Está aqui

“O serviço público tem de melhorar imenso”, diz a CT da RTP

Em entrevista ao Esquerda.net, Camilo Azevedo, da Comissão de Trabalhadores, explica as propostas para melhorar o serviço público de televisão. E aproveita para estranhar factos recentes, como a RTP-África e a RTPI terem transmitido em direto a posse do presidente de Angola e a nova administração ter contratado a agência de comunicação que também trabalha para a Newshold, candidata à privatização da RTP.
Camilo Azevedo: O serviço público é aquilo que acabas por nem sentir que tens. Foto de Luis Leiria

Passos Coelho disse que não sabe o que é serviço público de rádio e televisão...

Passos Coelho não sabe o que é serviço público porque se calhar não tem água da torneira em casa... Tão simples quanto isso. O serviço público é aquilo que acabas por nem sentir que tens. Essa é a definição de serviço público.

Mas a RTP tem feito serviço público?

Nós achamos que tem feito algum serviço público. Quando falamos em serviço público temos de ver a emissão em geral. Mas tem de melhorar imenso. E passar de serviço público de século XX para serviço público de século XXI. No século XX era de rádio e televisão. Tem de passar para serviço público de média do século XXI. Isso é o primeiro passo a ser feito e é absolutamente obrigatório. A RTP não aproveitou o calendário que impuseram com a Televisão Digital Terrestre (TDT) para fazer mais serviço público, para servir mais diferenciadamente as populações. Não é compreensível haver novas plataformas de distribuição que podem oferecer muito mais às populações, ter ficado o mesmo e agora ainda querer reduzir. Isso é inexplicável.

Quer reduzir porque passaria de dois canais para um.

Sim, é impensável. As pessoas pagam 2,75 euros sem IVA por quatro canais e agora ficam com três. E especialmente quem fica sacrificado são as pessoas que não têm dinheiro para ter assinaturas por cabo. Que é o público da RTP mais idoso que precisa dessa companhia, dessa presença em casa. É mais um crime social que se fez, e que agora se quer reforçar.

O serviço público de comunicação social tem muitas valências, e no caso da RTP há a rádio, há a televisão e há as outras plataformas que vão crescer e estão a crescer. E que também têm de ser de serviço público. Mas entretanto está tudo suspenso. Aparece uma personagem cheia de razões e em três minutos resolve o problema do mundo. Parece-me completamente ridículo.

Mas há uma coisa a suceder – ainda ontem vimos uma coisa que não ficou bem, a tomada de posse do Presidente da República de Angola. A RTP-África passou o evento como se fosse um acontecimento nacional. Todo. Fez um desdobramento da emissão da TPA (Televisão Pública de Angola), quando nós sabemos que a RTP África tem uma audiência seis vezes superior à RTP 1 em termos africanos. E sabemos que neste momento há um vazio de liderança africana – por exemplo, Khadafi gostava de estar no centro de África –, esse lugar está vago. Por isso, aparecer uma televisão europeia a dizer que um grande presidente é outra vez presidente reforça o regime. Mas o mais grave ainda não foi isto. O que não entendo é que na RTP Informação também passou o mesmo. Em direto, sem tratamento jornalístico. Não consigo entender.

Vai haver a concessão da RTP, ou essa proposta foi enterrada?

A propósito disso, houve outra notícia: uma agência de comunicação, a Cunha Vaz, vai tratar da comunicação da RTP. Mas é a agência de comunicação que também tem a conta da Newshold, uma das empresas com grandes possibilidades de concorrer à privatização da RTP. Não há pudor e há demasiadas coincidências em pouco tempo. Por isso, quando se pergunta se há concessão ou não, o que parece é que há um negócio que já foi prometido.

Ontem também, o ex-presidente da RTP confessou quase que tinha sido compelido a sair. Ora esta administração era desejada, apadrinhada, mimada por Miguel Relvas para fazer o que ele quer.

