A 10 e 11 de novembro de 2012 realizou-se a VIII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, que aprovou, pela primeira vez, uma coordenação paritária. Nesta segunda-feira, 11 de novembro de 2013, passa um ano sobre a eleição de João Semedo e Catarina Martins para coordenadores do Bloco de Esquerda. Em entrevista feita pela agência Lusa, e divulgada neste domingo, Semedo e Catarina reafirmam a prioridade de derrubar o Governo e dizem que a responsabilidade que assumiram há um ano lhes trouxe uma vida mais agitada mas também mais satisfatória.
"É claro que com este Governo não haverá nenhuma inversão na política em Portugal. Temos tido um arrasar na economia portuguesa", diz Catarina Martins, referindo-se à política de austeridade seguida pelo Governo, ao aumento do desemprego e ao afundamento da economia.
Sobre a política do PS, João Semedo diz: "O PS protesta, protesta, faz oposição, mas não tem um contributo concreto para uma política alternativa, uma mudança para a esquerda. Nós temos esse programa, esse projeto, essa proposta, será isso que faremos quando houver eleições".
Semedo destaca o que pode ser tido como o maior "êxito político" do Bloco: "Tudo o que é bom senso aponta para a renegociação da dívida. Há dois anos e meio, quando o Bloco levantava esse problema (…) isso era considerado uma heresia. Hoje, a esmagadora maioria das vozes que se pronuncia sobre a dívida diz exatamente o mesmo".
Sobre o Tribunal Constitucional (TC), João Semedo afirma: "O TC serve não para interpretar o contexto social ou económico do país ou da Europa, é para verificar se as leis respeitam ou não respeitam a Constituição. Tudo o resto é uma fantasia que a direita tem criado em torno do que deveria ser o TC".
Catarina Martins sublinha que Passos Coelho dá o "maior e melhor argumento" para uma fiscalização preventiva do Orçamento do Estado (OE) para 2014 "quando diz que percebe que há um risco grande do seu Orçamento ser considerado inconstitucional" e critica Cavaco Silva:
"Aquilo que se esperava de um Presidente da República que em vez de ser o garante do Governo da direita fosse sim o garante das instituições e da Constituição, aquilo para que foi eleito, é que, por um lado, tivesse sido mais ativo até agora na fiscalização da Constituição, e por outro já tivesse demitido um Governo que parece incapaz de perceber que Portugal é um Estado de direito democrático".
Semedo e Catarina fazem um balanço positivo da liderança paritária e falam também sobre a repercussão nas suas vidas da função assumida há um ano.
"Trouxe uma vida mais exigente, mais agitada, mais preenchida, mais responsável, mas também mais satisfatória", diz João Semedo.
Catarina Martins destaca, a título mais pessoal, o "privilégio de conhecer organizações em todo o país que têm um trabalho extraordinário, pessoas que fazem todos os dias impossíveis" e que relativizam o trabalho e o "quotidiano".
Lembrando que a escolha de uma coordenação paritária suscitou dúvidas, sobre eventuais "posições divergentes" entre os dois coordenadores ou uma "menorização de um dos coordenadores", Catarina Martins destaca que esses cenários não se colocaram.
Sobre a derrota do Bloco nas eleições autárquicas, João Semedo afirma:
"A política vai-se fazendo de alegrias e tristezas, umas maiores, umas menores. O Bloco não teve bons resultados mas isso já passou. O Bloco nunca teve grandes resultados autárquicos, como é conhecido. A força, influência e o papel do Bloco não se pode reduzir à nossa expressão autárquica. Mas é evidente que gostaríamos de ter tido melhores resultados que aqueles que tivemos. Aqueles resultados não facilitam a nossa vida, mas isso já passou".
Sobre as próximas eleições para o Parlamento Europeu, os coordenadores assinalam que o Bloco está a dar os “primeiros passos” na sua preparação, sublinhando que o programa do partido será "significativamente diferente do de há cinco anos", porque muito mudou na Europa.
Os coordenadores salientam que o trabalho das "duas excelentes eurodeputadas", Marisa Matias e Alda Sousa, é um "património político muito importante" para o Bloco.
Relacionando as profissões dos coordenadores com o papel que assumem, desde há um ano, João Semedo, que é médico, diz que a "doença do país chama-se austeridade e chama-se Governo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas", frisando: "É esse o meu diagnóstico. E claro que tem cura, basta mudar de política".
Catarina Martins, atriz, encenadora e dramaturga, diz que leva o teatro, "a arte da verdade", muito a sério e destaca:
"Ministros e secretários de Estado que faltam à verdade no país não têm nada a ver com o teatro. A arte é algo de muito autêntico naquilo que é capaz de dizer sobre o que somos, sobre o que queremos fazer. Não tem nada a ver com dissimulação".
A entrevista da Lusa foi conduzida por Pedro Primo Figueiredo, com imagem vídeo de Pedro Martins e fotos de Manuel de Almeida.