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Como Joe Strummer inspirou políticas progressistas nos seus fãs

O vocalista dos The Clash morreu faz 20 anos esta quinta-feira. As suas letras políticas, abordagem internacional e procura de conhecimento inspiraram gerações de militantes. Por Gregor Gall.
Joe Strummer e os the Clash num concerto no Tower Theater em Upper Darby, Pensilvânia, 1980. Foto de John Coffey/Flickr.
Joe Strummer e os the Clash num concerto no Tower Theater em Upper Darby, Pensilvânia, 1980. Foto de John Coffey/Flickr.

Joe Strummer, vocalista e letrista da seminal banda punk The Clash morreu há vinte anos. O filho de um funcionário público de topo britânico e cujo nome real era John Graham Mellor escreveu canções que não fugiam da política da era Thatcher ou das situações que afetavam as sociedades de todo o mundo.

Os The Clash gravaram seis álbuns de estúdio nos quais constavam 16 canções que chegaram ao top 40, incluindo Rock the Casbah e I Fought the Law. Depois da sua morte, o Guardian notou que Strummer era uma “inspiração política para uma geração” e “a consciência política do punk”. Falei com mais de cem pessoas de idades, géneros, países e continentes diferentes para o meu livro: The punk rock politics of Joe Strummer: Radicalism, resistance and rebellion, descobri que a sua música teve um impacto profundo na política de muitos, levando alguns a um ativismo de esquerda. Entre eles estão muitos atuais dirigentes sindicais britânicos, incluindo Matt Wrack do sindicato dos Bombeiros que disse: “os bombeiros estão imensamente orgulhosos das nossas ligações ao Joe Strummer e ao que ele defendia politicamente e como músico.”

De acordo com muitos daqueles com quem falei, as letras das músicas dos The Clash forneceram-lhes uma educação inicial eficaz mas não convencional sobre temas britânicos e de outros lados do mundo como o desemprego e o alojamento precário bem como de várias causas ao nível global, como a luta do movimento Sandinista na Nicarágua nos anos 1980.

Letras Políticas

Duas canções de Strummer realçam particularmente o que disse. A primeira é Spanish Bombs do seu terceiro álbum, London Calling (1979), que era em primeiro lugar sobre a Guerra Civil Espanhola de 1936-1939. Strummer canta:

The freedom fighters died upon the hill
They sang the red flag
They wore the black one…
The hillsides ring with “Free the people”

[Os combatentes da liberdade morreram na colina

Eles cantaram a bandeira vermelha

Eles usaram a preta…

As encostas ressoam com “Libertem o povo”.]

Enquanto canção sobre a luta do governo republicano eleito democraticamente contra o golpe militar fascista de Francisco Franco, conta como socialistas, comunistas, republicanos e anarquistas lutaram juntos pela liberdade e igualdade. Spanish Bombs levou muitas das pessoas que partilharam testemunhos comigo a ler livros como a Homenagem à Catalunha, de George Orwell.

A canção também fornecia um exemplo histórico de resistência ativa ao fascismo na altura em que o nacionalismo extremista de direita estava em ascensão na Grã-Bretanha dos finais dos anos 1970. O partido político marginal Frente Nacional apresentava uma plataforma anti-imigração extremista na década de 1970, usando slogans e panfletos racistas para atrair membros. Isto, por sua vez, foi recebido com uma reação cada vez mais interventiva de músicos como Strummer e o movimento Rock Against Racism.

Uma abordagem internacional

O quarto álbum da banda, Sandinista!, lançado em 1980, abraçou a causa dos rebeldes sandinistas contra o regime de Somoza na Nicarágua e atacava as tentativas dos EUA de minar a revolução. A família Somoza chefiava uma ditadura assassina e repressiva desde os anos 1930, apoiada pelos EUA e que caiu em 1979 como resultado da rebelião armada liderada pelos Sandinistas.

A canção de Strummer Washington Bullets continha referências aos efeitos anti-democráticos do imperialismo americano na América Central e do Sul, desde a revolução cubana de 1959 até à dos sandinistas nicaraguenses dos anos 1980, com uma menção à abortada invasão americana a Cuba da Baía dos Porcos em 1961 e ao assassinato do chileno Salvador Allende às mãos da ditadura militar em 1973. Nela, canta:

As every cell in Chile will tell
The cries of the tortured men
Remember Allende

[Como cada cela no Chile contará

Os gritos dos homens torturados

Lembremo-nos de Allende]

A canção detalha então o que aconteceu quando os EUA retiraram o seu apoio ao regime de Somoza:

When they had a revolution in Nicaragua
There was no interference from America
The people fought the leader
And up he flew
Without any Washington bullets, what else could he do?

[Quando houve uma revolução na Nicarágua

Não houve interferência da América

O povo lutou contra o líder

E ele fugiu

Sem as balas de Washington, o que mais poderia fazer?]

Strummer explica que apesar da repressão, a resistência é possível – e pode ser bem sucedida. A sua ira na canção não é apenas dirigida contra o imperialismo de Washington mas também contra o britânico, o chinês e o russo. Ela não apenas fez com que algumas das pessoas com que falei se juntassem ao Comité de Solidariedade com a Nicarágua mas também houve quem fosse trabalhar como voluntário na Nicarágua em apoio à revolução Sandinista.

Busca de conhecimento

Muitos daqueles com quem falei, disseram que antes da era da Internet, foram às bibliotecas públicas para descobrir mais acerca destes temas. A partir daí começaram a formar visões do mundo radicais e começaram a aderir a campanhas como o movimento anti-apartheid e a Campanha pelo Desarmamento Nuclear. Muitos também se juntaram a sindicatos e partidos políticos de esquerda como os trabalhistas. E, como o seu interesse tinha despertado, começaram a ler amplamente.

Strummer foi capaz de chegar às pessoas através da sua música. As suas canções não só faziam as pessoas dançar mas através das suas mensagens radicais eram capazes de inspirar os seus fãs para ação. Quer tenha sido sobre o fascismo, o imperialismo, a destruição ambiental (London Calling), a luta contra o racismo (Working for the Clampdown) o Thatcherismo (This is England), ele fazia as pessoas mexerem-se.

Strummer era poucas vezes explícito sobre o que os seus ouvintes deveriam fazer depois – as suas canções tinham tendência para serem mais informativas e inspiracionais do que instrutivas. Contudo, ele sempre foi claro na afirmação de que o ativismo era positivo e necessário para trazer mudanças. O primeiro single dos The Clash em 1977, White Riot, encorajava os jovens brancos descontentes a lutar contra a corrupção política e a brutalidade policial como os seus irmãos negros tinham feito. Em Working for the Clampdown do álbum de 1979 London Calling, lançou um apelo às armas:

Kick over the wall, cause governments to fall.
How can you refuse it?
Let fury have the hour, anger can be power.
Do you know that you can use it

[Pontapeia o muro, faz os governos caírem.

Como podes recusá-lo?

Deixa a fúria ter o seu momento, a raiva pode ser poder.

Sabe que a podes usar]


Gregor Gall é investigador na Escola de Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Glasgow.

Texto publicado originalmente no The Conversation. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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