norte-americano Lone Star suscitou comentários e perguntas. O comentário mais inspirador é o dos que garantem que a nacionalização seria uma tragédia (perderíamos muito dinheiro) mas que o Lone Star fez um bom negócio (ganhará muito dinheiro), o que não deixa de colocar um sufocante problema ontológico: o Novo Banco será um ou serão dois, como Janus, um que perde e outro que ganha, consoante o seu dono? Mas é de outra pergunta que ficou por fazer que lhe quero falar.

A pergunta, essa sim importante se me permite a insistência, é esta: quem é o novo dono do banco? Resposta: é John Grayken. Deixe-me então apresentar-lhe o senhor Grayken, nascido ali para os lados de Boston, nos Estados Unidos, mas naturalizado irlandês para pagar menos impostos (ele cobra um salário pessoal de 350 milhões por gerir o fundo e já acumulou uma fortuna de 6,3 mil milhões, é o segundo mais rico entre os gestores de fundos privados no mundo). “Milionário oportunista”, chamou-lhe a Forbes, ou “banqueiro na sombra”.

O dono, Grayken, teve uma carreira meteórica: começou num banco de investimento, Morgan Stanley, depois foi para o imobiliário e foi lá que aprendeu os truques, as oportunidades, a pose e o sucesso. No caminho, compra tudo o que for barato e puder ser vendido caro. Ficou famoso um negócio que fez com o Merrill Lynch, um grande banco em dificuldades, a quem comprou activos problemáticos com um desconto de 78% (e obrigou o banco a financiar esta sua operação a 75%, ou seja adiantou 5,5% do valor da compra). Em Portugal, foram os Dolce Vita e a Marina de Vilamoura, onde está ainda por emergir uma obra faraónica de mil milhões de euros, apalavrada desde há dois anos. Mas, pronto, os leitores poderão dizer que isso são acidentes de percurso, a vida de um especulador é arriscada.

Vamos então um pouco atrás na história de Grayken, até à Coreia do Sul, pois foi lá que começou a comprar bancos. Os que nos disseram que o homem era fiável, que ele só tem bancos pequenos e tudo corre bem, ou não viram a história toda ou esqueceram-se de a contar. Grayken comprou na Coreia um banco importante, dos maiores do país, o Korean Exchange Bank. Na tempestade da recessão de 2003, Grayken estendeu a mão salvadora e comprou 51% do banco por 1,3 mil milhões de dólares. Em 2006, negociou a venda por 6,6 mil milhões, um lucro de mais de 400%. O problema foi que as autoridades sul-coreanas não gostaram das contas e desconfiaram. A opinião pública reagiu contra este raid (como há quem não goste que se chame flibusteiro aos decisores destas operações, fico-me pelo raid). Descobriu-se que um executivo se tinha apropriado de alguns milhões e começou uma outra investigação sobre a manipulação dos preços das acções. A justiça emitiu mandatos de detenção contra o co-fundador do Lone Star e os seus dirigentes locais. E Grayken deu uma conferência de imprensa reconhecendo o desfalque, pediu desculpa por qualquer coisinha e prometeu doar, “num gesto de boa vontade”, como disse, cerca de cem milhões de dólares para obras de caridade no país.

Em 2008, com ou sem “gestos de boa vontade”, um dos executivos do Lone Star no banco foi condenado a cinco anos de prisão. Que importa, Grayken persistiu e lá conseguiu vender o banco em 2012 por cerca de quatro mil milhões de dólares, sempre são quase 300%. A compra do Tokyo Star Bank foi outra aventura: a Lone Star comprou em 2000, depois vendeu parte, depois vendeu tudo, depois voltou a comprar e depois voltou a vender em 2014 (mas ficou a acusação de fuga ao fisco).

Dir-me-á: problemas jurídicos são a vida de uma grande empresa (está a ser investigada pelo Procurador de Nova Iorque por práticas ilegais na cobrança de hipotecas, o seu negócio mais importante). Mas agora que conhece o dono do Novo Banco, diga-me por favor: dorme descansado sobre este caso?

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