Trump, Putin e a Ucrânia: a partilha das zonas de influência em detrimento dos povos

12 de abril 2026 - 20:05

Donald Trump redefiniu neste mandato a estratégia internacional dos EUA segundo uma lógica brutal de relações de força entre grandes potências, desdobrando-se em políticas agressivas no Médio Oriente e nas Américas enquanto promovia o reposicionamento estratégico em relação à Rússia.

porÉric Toussaint

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O Presidente Donald J. Trump e o Presidente Vladimir Putin da Federação Russa a 16 de julho de 2018.
O Presidente Donald J. Trump e o Presidente Vladimir Putin da Federação Russa a 16 de julho de 2018. Foto Shealah Craighead/Casa Branca.

Longe de ser apresentado como inimigo central da ordem mundial, Moscovo tem sido tratada como adversário secundário, com o qual seria possível chegar a um entendimento. O objectivo de Washington é claro: impedir que a Rússia reforce a sua aliança com a China, considerada como rival sistémica principal dos EUA [1]. Esta é uma diferença em relação ao primeiro mandato de Trump e ao de Joe Biden de 2021 a 2024.

os documentos estratégicos publicados pela administração de Trump entre dezembro de 2025 e inícios de 2026 confirmam esta mudança. Neles a Rússia é descrita como uma ameaça «persistente mas passível de ser gerida», enquanto os dirigentes europeus são acusados de exagerarem o perigo que ela representaria e de alimentarem expectativas irrealistas quanto ao desfecho da guerra na Ucrânia. Ao mesmo tempo, Washington afirma querer negociar um rápido fim da guerra sob a sua égide. Este reposicionamento abre caminho a um cenário com pesadas consequências: um acordo entre potências imperialistas – os EUA e a Rússia – que será alcançado em detrimento do povo da Ucrânia.

A política de Trump em relação à Rússia

Desde o início do seu segundo mandato, Donald Trump conseguiu que Vladimir Putin, à parte os seus protestos verbais, não reagisse aos actos de agressão e guerra perpetrados por Washington contra aliados de Moscovo, tanto na Venezuela e no Irão, como quanto ao bloqueio total de Cuba aplicado desde finais de janeiro de 2026 [2]. Trump deu uma guinada em comparação com a política adoptada no decurso do seu primeiro mandato, durante o qual colocou a China e a Rússia no mesmo plano, considerando-os como adversários que pretendiam pôr em causa a ordem internacional dominada por Washington.

Donald Trump envia a Putin a mensagem de que está disposto a permitir que Moscovo use e abuse da força nas suas imediações geográficas, nomeadamente na Ucrânia, tal como Washington faz nas Américas, no Próximo Oriente e noutros lugares. Trump afirma o seu direito de usar a força em qualquer parte do mundo e reconhece de facto o direito de Putin a fazer o mesmo na sua periferia mais limitada, que corresponde a uma parte do território do ex-império russo do tempo dos czares e da ex-União Soviética. Isto corresponde a uma lógica clássica de partilha implícita das zonas de influência entre grandes potências imperialistas.

Trump procura também evitar o reforço da aliança entre a Rússia e a China. Para chegar aí, não coloca os dois países no mesmo plano. É uma diferença em relação ao seu primeiro mandato e ao de Joe Biden de 2021 a 2024.

Trump reduziu o apoio militar directo dos EUA à Ucrânia, transferindo o peso desse apoio para os seus aliados da Europa Ocidental na OTAN. Em janeiro de 2026 convidou Moscovo e seus aliados da Bielorrússia e da Hungria a participarem no seu Conselho Mundial da Paz.

A 5 de março de 2026, Trump anunciou que permitiria temporariamente à Rússia exportar sem sanções o seu petróleo para a Índia, que o consome e exporta para outras partes do mundo, incluindo a Europa. Uma das razões não expressas desta permissão consiste em convencer a Rússia a limitar-se a emitir protestos verbais sobre a agressão massiva de Washington e Israel contra o Irão, aliado da Rússia.

