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Crítica: Jenny e Mary

O filme “O jovem Karl Marx” humaniza Marx e Engels e abre o plano para mostrar outras duas pessoas com um papel fundamental: Jenny von Westphalen e Mary Burns. Crítica de Lourdes Goméz e Carlos Sánchez Mato. Tradução de Ana Bárbara Pedrosa
O Jovem Karl Marx, filme dirigido por Raoul Peck

O filme “O jovem Karl Marx” humaniza Marx e Engels e mostra outras duas pessoas com um papel fundamental: Jenny von Westphalen e Mary Burns.

Às vezes, o cinema serve para se aproximar da história conhecida a partir de uma perspetiva desconhecida, para recuperar aspetos esquecidos e reconhecer que também são fundamentais. É o que acontece com o filme “O jovem Karl Marx”, que humaniza as duas personagens-chave do pensamento da humanidade, Marx e Engels, e mostra outras duas pessoas com um papel fundamental: Jenny von Westphalen e Mary Burns.

O filme recorre ao vínculo fraterno que se vai criando entre Karl e Friedrich e ajuda a recordar que não estavam sós, que não se converteram em revolucionários graças à sua origem social, mas, precisamente, apesar das suas raízes. Muito dificilmente o teriam conseguido sem Jenny e Mary.

Como filho e representante de um abastado proprietário de fábricas têxteis em Manchester, Engels pôde observar a exploração de trabalhadores e trabalhadoras. Mas não teria conseguido entendê-lo nem fazer evoluir o seu pensamento sem Mary Burns, operária irlandesa que lhe mostrou essa realidade de injustiça estrutural, miséria e também de dignidade. Mary foi muito mais do que uma companheira para Engels.

Jenny von Westphalen abandonou a existência cómoda da aristocracia prussiana para partilhar com Marx uma vida cheia de renúncias materiais, dificuldades e exílio. Não foi apenas uma mulher à sombra de um grande homem, tinha ideias próprias e não lhe faltava coragem. Era a primeira interlocutora de Marx, foi a principal responsável pelas suas publicações, trocava cartas de conteúdo altamente político com outros revolucionários e foi autora de críticas teatrais.

Jenny von Westphalen e Mary Burns não se caracterizavam apenas por colaborar em segundo plano no trabalho dos seus pares, demonstraram tanta ou mais valentia do que eles nas decisões relacionadas com as próprias vidas.

Os processos históricos também são atribuíveis a quem ajuda a sustentá-los. No entanto, o papel feminino de cuidadora é um segundo plano invisível em que se situam não apenas os trabalhos domésticos e do mantimento dos filhos, mas também o apoio dos êxitos, das metas e das conquistas profissionais atribuídos aos homens.

É parte da cola social que tem assegurado a construção de sujeitos generizados, mulheres e homens, necessários para cobrir todos os papéis de que o modelo capitalista organizado pelo Estado precisa.

Oculta-se uma mais que duvidosa autenticidade de um acordo de cuidados entre homens e mulheres, trespassado pela desigualdade e pela coerção social. Ou seja, naturalizam-se as injustiças de género condenadas à invisibilidade, o que faz com que estas sejam estrategicamente eliminadas do debate político.

É um debate que deve ser mantido vivo e presente também por quem defende o fim do modelo capitalista e a heteronormatividade que lhe é inerente. Porque também caímos na armadilha da ausência histórica das mulheres, porque devemos submeter-nos a uma revisão constante para não cair nela. Porque a luta de classes carece de sentido se não for acompanhada das reivindicações feministas. E porque nem podemos esquecer que Marx e Engels, filhos do seu tempo, tiveram o seu papel na invisibilização das suas companheiras e na distribuição desigual de papéis na vida e não apenas no filme.

Apesar das incoerências humanas das personagens, nunca foi mais necessário do que agora reivindicá-las. Porque se supõe que a crise que atualmente precariza cada vez mais a população não tinha de ter acontecido. Se atentássemos aos economistas de cartilha do sistema capitalista, o mercado, e apenas ele, seria capaz de resolver todos os problemas e todas as previsões que Marx e Engels fizeram, para as quais colaboraram Burns e Westphalen, teriam sido relegadas para um canto pouco visível da história. Mas o tempo deu razão a quem, há 150 anos, denunciou a proletarização e a precarização crescentes, caracterizadas por uma miséria brutal ao lado de uma concentração de riqueza em cada vez menos mãos.

Essa luta invisível de milhares de mulheres ao longo da história apresenta-nos uma redefinição do conceito de igualdade, convertido num significante vazio sujeito a múltiplas interpretações entre uma versão neoliberal que conta com as mulheres como trabalhadoras indispensáveis para a rentabilidade dos mercados e outra que precisa de um feminismo socialista, ecologista e descolonial.

Nesta nova redefinição, de onde não podemos partir exclusivamente de uma crítica ao modelo capitalista para poder explicar as relações de poder e o conceito de igualdade em disputa, há uma série de marcos binários e antitéticos que geram toda uma multiplicidade de hierarquias globais culturais, linguísticas e epistémicas que se articulam à volta do mercado capitalista, da ideia de raça e de sexo-género com o único fim de poderem ser controladas.

Não acreditar firmemente que a humanidade tem capacidade de desenvolver uma alternativa viável à degeneração de um sistema que só assenta na exploração da maioria social, é simplesmente um erro grave. Há alternativa, e esta passa por pôr a produção ao serviço das necessidades da maioria e não para benefício da minoria. Chama-se socialismo e sem mulheres como Jenny, Mary, entre infinitas outras, não podemos construí-lo.

*Lourdes Gómez é porta-voz da IU Madrid Ciudad
Carlos Sánchez Mato é vereador de Ahora Madrid e responsável pelas políticas económicas da IU

Texto publicado em El Salto

Traduzido por Ana Bárbara Pedrosa

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