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Iémen, cada vez pior...

Estava confusa a situação no Yemen? Sim, é verdade, mas ficou um pouco pior. O “xadrez” da guerra ganhou novos contornos com a desavença entre parceiros da coligação que combate os Houthi. Artigo de José Manuel Rosendo publicado no blogue meu Mundo minha Aldeia.
Manifestação de apoio ao Movimento Separatista do Sul. A bandeira em primeiro plano é a dos separatistas, a mesma da República Democrática Popular do Iémen (1967-1990). Créditos da fotografia: en.adenpress.news.

Há muito se falava dos diferentes interesses dos dois principais parceiros de coligação, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU), mas agora esse antagonismo ficou evidente quando o Movimento Separatista do Sul avançou para o controlo da cidade de Aden, onde está o Governo do Presidente Hadi, reconhecido internacionalmente. Separatistas (com o apoio dos EAU) e tropas governamentais envolveram-se em violentos combates e os separatistas conseguiram o controlo da cidade. A Arábia Saudita reafirmou apoio ao Governo do Presidente Hadi.

Não se sabe como vai terminar esta guerra dentro da guerra, mas o Movimento Separatista pretende regressar à fórmula Iémen do Norte/Iémen do Sul – e até já tem o Conselho de Transição do Sul – algo que os Emirados parecem aceitar e que a Arábia Saudita já disse que recusa. O apoio dos EAU aos separatistas foi ao ponto de lançarem ataques aéreos contra as forças governamentais quando estas tentaram reconquistar a cidade às forças do Movimento Separatista. A confusão é de tal ordem que as agências de notícias dão conta de manifestações de apoio aos separatistas, em Aden, com as pessoas a exibirem bandeiras do Movimento Separatista, dos EAU, mas também da Arábia Saudita, principal apoiante do Governo que os separatistas agora combatem.
 
O Governo do Presidente Hadi recusa dialogar com os separatistas acusando-os de serem apenas um instrumento dos EUA que, por sua vez, pretendem dividir o Iémen. Apesar das acusações, o Governo diz que só aceita negociar com os EAU. Desde Junho que os EAU reduziram a presença militar no Iémen, mas a influência mantém-se através dos milhares de combatentes do Movimento Separatista, armados e treinados pelos EAU.
 
Os Estados Unidos anunciaram pela primeira vez que estão envolvidos em negociações com os Houthi. Não se sabe como nem onde, mas fontes ligadas ao processo e citadas pelo Wall Street Journal disseram que pode ser no Sultanato de Omã. Não seria a primeira vez que Omã serve de mediador já que Barack Obama também recorreu ao Sultanato quando iniciou as conversações que terminaram no Acordo Nuclear com o Irão, assinado em 2015.
 
Por agora, Arábia Saudita e EAU dizem que a coligação está unida e permanece forte no objectivo de combater os Houthi. Certo é que Sanaa foi tomada pelos Houthi em 2014 e desde então a coligação poucos ganhos tem conseguido, sendo que os Houthi mantêm a Arábia Saudita na linha de fogo com ataques frequentes a território saudita.
 
Os peritos da ONU referiram-se recentemente a um grande número de crimes de guerra cometidos no Iémen e para resumirem a questão acrescentaram que nesta guerra ninguém tem as mãos limpas. A lista de nomes que podem vir a ser acusados – no caso de haver um tribunal para a guerra no Iémen – é extensa, mas permanece confidencial. A lista de crimes é igualmente extensa: de ataques indiscriminados contra populações civis, à utilização da fome como arma de guerra, passando por tortura e violações. O relatório vai ser conhecido na totalidade quando for apresentado, esta terça-feira, 10 de Setembro, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.
 
O mesmo grupo de peritos alerta a comunidade internacional para se abster de fornecer armas que possam ser utilizadas na guerra no Iémen e adverte para a eventual ilegalidade das vendas de armamento feitas pela França, Reino Unido, Estados Unidos e outros Estados. Os peritos dizem que a legalidade da venda de armas é discutível e os Estados podem vir a ser responsabilizados por violação do Direito Internacional se a cumplicidade ficar provada.
 
O Iémen continua a precisar de grande ajuda externa e o Plano de Resposta Humanitária 2019 requer cerca de 3 mil e 800 milhões de euros para prestar assistência a mais de 20 milhões de pessoas, mas o financiamento conseguido ainda não chega aos 40%.
 
Pinhal Novo, 9 de Setembro de 2019
Artigo de José Manuel Rosendo publicado no blogue meu Mundo minha Aldeia.
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