Trump na íntegra

Trump revela um certo número de posições a propósito da Europa, da Rússia e da Ucrânia no documento sobre a nova estratégia de segurança nacional divulgado em 3 de dezembro de 2025. Considera que a União Europeia e a Grã-Bretanha «beneficiam de uma considerável vantagem em termos de poderio militar sobre a Rússia em quase todos os domínios, com excepção das armas nucleares» [3] e que os dirigentes europeus exageram a ameaça representada pela Rússia.

O documento da administração Trump prossegue: «No seguimento da guerra levada a cabo pela Rússia na Ucrânia, as relações entre a Europa e a Rússia degradaram-se fortemente e numerosos europeus consideram a Rússia uma ameaça existencial» [4].

Pela forma como o texto está escrito, deduz-se que Trump diz aos governos europeus que a Rússia não é uma ameaça existencial para eles. Em certas ocasiões Trump descreveu a Rússia como uma ameaça existencial, mas isso não consta nem no documento de estratégia de segurança nacional publicado em dezembro de 2025, nem no documento de estratégia de defesa nacional publicado em finais de janeiro de 2026.

Trump considera que a UE e a Grã-Bretanha devem optar por uma abordagem diferente da que usaram até agora nas negociações com a Rússia, no que diz respeito às reivindicações desta última. Isto fica particularmente claro na seguinte passagem:

«A administração Trump está em desacordo com os responsáveis europeus que alimentam expectativas irrealistas quanto ao desfecho da guerra, empossados em governos minoritários instáveis, muitos dos quais violam princípios fundamentais da democracia para reprimirem a oposição.»

Recordemos que Trump afirma que os governos europeus reprimem os partidos patrióticos, que é como quem diz, a extrema direita neofascista [5].

O texto de Trump prossegue assim:

«A grande maioria dos Europeus anseia pela paz, mas esse desejo não se traduz em actos políticos, em grande medida por causa da subversão dos processos democráticos efectuada por esses governos.»

e acrescenta:

«Isto é estrategicamente importante para os EUA, precisamente porque os estados europeus não podem fazer reformas quando estão reféns de uma crise política.» [6]

É evidente, no trecho que acabamos de citar, uma desavença profunda com os governos alemão, francês, britânico, espanhol, dinamarquês, polaco, etc. Em contrapartida, isto reforça a posição dos primeiros-ministros húngaro, Viktor Orban, e eslovaco, Robert Fico, a quem Marco Rubio, ministro dos Negócios Estrangeiros norte-americano, fez uma visita em fevereiro de 2026, após a conferência de Munique para a paz. Recordemos que esses dois governos são a favor de um aligeiramento das sanções contra a Rússia de Putin e que exprimem simpatia por Trump.

Quanto às relações entre a UE, a Grã-Bretanha, a Rússia e a Ucrânia, fica claro que Trump deseja permanecer no centro do jogo diplomático:

«A gestão das relações europeias com a Rússia exigirá um empenho diplomático americano significativo, tanto para restabelecer as condições para a estabilidade estratégica no conjunto do continente eurasiático, como para atenuar o risco de conflito entre a Rússia e os estados europeus» [7]. [8]

Também podemos deduzir da passagem anterior que, dada a superioridade militar dos países da UE e da Grã-Bretanha sobre a Rússia, o reequilíbrio deveria ser feito em favor da Rússia. A mesma ideia está presente na seguinte passagem:

«É primordial para os EUA negociar o rápido fim das hostilidades na Ucrânia, a fim de estabilizar as economias europeias, impedir uma escalada ou uma extensão involuntária do conflito e restabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia, bem como permitir a reconstrução da Ucrânia após o fim das hostilidades, a fim de assegurar a sua sobrevivência como estado viável» [9]. [10]

Nesta passagem Trump reafirma que deseja o fim rápido das hostilidades e pressiona a UE, a Grã-Bretanha e a Ucrânia para que façam concessõs à Rússia, tudo isto sob os auspícios de Washington.

