Passos Coelho disse que não sabe o que é serviço público de rádio e televisão...
Passos Coelho não sabe o que é serviço público porque se calhar não tem água da torneira em casa... Tão simples quanto isso. O serviço público é aquilo que acabas por nem sentir que tens. Essa é a definição de serviço público.
Mas a RTP tem feito serviço público?
Nós achamos que tem feito algum serviço público. Quando falamos em serviço público temos de ver a emissão em geral. Mas tem de melhorar imenso. E passar de serviço público de século XX para serviço público de século XXI. No século XX era de rádio e televisão. Tem de passar para serviço público de média do século XXI. Isso é o primeiro passo a ser feito e é absolutamente obrigatório. A RTP não aproveitou o calendário que impuseram com a Televisão Digital Terrestre (TDT) para fazer mais serviço público, para servir mais diferenciadamente as populações. Não é compreensível haver novas plataformas de distribuição que podem oferecer muito mais às populações, ter ficado o mesmo e agora ainda querer reduzir. Isso é inexplicável.
Quer reduzir porque passaria de dois canais para um.
Sim, é impensável. As pessoas pagam 2,75 euros sem IVA por quatro canais e agora ficam com três. E especialmente quem fica sacrificado são as pessoas que não têm dinheiro para ter assinaturas por cabo. Que é o público da RTP mais idoso que precisa dessa companhia, dessa presença em casa. É mais um crime social que se fez, e que agora se quer reforçar.
O serviço público de comunicação social tem muitas valências, e no caso da RTP há a rádio, há a televisão e há as outras plataformas que vão crescer e estão a crescer. E que também têm de ser de serviço público. Mas entretanto está tudo suspenso. Aparece uma personagem cheia de razões e em três minutos resolve o problema do mundo. Parece-me completamente ridículo.
Mas há uma coisa a suceder – ainda ontem vimos uma coisa que não ficou bem, a tomada de posse do Presidente da República de Angola. A RTP-África passou o evento como se fosse um acontecimento nacional. Todo. Fez um desdobramento da emissão da TPA (Televisão Pública de Angola), quando nós sabemos que a RTP África tem uma audiência seis vezes superior à RTP 1 em termos africanos. E sabemos que neste momento há um vazio de liderança africana – por exemplo, Khadafi gostava de estar no centro de África –, esse lugar está vago. Por isso, aparecer uma televisão europeia a dizer que um grande presidente é outra vez presidente reforça o regime. Mas o mais grave ainda não foi isto. O que não entendo é que na RTP Informação também passou o mesmo. Em direto, sem tratamento jornalístico. Não consigo entender.
Vai haver a concessão da RTP, ou essa proposta foi enterrada?
A propósito disso, houve outra notícia: uma agência de comunicação, a Cunha Vaz, vai tratar da comunicação da RTP. Mas é a agência de comunicação que também tem a conta da Newshold, uma das empresas com grandes possibilidades de concorrer à privatização da RTP. Não há pudor e há demasiadas coincidências em pouco tempo. Por isso, quando se pergunta se há concessão ou não, o que parece é que há um negócio que já foi prometido.
Ontem também, o ex-presidente da RTP confessou quase que tinha sido compelido a sair. Ora esta administração era desejada, apadrinhada, mimada por Miguel Relvas para fazer o que ele quer.
Mas não acha que a programação da RTP 1 se distingue muito pouco da dos canais privados?
Ainda assim, distingue-se bastante. Não tem três horas de telenovelas, desde o serviço noticioso até à meia-noite e meia. Mas está muito aquém do que devia ser. Acho que tem de mudar radicalmente. Mas só pode mudar radicalmente se se divorciar da matriz comercial e organizacional que foi trazida do tempo do Rangel para a RTP.