Mas não acha que a programação da RTP 1 se distingue muito pouco da dos canais privados?

Ainda assim, distingue-se bastante. Não tem três horas de telenovelas, desde o serviço noticioso até à meia-noite e meia. Mas está muito aquém do que devia ser. Acho que tem de mudar radicalmente. Mas só pode mudar radicalmente se se divorciar da matriz comercial e organizacional que foi trazida do tempo do Rangel para a RTP.

A própria gestão das grelhas, a gestão dos dinheiros do canal, a própria escolha dos programas é feita segundo o modelo de um televisão comercial e não de um modelo europeu. Por isso, nós defendemos uma inflexão total e que a gestão da RTP nos canais seja igual aos serviços públicos europeus, que são geridos por slots, em que o diretor de programas deixa de ser aquela entidade toda poderosa, é só um orientador, e cada responsável por documentários, ou por concursos, tem aquelas horas e trata da programação. É um bocadinho como um jornal que se organiza por editorias, não se consegue um bom jornal em que o diretor faça tudo... É impossível. E o modelo que a tv comercial trouxe foi esse, porque eles quase que funcionam como um monoproduto, quando metem três horas de novelas. Por isso, tem de mudar radicalmente, fazer o regresso à Europa.

Qual é para vocês um bom exemplo de serviço público?

Há muitos, Dez por cento das televisões europeias – há uns cinco mil canais – são públicas, há muitas televisões públicas, umas mais ricas, outras mais pobres, mas que têm esta preocupação de cuidar de cada minuto de programação e de seguir um princípio base, de que hoje a missão é boa, mas amanhã será melhor. Isso só se pode conseguir se cada um tratar da sua hora. Não é fácil conseguir-se conteúdos bons. É preciso trabalhá-los e uma pessoa não pode trabalhar 365 dias vezes 24 horas.

Por isso é preciso mudar completamente a gestão da empresa do ponto de vista de programas, os conteúdos têm de melhorar, tem de se acabar com muitos desperdício de estrutura gigantesca. Isso foi o sinal positivo desta administração, desceu o ordenado, por isso neste momento os diretores que entrarem vão ter de descer o ordenado, se quiserem ficar, porque o subsídio de chefia tem de diminuir – não é o ordenado, é a parte de chefia que tem de diminuir – e isso tudo se arranja. A situação em que está é insustentável, seja qual for o plano.

Vocês criticam a estrutura inchada por parte das chefias...

Não é inchada, é supranumerária! É absolutamente ridículo, e aquilo divide-se em serviços do negócio, propriamente, e serviços de suporte. E os serviços de suporte às vezes são mais importantes que os serviços propriamente ditos. Isso tem de mudar radicalmente. Na estrutura da empresa, há diretores que estão em Lisboa e muita gente trabalha no Porto para eles e nem se conhecem. É preciso uma mudança radical da estrutura da empresa. E como tem de viver com menos dinheiro – e é possível viver com menos dinheiro – tem de acabar com estes desperdícios.

 

A Comissão de Trabalhadores vai apresentar propostas para isso?

Apresentámos umas ideias sobre isto, que são essencialmente três: acabar com o desperdício, no sentido que disse antes. Melhoria de conteúdos em geral. Na informação achamos que esta ideia de reduzir o telejornal foi boa, mas temos de aumentar os não-diários, para ser serviço público. E acima de tudo, os jornalistas têm de ter tempo para fazer bons não-diários. Depois, é preciso fazer investimentos tecnológicos. A tecnologia está muito mais barata, mas a empresa não está equipada, está obsoleta, para a empresa poder ser do século XXI e não do século XX.

Ainda dentro da questão do serviço público: não é absurdo que haja canais da RTP que só sejam vistos no cabo?A pessoa paga taxa e depois ainda tem de pagar a assinatura?