A política de Trump em relação à Ucrânia

Trump não tem qualquer consideração pelo direito do povo da Ucrânia a defender a sua soberania. Ora se a invasão de fevereiro de 2022 foi largamente posta em causa, foi porque o povo ucraniano resistiu e mostrou o seu apego à soberania do seu país. Se o povo ucraniano não fosse massivamente a favor da resistência, o envio de armas pelas potências ocidentais às autoridades de Kiev não seria suficiente para contrariar o plano inicial de Putin, que queria chegar com o seu exército a Kiev, mudar o regime e tomar posse de uma grande parcela do território ucraniano, a começar pelo Leste do país. Esta afirmação deve ser apresentada a par com a crítica à política neoliberal e nacionalista e chauvinista do governo de direita de V. Zelensky, com a denúncia da OTAN e das aspirações imperialistas de Trump e dos europeus sobre a Ucrânia. Importa também acrescentar que a Ucrânia não é uma potência imperialista.

Trump está totalmente nas tintas para o direito internacional e considera que pode recorrer à força para se assenhorear dos recursos petrolíferos da Venezuela ou do Irão, depois de ter agredido militarmente esses países. Ele admite que a Rússia de Putin possa fazer o mesmo na sua vizinhança imediata, desde que isso não prejudique os interesses norte-americanos no Leste europeu. Trump está disposto a entrar num arranjinho com Putin, à custa do povo ucraniano. Putin pode conservar ou tomar o controlo de uma parte do território, da população e dos recursos naturais da Ucrânia, desde que as empresas norte-americanas obtenham em contrapartida vantagens no resto do território ucraniano [11]. Nessas condições, Washington estaria disposto a proteger as autoridades ucranianas enfraquecidas e o território que ainda controlassem, desde que as autoridades de Kiev permitam às empresas norte-americanas extrair o máximo possível de lucro [12]. O que Trump propõe é um acordo entre duas potências imperialistas predadoras, os EUA e a Rússia, que estabelecem um acordo para violarem o direito dos povos à autodetermnação e ao exercício da soberania sobre os seus territórios e respectivos recursos naturais. As potências imperialistas europeias são fortemente postas de lado por Trump, embora também elas procurem promover os seus próprios interesses e os das grandes empresas privadas que cobiçam os recursos naturais, as terras e o mercado ucraniano.

A posição de Trump a propósito da Rússia

Trump considera que as administrações anteriores cometeram o erro de favorecer a constituição de um bloco entre a Rússia e a China, o que reforça a posição da China. Pretende separar a Rússia da China ou pelo menos reduzir os laços entre essas duas potências. Washington, que aponta a China como seu inimigo principal e sistémico, tenta portanto reduzir a propensão da Rússia para reforçar os seus laços com a China [13]. O NSS 2025 considera a Rússia como um adversário militar sério mas estrategicamente secundário que deve ser contido mas sem ser eleito inimigo civilizacional, a fim de concentrar os meios (militares e económicos) dos EUA no combate à China.

A reacção do Kremlin à publicação do documento de estratégia de segurança nacional NSS 2025

Dmitri Peskov, porta-voz russo, comentou o documento de estratégia de segurança nacional em uma entrevista concedida ao jornalista do estado russo a 7 de dezembro de 2025, Pavel Zarubin, para a cadeia mediática Rossiya 1, abundantemente ecoada pelos meios de comunicação russos como Interfax, Fontanka ou TASS: «Os ajustamentos feitos à estratégia nacional de segurança dos Estados Unidos correspondem em grande parte à nossa visão» [14].