A própria gestão das grelhas, a gestão dos dinheiros do canal, a própria escolha dos programas é feita segundo o modelo de um televisão comercial e não de um modelo europeu. Por isso, nós defendemos uma inflexão total e que a gestão da RTP nos canais seja igual aos serviços públicos europeus, que são geridos por slots, em que o diretor de programas deixa de ser aquela entidade toda poderosa, é só um orientador, e cada responsável por documentários, ou por concursos, tem aquelas horas e trata da programação. É um bocadinho como um jornal que se organiza por editorias, não se consegue um bom jornal em que o diretor faça tudo... É impossível. E o modelo que a tv comercial trouxe foi esse, porque eles quase que funcionam como um monoproduto, quando metem três horas de novelas. Por isso, tem de mudar radicalmente, fazer o regresso à Europa.
Qual é para vocês um bom exemplo de serviço público?
Há muitos, Dez por cento das televisões europeias – há uns cinco mil canais – são públicas, há muitas televisões públicas, umas mais ricas, outras mais pobres, mas que têm esta preocupação de cuidar de cada minuto de programação e de seguir um princípio base, de que hoje a missão é boa, mas amanhã será melhor. Isso só se pode conseguir se cada um tratar da sua hora. Não é fácil conseguir-se conteúdos bons. É preciso trabalhá-los e uma pessoa não pode trabalhar 365 dias vezes 24 horas.
Por isso é preciso mudar completamente a gestão da empresa do ponto de vista de programas, os conteúdos têm de melhorar, tem de se acabar com muitos desperdício de estrutura gigantesca. Isso foi o sinal positivo desta administração, desceu o ordenado, por isso neste momento os diretores que entrarem vão ter de descer o ordenado, se quiserem ficar, porque o subsídio de chefia tem de diminuir – não é o ordenado, é a parte de chefia que tem de diminuir – e isso tudo se arranja. A situação em que está é insustentável, seja qual for o plano.
Vocês criticam a estrutura inchada por parte das chefias...
Não é inchada, é supranumerária! É absolutamente ridículo, e aquilo divide-se em serviços do negócio, propriamente, e serviços de suporte. E os serviços de suporte às vezes são mais importantes que os serviços propriamente ditos. Isso tem de mudar radicalmente. Na estrutura da empresa, há diretores que estão em Lisboa e muita gente trabalha no Porto para eles e nem se conhecem. É preciso uma mudança radical da estrutura da empresa. E como tem de viver com menos dinheiro – e é possível viver com menos dinheiro – tem de acabar com estes desperdícios.
A Comissão de Trabalhadores vai apresentar propostas para isso?
Apresentámos umas ideias sobre isto, que são essencialmente três: acabar com o desperdício, no sentido que disse antes. Melhoria de conteúdos em geral. Na informação achamos que esta ideia de reduzir o telejornal foi boa, mas temos de aumentar os não-diários, para ser serviço público. E acima de tudo, os jornalistas têm de ter tempo para fazer bons não-diários. Depois, é preciso fazer investimentos tecnológicos. A tecnologia está muito mais barata, mas a empresa não está equipada, está obsoleta, para a empresa poder ser do século XXI e não do século XX.
Ainda dentro da questão do serviço público: não é absurdo que haja canais da RTP que só sejam vistos no cabo?A pessoa paga taxa e depois ainda tem de pagar a assinatura?
Sim, isso é um disparate, uma aberração. Primeiro, a TDT era para oferecer mais às pessoas, e agora querem que o TDT ofereça menos. Segundo, os custos de distribuição diminuíram de facto – a TDT não gasta tanta energia, uma coisa cara dos emissores. Os canais Memória, e a RTPI têm de estar na TDT. O contrassenso disto é que a RTP Informação está na TDT nos Açores. Porque quando reduziram agora a emissão dos Açores, que só começa às 17 horas, o resto do tempo é preenchido com a RTPI, só com a mudança do logotipo, e chama-lhe Canal Açores, mas os conteúdos são os mesmos. Há pouca honestidade no sistema. E a população não é tratada por igual. Nós não pactuamos com a aldrabice de mudar um logo e ter os mesmos conteúdos. E especialmente nos Açores, em que a televisão dá unidade territorial ao arquipélago. Devido a eles terem o anticiclone, toda a gente vive condicionada pelo boletim meteorológico. É o território em que o boletim meteorológico determina o dia das pessoas. E era essa a função da televisão, tinha muitos e bons boletins meteorológicos e todos, o pescador, o agricultor, de manhã viam, E agora não tem. Ora o serviço público deve ser aquilo de que as pessoas precisam.