Sim, isso é um disparate, uma aberração. Primeiro, a TDT era para oferecer mais às pessoas, e agora querem que o TDT ofereça menos. Segundo, os custos de distribuição diminuíram de facto – a TDT não gasta tanta energia, uma coisa cara dos emissores. Os canais Memória, e a RTPI têm de estar na TDT. O contrassenso disto é que a RTP Informação está na TDT nos Açores. Porque quando reduziram agora a emissão dos Açores, que só começa às 17 horas, o resto do tempo é preenchido com a RTPI, só com a mudança do logotipo, e chama-lhe Canal Açores, mas os conteúdos são os mesmos. Há pouca honestidade no sistema. E a população não é tratada por igual. Nós não pactuamos com a aldrabice de mudar um logo e ter os mesmos conteúdos. E especialmente nos Açores, em que a televisão dá unidade territorial ao arquipélago. Devido a eles terem o anticiclone, toda a gente vive condicionada pelo boletim meteorológico. É o território em que o boletim meteorológico determina o dia das pessoas. E era essa a função da televisão, tinha muitos e bons boletins meteorológicos e todos, o pescador, o agricultor, de manhã viam, E agora não tem. Ora o serviço público deve ser aquilo de que as pessoas precisam.

Acha que o ministro Miguel Relvas, apesar de ter ficado enfraquecido, mantém o projeto da concessão?

Primeiro: não tenho a certeza de que o agente da venda seja o ministro Relvas, pode ser acima. Segundo: estão altamente comprometidos com isto. E o comprometimento tem-lhes dado desgaste, mas não podemos entender isto só como uma birra de um estudante das universidades de verão dos partidos. Não é só uma birra. Agora, parece, mas não é. É uma convicção ideológica, é um negócio já feito, Por isso, não parou, nem vai parar. A nova RTP que eles querem fazer tornou-se um ícone. E o novo presidente que entrou, que é especialista em produtos de grande consumo, seja detergentes ou cerveja, não sei se terá o cuidado suficiente para perceber que está a tratar não de uma empresa, mas de uma instituição. E é uma instituição que tem uma sede distribuída e uma minirrepartição em cada casa de cada português. Por isso é um bocadinho complicada de gerir.

Já fizeram um disparate monstruoso que foi a TDT. E uns dos grandes responsáveis desse disparate foi a administração da RTP, que em troca de ficar com a receita no cabo, entregou a televisão à raposa – e a raposa aqui chama-se PT. Os concursos foram feitos de uma forma indecorosa. O governo Sócrates vendeu ao desbarato o espectro. E quem sofre é a população, que ficou sem esses bens.

Não sei se esta administração terá força, imaginação para fazer coisas que efetivamente a população precisa. Na verdade, perderam-se muitos anos, a empresa está parada há muito tempo do ponto de vista organizacional. Tem números positivos em termos de orçamento, mas isso não chega.

Quando fala em números positivos, inclui a taxa e as receitas de publicidade? Não há publicidade a mais?

Há publicidade e publicidade. Achamos que é errado haver um dia em que o Continente toma conta da antena inteira para fazer aqueles piqueniques. Achamos que pode haver publicidade com uma certa moderação e certo estilo. Até é bom que exista, mas a publicidade não é um produto genérico, há muitos tipos de publicidade. E essa publicidade mais popular até pode ficar noutro campeonato. Nós não pertencemos ao mesmo campeonato das TVs comerciais. Há um campeonato das televisões comerciais e das televisões públicas. Isso foi outro erro – a RTP pôs-se a jogar outro campo, mas ela tem de ter publicidade vocacionada para o produto que tem e aí é quase pacífico. Os outros sabem que não vão ter aquela publicidade facilmente porque não têm produto para acompanhar. A publicidade de certas revistas não é igual à de outras. Se isto na imprensa está claro, por que na televisão não é a mesma coisa? Tudo tem de ter uma ética de serviço público, na publicidade, na redação, na gestão...