O comunicado de imprensa completo publicado pelo meio de comunicação russo em linha Fontanka.ru, a 7 de dezembro de 2025, especifica:

«Peskov comentou a nova estratégia de segurança nacional dos EUA. Os ajustes acrescentados à estratégia de segurança nacional dos EUA correspondem em grande parte à visão do governo russo. Assim, Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, comentou a actualização do documento ao jornalista Pavel Zaroubin. O porta-voz do presidente exprimiu a esperança de que a nova estratégia permitirá a Washington e a Moscovo prosseguir de maneira construtiva a colaboração mútua quanto à questão da Ucrânia. A estratégia actualizada foi publicada a 5 de dezembro pela administração do presidente americano Donald Trump. As relações com a Europa e o conflito na Ucrânia ocupam um lugar de destaque no documento. É também sublinhado que a OTAN não deve ser uma «aliança em expansão infinita». Peskov sublinhou que é necessário seguir de perto a aplicação deste conceito.»(Fonte: https://www.fontanka.ru/2025/12/07/76159504/ )

A agência de informações Interfax, por seu lado, escreveu em 7 de dezembro de 2025:

«O Kremlin saudou as formulações relativas à OTAN na estratégia de segurança nacional dos EUA. Medvedev vê na nova estratégia de segurança nacional dos EUA uma tentativa de melhorar as relações com a Rússia. O Kremlin saúda as formulações da estratégia de segurança nacional americana actualizada referentes ao congelamento do alargamento da OTAN, mas irá seguir de perto a aplicação concreta desse documento» [15].

Recordemos que Dmitri Medvedev é o vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia e presidente do partido de Putin no poder na federação russa.

A evolução de Washington quanto à descrição da Rússia como ameça entre Trump I e Trump II

Na Estratégia Nacional de Defesa 2026, tornada pública em finais de janeiro de 2026 (NDS 2026), a Rússia é identificada como «uma ameaça persistente mas passível de ser gerida» para a OTAN, o que significa uma mudança favorável à Rússia, em comparação com os adjectivos mais alarmantes dos documentos precedentes, que designavam a Rússia como «potência revisionista» (revisionist power) durante o primeiro mandato de Trump em 2017 [16] e como «ameaça imediata para a ordem internacional» [17] e «ameaça aguda» em 2022, durante a presidência de Joe Biden. O NSS 2022 da administração Biden afirmava que a Rússia «quebrou a paz na Europa».

Na linguagem estratégica do governo dos EUA, «revisionist power» designa um estado que procura modificar as regras, as instituições ou o equilíbrio de poder na ordem internacional existente, dominada pelos EUA. Nos documentos da primeira administração Trump e da presidência de Biden, a Rússia e a China eram apresentadas como potências revisionistas.

Eis alguns extractos do NDS 2026 relativos à Rússia:

«a ameaça militar russa concentra-se sobretudo na Europa de Leste», «Moscovo não tem a capacidade de pôr como objectivos o exercício da sua hegemonia na Europa. A OTAN europeia eclipsa a Rússia em termos económicos, populacionais e, por consequência, de potência militar latente» e «Felizmente, os nossos aliados da OTAN são nitidamente mais poderosos que a Rússia, que lhes fica muito atrás. A economia alemã, só por si, eclipsa a da Rússia» [18].

Os pontos comuns entre Trump e Putin

Apesar das suas rivalidades geopolíticas, Donald Trump e Vladimir Putin partilham um conjunto considerável de posições ideológicas e políticas.

Ambos se caracterizam por um anticomunismo declarado e pelo apoio sem reservas ao sistema capitalista, inclusive nas suas formas mais brutais de exploração da mão-de-obra e dos recursos naturais.

Trump e Putin são nacionalistas que defendem o primado dos direitos da nação dominante a que pertencem. Trump apoia os supremacistas brancos e afirma o primado dos interesses dos norte-americanos em relação às nações estrangeiras, que não hesitam em tratar em termos racistas. Putin proclama um chauvinismo pan-russo e denuncia Lenine pela «criação» (sic) da Ucrânia e o reconhecimento do seu direito a separar-se da URSS no início dos anos 1920 [19].

ambos defendem igualmente uma política energética assente na exploração intensiva das energias fósseis, contribuindo assim para o agravamento da catástrofe ecológica mundial em curso.

