Gen Z

Madagáscar: Continuar a luta por uma mudança verdadeira

01 de novembro 2025 - 16:49

Tal como temiam os organizadores da GenZ, que, através da sua mobilização, derrubaram o poder de Rajoelina, os caciques do país estão a tentar manter o antigo sistema no poder.

por

Paul Martial

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Coronel Michaël Randrianirina na sua tomada de posse como presidente de Madagáscar.
Coronel Michaël Randrianirina na sua tomada de posse como presidente de Madagáscar. Foto de HENITSOA RAFALIA/EPA.

Houve uma rápida marcha atrás por parte de Michaël Randrianirina, o coronel que assumiu o poder após manifestações massivas da população, especialmente da juventude, a Geração Z. Ele anunciara a dissolução das principais instituições do regime, com exceção da Assembleia Nacional.

Um dia depois, Randrianirina retratou-se dessa declaração, em primeiro lugar porque o Supremo Tribunal Constitucional, que deveria ter sido dissolvido, tendo constatado o vazio de poder, entregou oficialmente as rédeas do país ao coronel, mas sobretudo porque essa tomada de poder tinha de respeitar a lei tanto quanto possível.

A hipocrisia da União Africana

O desafio é grande para as novas autoridades. Negam qualquer tentativa de golpe para evitar sanções financeiras, que seriam um rude golpe para o país. A União Africana (UA) já suspendeu a participação de Madagáscar.

Esta União Africana, cujos líderes foram maioritariamente eleitos através de eleições fraudulentas, subscreve todas as manipulações constitucionais que permitem aos déspotas do continente perpetuar o seu poder.

Como se observa num apelo de intelectuais e artistas de Madagáscar: “Que ironia: quando as instituições são corruptas, a sua preservação perpetua a injustiça. Esta diplomacia do status quo – que prioriza a estabilidade superficial em detrimento da justiça genuína – alimenta a cólera de uma geração.”

O perigo reside no facto de as instituições financeiras internacionais se alinharem com a posição da UA e suspenderem a ajuda económica que prestavam, sem supervisão, ao antigo ditador Rajoelina. Por exemplo, quase mil milhões de dólares foram alocados à construção de 260 km de auto-estrada, no meio de acusações de corrupção, quando tal montante poderia ter sido utilizado para renovar toda a rede ferroviária.

Tentativa de controlo

O Coronel Michaël Randrianirina prometera consultar a GenZ sobre a nomeação de um Primeiro-Ministro. Isso não aconteceu. Herintsalama Rajaonarivelo foi escolhido em total opacidade. Banqueiro e empresário, Rajaonarivelo é uma figura proeminente do antigo regime. Durante uma década, chefiou a associação patronal malgaxe. É acusado principalmente de ser próximo de Maminiaina Ravatomanga, que saqueou sistematicamente Madagáscar. Tendo-se refugiado nas Maurícias, foi emitido um mandado de detenção internacional contra ele.

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Michel Strulovici e Esquerda.net

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Muitos notaram a ausência de jovens da Geração Z nas tomadas de posse do coronel como presidente e de Rajaonarivelo como primeiro-ministro. Em vez disso, estiveram presentes políticos que, em algum momento, detiveram o poder e levaram o país à ruína. De facto, o balanço é inegável: segundo o Banco Mundial, o PIB per capita era de 812 dólares em 1960, mas caiu a pique para 456 dólares em 2024.

Um projeto de rutura

Esta nomeação está, portanto, muito longe das exigências da Geração Z, que, no seu documento “Roteiro para uma Transição Soberana e Popular”, insiste na necessidade de uma rutura com o passado, e não apenas de uma mudança de pessoal.

A ideia por detrás deste texto é aprofundar a revolução com uma transição curta para o “estabelecimento das bases de um novo sistema político baseado na participação direta do povo malgaxe, na equidade territorial e no controlo coletivo dos recursos”. Este processo seria acompanhado, nomeadamente, pela fiscalização e revogabilidade de representantes e pela criação de “comités populares locais”.

Ao mesmo tempo, a GenZ recuperou a sua plena autonomia em relação a outras organizações da sociedade civil, o que lhe confere uma maior margem de manobra, essencial para continuar a luta contra as pressões dos líderes africanos corruptos da UA – que acabam de perder um dos seus – e contra o pessoal político malgaxe ao serviço de oligarcas predadores.


Publicado originalmente no L’Anticapitaliste.