O governo pode não vender, pode não concessionar, e o mais certo é que não vá durar para isso. Mas nós sabemos que esta administração é agente deste desgoverno. O dr. Alberto da Ponte tem o símbolo do desgoverno de Portugal na lapela.

Isso quer dizer que as relações da CT com a nova administração não são nada boas...

Não têm de ser boas. Para já, por exemplo, no caso Crespo não fizeram nada. O atual presidente foi das três personalidades do país a apoiar a TSU, contratou uma empresa de comunicação externa... Até agora, os atos de Alberto da Ponte merecem bola preta. Exceto o ato de reduzir o seu ordenado, nada mais fez de nota. E ainda falta os diretores fazerem o mesmo, deviam fazer. Se quiserem, também são livres de sair e a maior parte deles não faz falta nenhuma.  

(...)

Neste dossier:

O que é um serviço público de rádio e televisão?

 

Passos Coelho afirmou recentemente que não sabe “o que é que se entende por serviço público” e que é preciso defini-lo antes de decidir o que fazer com a RTP. Isto depois de se ter feito uma comissão que tinha precisamente esse objetivo. Mas será tão difícil assim definir o que é serviço público de rádio e televisão? Este dossier, coordenado por Luis Leiria, descobriu que não, e avança com respostas e propostas.

“O serviço público tem de melhorar imenso”, diz a CT da RTP

Em entrevista ao Esquerda.net, Camilo Azevedo, da Comissão de Trabalhadores, explica as propostas para melhorar o serviço público de televisão. E aproveita para estranhar factos recentes, como a RTP-África e a RTPI terem transmitido em direto a posse do presidente de Angola e a nova administração ter contratado a agência de comunicação que também trabalha para a Newshold, candidata à privatização da RTP.

Tanta asneira sobre a Rádio e a Televisão públicas…

Mas que raio de conversa é essa de não se saber o que é “Serviço Público”? Quem faz esta pergunta não levou vacinas quando era pequenino? Não andou na Escola Pública? Não andou de comboio, autocarro? Nunca viu as patrulhas da PSP ou da GNR? Não sabe que um Serviço Público é algo que o Estado disponibiliza aos cidadãos para que eles o possam ser de facto: cidadãos! Por José Manuel Rosendo jornalista da Antena 1.

Estações públicas são mais importantes em tempos de dificuldades

Dois máximos dirigentes da União Europeia de Radiodifusão enviaram um carta ao primeiro-ministro português para insistir que “o processo de privatização de parte da RTP dá precedência ao interesse comercial sobre o interesse público e põe em xeque o pluralismo informativo”. A carta é reproduzida a seguir.

O Serviço Público de média é sinal de vitalidade e garante da democracia

Para os investigadores do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho, abre-se uma clara oportunidade para enveredar por um Serviço Público de média gerido com independência e rigor, produzindo conteúdos de excelência e disponível em acesso aberto.

RTP: a política do facto consumado

O Governo faz-se de ignorante perante as declarações do consultor Borges, mas enquanto isso vai fechando a porta à espera que alguém apague a luz na RTP.

O capital privado é mais livre do que o público? A privatização da RTP

Enquanto o Governo dá como encerrada a discussão em torno da venda da RTP, os trabalhadores saem à rua em protesto e os debates sucedem-se. Publico aqui um contributo para o debate. As referências bibliográficas estão no final.

"O serviço público de televisão não pode ser feito por privados"

No Fórum Socialismo 2012, o cineasta António Pedro Vasconcelos é perentório: “Só em Portugal é que se lembraram disso!”

"RTP não pode deixar de ter dois canais"

No painel do Fórum Socialismo 2012 sobre a ameaça privatizadora ao serviço público de televisão, o cineasta António Pedro Vasconcelos defendeu a necessidade de dois canais de serviço público e criticou a irresponsabi-lidade dos partidos que endividaram a empresa para agora a entregarem com lucro garantido aos privados.