Acha que o ministro Miguel Relvas, apesar de ter ficado enfraquecido, mantém o projeto da concessão?
Primeiro: não tenho a certeza de que o agente da venda seja o ministro Relvas, pode ser acima. Segundo: estão altamente comprometidos com isto. E o comprometimento tem-lhes dado desgaste, mas não podemos entender isto só como uma birra de um estudante das universidades de verão dos partidos. Não é só uma birra. Agora, parece, mas não é. É uma convicção ideológica, é um negócio já feito, Por isso, não parou, nem vai parar. A nova RTP que eles querem fazer tornou-se um ícone. E o novo presidente que entrou, que é especialista em produtos de grande consumo, seja detergentes ou cerveja, não sei se terá o cuidado suficiente para perceber que está a tratar não de uma empresa, mas de uma instituição. E é uma instituição que tem uma sede distribuída e uma minirrepartição em cada casa de cada português. Por isso é um bocadinho complicada de gerir.
Já fizeram um disparate monstruoso que foi a TDT. E uns dos grandes responsáveis desse disparate foi a administração da RTP, que em troca de ficar com a receita no cabo, entregou a televisão à raposa – e a raposa aqui chama-se PT. Os concursos foram feitos de uma forma indecorosa. O governo Sócrates vendeu ao desbarato o espectro. E quem sofre é a população, que ficou sem esses bens.
Não sei se esta administração terá força, imaginação para fazer coisas que efetivamente a população precisa. Na verdade, perderam-se muitos anos, a empresa está parada há muito tempo do ponto de vista organizacional. Tem números positivos em termos de orçamento, mas isso não chega.
Quando fala em números positivos, inclui a taxa e as receitas de publicidade? Não há publicidade a mais?
Há publicidade e publicidade. Achamos que é errado haver um dia em que o Continente toma conta da antena inteira para fazer aqueles piqueniques. Achamos que pode haver publicidade com uma certa moderação e certo estilo. Até é bom que exista, mas a publicidade não é um produto genérico, há muitos tipos de publicidade. E essa publicidade mais popular até pode ficar noutro campeonato. Nós não pertencemos ao mesmo campeonato das TVs comerciais. Há um campeonato das televisões comerciais e das televisões públicas. Isso foi outro erro – a RTP pôs-se a jogar outro campo, mas ela tem de ter publicidade vocacionada para o produto que tem e aí é quase pacífico. Os outros sabem que não vão ter aquela publicidade facilmente porque não têm produto para acompanhar. A publicidade de certas revistas não é igual à de outras. Se isto na imprensa está claro, por que na televisão não é a mesma coisa? Tudo tem de ter uma ética de serviço público, na publicidade, na redação, na gestão...
O governo pode não vender, pode não concessionar, e o mais certo é que não vá durar para isso. Mas nós sabemos que esta administração é agente deste desgoverno. O dr. Alberto da Ponte tem o símbolo do desgoverno de Portugal na lapela.
Isso quer dizer que as relações da CT com a nova administração não são nada boas...
Não têm de ser boas. Para já, por exemplo, no caso Crespo não fizeram nada. O atual presidente foi das três personalidades do país a apoiar a TSU, contratou uma empresa de comunicação externa... Até agora, os atos de Alberto da Ponte merecem bola preta. Exceto o ato de reduzir o seu ordenado, nada mais fez de nota. E ainda falta os diretores fazerem o mesmo, deviam fazer. Se quiserem, também são livres de sair e a maior parte deles não faz falta nenhuma.