A nível social, as suas posições convergem para orientações homofóbicas e hostis aos direitos das pessoas LGBTQIA+, a par da promoção de valores conservadores tingidos por uma visão reaccionária do cristianismo.

No domínio internacional, tanto Trump como Putin privilegiam o recurso à força militar para impor os seus objectivos políticos e económicos, em prejuízo do direito internacional. Esta orientação é acompanhada pelo apoio inequívoco ao desenvolvimento rápido e massivo das indústrias de armamento, bem como ao recurso crescente do poder militar.

As suas políticas externas assentam também no uso recorrente de pretextos contestáveis ou infundados para justificar o recurso à força. Ambos cultivam um chauvinismo de grande potência e um nacionalismo exacerbado, característicos de projectos políticos autoritários.

Por outro lado, mantêm relações estreitas com as forças de extrema direita europeias, que manifestam reciprocamente uma forte simpatia em relação a eles.

Donald Trump dá apoio total ao governo israelita dirigido por Benjamin Netanyahu, que é neofascista e responsável pelo genocídio em Gaza. Vladimir Putin, por seu lado, mantém relações cordiais com Netanyahu e continua a exportar produtos russos para Israel – carvão, petróleo e cereais –, não pondo em causa os acordos comerciais existentes [20].

Putin aceitou também o princípio da criação de um Conselho Mundial presidido por Trump e deseja que a Rússia se torne membro. Nesse contexto, pediu aos EUA que suspendessem o congelamento dos bens russos, a fim de que a Rússia possa depositar a quota dos mil milhões de dólares necessários para se tornar membro permanente daquela organização, considerada totalmente ilegítima pelos seus detractores.

Trump, tal como Putin, faz uso extensivo e controverso do termo «genocida», ao mesmo tempo que recusa reconhecer ou denunciar o genocídio do povo palestino. Trump afirma que o governo de Pretoria seria responsável por um «genocídio dos Brancos» na África do Sul, enquanto Putin defende que o governo de Kiev praticou um genocídio contra as populaçõoes russas da Ucrânia.

Além destas convergências ideológicas e geopolíticas, Donald Trump e Vladimir Putin dão mostras de similitudes acentuadas na forma de exercer e conceber o poder. Ambos privilegiam uma forte personalização da liderança, centrada na figura de um dirigente apresentado como a incarnação directa da nação e da sua vontade. Os seus discursos políticos baseiam-se normalmente em uma retórica que opõe «o povo» às elites políticas, mediáticas e económicas, acusadas de trair os interesses nacionais. Neste âmbito, manifestam-se em oposição frontal contra as instituições multilaterais e o direito internacional, quando entendem que estes são obstáculos aos seus objectivos estratégicos. Por outro lado, as suas práticas políticas são acompanhadas por uma crítica constante aos meios de comunicação considerados hostis e recorrem constantemente a estratégias de comunicação que visam contornar ou deslegitimar os contrapoderes institucionais. Estes elementos contribuem para inscrever os seus projectos políticos numa concepção do poder fortemente personalizada, imperialista e autoritária neofascista.

Quais as diferenças entre Trump e Putin?

Uma diferença que merece destaque tem a ver com a abordagem à guerra e ao uso directo da força militar. Donald Trump está persuadido de que é possível entrar em conflito sem enviar tropas para o terreno de forma duradoura, privilegiando a superioridade tecnológica, os golpes desferidos à distância e as operações militares limitadas no tempo, com perdas humanas quase nulas do lado americano. Esta ilusão de Trump foi posta em cheque na sua guerra contra o Irão em fevereiro-março de 2026.

