O ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump foi formalmente indiciado na terça-feira com 34 crimes relacionados com o pagamento de três acordos de sigilo durante a sua campanha presidencial de 2016 – dois com ex-parceiras sexuais e um com um porteiro da Trump Tower, conjunto de prédios administrados pela sua empresa.
Incapaz de reunir o caos nas ruas que inicialmente esperava, Trump jogou pelo seguro, não dizendo nada antes da audiência e nada de substância no tribunal. Manifestantes trumpistas e antifascistas, incluindo vários congressistas e outras autoridades eleitas, protagonizaram uma briga do lado de fora do tribunal. Mas a cena foi insípida em comparação com o caos dos distúrbios de 6 de janeiro de 2021.
Enquanto Trump voltava para a Florida após a audiência, o procurador do distrito de Manhattan, Alvin Bragg, apresentou o seu caso ao público numa conferência de imprensa.
Face ao ceticismo de que as alegações realmente equivalessem a crimes, Bragg reafirmou a seriedade das acusações, dizendo que a suposta fraude contabilística de Trump ao relatar incorretamente a natureza dos pagamentos de “suborno” também foi uma tentativa de evitar as leis federais de campanha e a legislação tributária estadual de Nova Iorque.
Os promotores pediram um julgamento para janeiro de 2024, enquanto a equipe de Trump disse que precisaria de pelo menos até ao segundo semestre do próximo ano para se preparar.
Agora instalado em segurança na sua mansão na Florida, estado que até recentemente abrigava o ex-presidente Jair Bolsonaro, Trump respondeu de forma tipicamente arrogante. “Eles não podem derrotar-nos nas urnas, então tentam derrotar-nos através da lei”, disse.
Talvez sentindo que os seus problemas legais só estão a começar, Trump voltou-se para os possíveis casos contra ele na Geórgia e em Washington, insultando pessoalmente os investigadores e exigindo com a sua característica arrogância que esses casos fossem arquivados.
Nenhuma acusação foi formalmente arquivada nesses casos, mas pelo menos na Geórgia, um júri sugeriu publicamente que vários conhecidos muito próximos de Trump, e talvez o próprio ex-presidente, serão indiciados num futuro próximo.
É significativo que no dia em que enfrentou os procuradores em Nova Iorque, Trump já estivesse a virar o seu foco para os outros casos. Os casos que estão a ser investigados pelos procuradores da Geórgia e pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) têm muito mais consequências do que as alegações de Nova Iorque, tanto para Trump quanto para o país como um todo. Todas as três investigações (uma na Geórgia e dois casos inter-relacionados no DOJ) dizem respeito às supostas tentativas de Trump de anular os resultados da eleição de 2020 e permanecer no cargo apesar de perder a votação.
Os casos também envolvem membros da elite republicana. Isto parece ser mais literalmente verdadeiro na Geórgia, onde o representante do grande júri disse ter recomendado acusações contra mais de doze associados de Trump num esquema para falsificar os resultados da eleição presidencial americana.
Também é verdade num sentido mais amplo nas investigações sobre os eventos de 6 de janeiro de 2021.
Embora haja poucos indícios de que estejam a enfrentar uma investigação criminal, muitos republicanos no Congresso atrasaram deliberadamente as formalidades no Capitólio naquele dia, o que certamente parecia uma tentativa de ganhar tempo para os desordeiros interromperem o processo à força.
Em comparação com o caso em Nova Iorque, as acusações nesses casos são muito mais graves e as consequências são muito mais prejudiciais para o movimento conservador mundial como um todo. As provas são também muito mais fortes. Mesmo que não sejam a solução completa, esperemos que as acusações desses casos cheguem.
Quanto a Trump, com a sua campanha presidencial para 2024 a receber surpreendentemente pouca atenção até ao momento, agora sujeita-se à velha maldição de ter o que quis: estar no centro das atenções.
Ben Beckett é um escritor norte-americano radicado em Viena. Artigo publicado originalmente na Jacobin Brasil. Traduzido por Sofia Schurig. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.