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De onde vem esta esquerda radical?

O Partido Socialista (SP) teve origem numa formação que nos anos 70 rompeu com o maoísmo, o Partido Comunista dos Países Baixos. Chegou ao parlamento já nos anos 80 e teve uma ascensão eleitoral constante até às eleições de 2010. Conta com cerca de 47 mil militantes em todo o país e uma rede de ativistas locais que são a base da sua intervenção.
Foto José Nuno Pereira

Um dos seus princípios foi justamente o de apenas se apresentar a eleições locais depois de desenvolver campanhas setoriais nessas localidades e intervir militantemente junto das populações. Os seus eleitos assumem o compromisso de manter o salário que tinham e entregar o resto às finanças do partido.

De um perfil claramente assumido de partido de protesto, apropriadamente ilustrado pelo seu símbolo - um tomate - o SP entrou no novo século com um discurso mais propositivo e assumiu tarefas de gestão tanto ao nível municipal como provincial. No referendo de 2005 foi o único partido a assumir uma posição contrária ao Tratado Constitucional Europeu, uma posição que veio a dar frutos no ano seguinte: ficou em terceiro lugar nas legislativas com 16,6% dos votos e chegou a ter conversações com os trabalhistas e os democratas-cristãos para formarem uma coligação de governo. Apesar do eleitorado ter virado à esquerda nessa eleição, os maiores partidos não aceitaram a integração do SP.

Nos últimos anos, o SP tem vindo a ser oposição às políticas de austeridade do governo liberal e às orientações neoliberais na saúde e nas leis do trabalho. Embora não defenda a saída nem a dissolução do euro, as críticas do SP são muitas vezes dirigidas ao poder instalado a poucos quilómetros da Holanda, nos gabinetes da Comissão Europeia em Bruxelas. Num país onde o discurso xenófobo encontra grande recetividade, o SP tem defendido a extensão das leis laborais aos imigrantes e multas para as empresas incumpridoras, bem como a reintrodução temporária dos vistos de trabalho europeus para os imigrantes dos países de Leste.

Emile Roemer é o líder do SP e está na política há 30 anos como eleito municipal e deputado. Dava aulas no liceu e tem alcançado grande popularidade, sendo visto por boa parte do eleitorado como um homem honesto, sincero e sem ambições pessoais. Se as boas sondagens se confirmarem nas urnas, terá pela frente o desafio de conseguir força suficiente para formar governo, tornando impossível a repetição do isolamento de que foi alvo em 2006. Seria a primeira vez em 40 anos que esta área política obteria representação governamental na Holanda.

Caso esse cenário se venha a confirmar, a esquerda europeia voltará a olhar para a Holanda com atenção redobrada e verificar como é que um partido da esquerda radical conseguirá manter as suas propostas fundamentais partilhando um governo com os sociais-democratas herdeiros da Terceira Via de Tony Blair que nos anos 90 governaram o país ao lado dos liberais.

 


Fonte: "El ascenso ininterrumpido del Partido Socialista radical holandés: ¿una nueva vía socialista en el Primer Mundo o mero parlamentarismo ingenuo de izquierdas?", de Will Wroth, publicado em Sin Permiso.

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