Vladimir Putin, pelo contrário, escolheu uma estratégia diferente ao invadir militarmente a Ucrânia de forma massiva em 2022, o que teve como consequência o envio de grandes contingentes de forças armadas terrestres e perdas humanas extremamente elevadas, tanto do lado russo quanto do lado ucraniano.

Outra diferença fundamental diz respeito ao lugar dos respectivos estados na hierarquia mundial do capitalismo. Donald Trump dirige a principal potência económica e militar capitalista e imperialista do mundo. Vladimir Putin, por seu turno, está à cabeça de uma potência capitalista imperialista secundária, enfraquecida e em relativo declínio, mas que continua a ser um interveniente estratégico de primeiro plano, em virtude de possuir um arsenal nuclear globalmente comparável ao dos EUA.

Finalmente, as suas ambições geopolíticas diferem quanto à escala de intervenção. A política imperialista levada a cabo por Trump visa a totalidade do planeta, enquanto a de Putin se concentra prioritariamente no espaço pós-soviético e na sua periferia imediata, apesar de a Rússia ter tentado alargar a sua influência a outras regiões, como a Síria – onde acabou por sofrer um revés com a queda do regime de Bashar al-Assad.

Trump e o complexo industrial militar dos EUA terão interesse no rápido fim da guerra na Ucrânia?

Com o actual estado de coisas em 2026, Trump, contrariamente às suas afirmações durante a campanha eleitoral ou no início do seu mandato, não tem como prioridade pôr fim à guerra na Ucrânia, por diversos motivos.

De facto, o prosseguimento da guerra torna mais credível o argumento dos EUA no sentido de os aliados europeus da OTAN continuarem a aumentar fortemente as suas despesas militares, o que favorece as exportações de armas das grandes empresas privadas norte-americanas.

Além disso, Washington obteve um acordo muito favorável aos seus interesses com os países europeus membros da OTAN. Estes compram aos EUA as armas que fornecem à Ucrânia e que são utilizadas em ritmo intensivo enquanto a guerra continua. Trump suspendeu quase totalmente o envio de novos fornecimentos directos de armas à Ucrânia. A continuação da guerra também serve para desviar em parte as atenções das agressões perpetradas pelos EUA sob o comando de Trump no resto do mundo.

A continuação da guerra na Ucrânia e o esforço que isso representa para a economia russa e sua população impede Putin de enviar as suas forças militares para outros continentes, com excepção de alguns países africanos, sob a forma de forças militares privadas russas.

Finalmente, Trump aliviou em 5 de março de 2026 as sanções contra a Rússia em matéria de venda de petróleo. Se a isto acrescentarmos o aumento do preço dos combustíveis no mercado mundial, em consequência da guerra no Próximo Oriente provocada por Washington e Israel, a Rússia de Putin vê os seus rendimentos de exportação aumentarem, o que lhe permite sustentar o esforço da guerra de agressão contra a Ucrânia.

Conclusão

Definitivamente, a política levada a cabo por Donald Trump em relação à Rússia obedece a uma lógica clássica de rivalidade entre grandes potências: reduzir a aproximação entre Moscovo e Pequim, manter os EUA no centro do jogo diplomático e impor aos países europeus a maior parte dos custos da guerra na Ucrânia. Por detrás do discurso oficial que apela ao rápido fim das hostilidades, Washington não tem necessariamente interesse numa paz imediata.

Neste contexto, não podemos excluir a hipótese de um entendimento entre Washington e Moscovo, à custa do povo ucraniano. As convergências ideológicas e políticas entre Donald Trump e Vladimir Putin – apego a um capitalismo autoritário, nacionalismo de grande potência, militarismo, imperialismo militar agressivo, desprezo pelo direito internacional e proximidade às forças de extrema direita – são favoráveis a essa relação entre as duas potências.

Para lá das suas rivalidades e das suas diferenças de potência, os dois dirigentes partilham a mesma visão do mundo. Nestas condições, os povos – nomeadamente o povo ucraniano – correm o risco de serem as principais vítimas de um novo equilíbrio geopolítico baseado na partilha de zonas de influência.

Mas não podemos excluir uma possível viragem de Trump no futuro. Se não conseguir alcançar os seus fins na negociação com Putin, é possível que adopte uma atitude muito mais dura e passe a apontar a Rússia como ameaça muito mais séria do que o que está expresso nos documentos que acabamos de analisar.

O certo é que as negociações entre Trump e Putin não levam em conta os interesses e os direitos dos povos. É preciso construir a partir das bases uma solidariedade entre os povos, a fim de reforçar a resistência contra a ascensão do neofascismo e o aumento das agressões imperialistas, venham elas donde vierem.


O autor agradece a Sushovan Dhar, Antoine Larrache e Maxime Perriot pelas suas releituras. Tradução de Rui Viana Pereira. Artigo publicado em CADTM

Notas:

[1] «Por que Washington fez da China seu principal adversário estratégico», Éric Toussaint, 19-01-2026, CADTM, 24216

[2] A Rússia enviou para Cuba um petroleiro que chegou ao porto de Matanzas em finais de março de 2026 com uma carga de petróleo suficiente para acudir às necessidades do país durante cerca de uma quinzena. Foi o primeiro petroleiro a aportar em Cuba desde janeiro de 2026. Trump deixou passar, apesar do embargo total decretado contra as entregas de petróleo às autoridades da ilha. Provavelmente foi uma benesse de Trump em relação a Moscovo relacionado com a guerra em curso no Próximo Orient.

[3] Excerto do «Documento de Estratégia de Segurança Nacional» publicado em dezembro de 2025, p. 25 (NSS 2025). https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf?internal=true

[4] NSS 2025, p. 25.

[5] «Trump, a Europa e a internacional neofascista: do apoio ideológico à coordenação política», Éric Toussaint, 28-01-2026, CADTM. 24247

[6] NSS 2025, p. 33.

[7] NSS 2025, p. 25.

[8] NSS 2025, p. 25.

[9] NSS 2025, p. 25.

[10] NSS 2025, p. 25.

[11] «A apropriação dos recursos naturais na Ucrânia e no leste da República Democrática do Congo. O imperialismo na ofensiva», Éric Toussaint, 15-05-2025, CADTM. 23495

[12] «O acordo de mineração assinado entre a Ucrânia e os Estados Unidos reflete o desejo do capital americano de ter acesso irrestrito aos recursos minerais da Ucrânia», Vitaliy Dudin, 13-05-2025, CADTM. 23496

[13] fontanka.ru. Desde o início da guerra na Ucrânia, a Rússia tornou-se cada vez mais dependente da China no plano económico, nomeadamente quanto às suas exportações de energia e importações tecnológicas, o que torna incerto o objectivo de Washington de enfraquecer o alinhamento entre Moscovo e Pequim.

[14] Fonte: fontanka.ru https://www.fontanka.ru/2025/12/07/76159504/

[15] Fonte: Interfax. https://www.interfax.ru/russia/1061842.

[16] NSS 2017. https://trumpwhitehouse.archives.gov/wp-content/uploads/2017/12/NSS-Final-12-18-2017-0905.pdf

[17] NSS 2022. https://bidenwhitehouse.archives.gov/wp-content/uploads/2022/10/Biden-Harris-Administrations-National-Security-Strategy-10.2022.pdf

[18] NDS 2026, p. 10 e 11.

[19] Desenvolverei este aspecto num artigo próximo.

[20] «Por que os BRICS não denunciam o genocídio em curso em Gaza?», Éric Toussaint, CADTM, le 10-08-2025. https://www.cadtm.org/Por-que-os-BRICS-nao-denunciam-o-genocidio-em-curso-em-Gaza

Eric Toussaint
Sobre o/a autor(a)

Éric Toussaint

Politólogo. Presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo