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Cervejaria Galiza encerrou, mas o seu exemplo "perdurará na memória"

Administrador de insolvência e trabalhadores consideraram não haver condições para manter aberto o restaurante. Ao esquerda.net, o deputado José Soeiro envia “uma palavra” aos trabalhadores, destacando o “exemplo que perdurará na memória de todos quantos lutam contra o abuso patronal”.
Trabalhadores receberam esta segunda-feira a carta para pedirem o subsídio de desemprego - foto esquerda.net
Trabalhadores receberam esta segunda-feira a carta para pedirem o subsídio de desemprego - foto esquerda.net

"Exemplo que perdurará na memória"

“Uma palavra sobretudo para estes 28 trabalhadores que aguentaram a Galiza ao longo dos últimos meses. Devemos-lhes a coragem, a audácia, o seu gesto inspirador, o exemplo que perdurará na memória de todos quantos lutam contra o abuso patronal e de todos quantos sabem que são os trabalhadores quem sempre fez da Galiza o que ela era”, afirma o deputado José Soeiro, em declaração ao esquerda.net.

Esta segunda-feira, o administrador de insolvência reuniu com os trabalhadores e, na sequência, foi decidido que não há condições para manter o restaurante aberto.

Segundo a Lusa, o Tribunal de Comércio de Vila Nova de Gaia declarou a 4 de julho a insolvência da Sociedade Atividades Hoteleiras Galiza Portuense, proprietária da Cervejaria Galiza, na sequência do requerimento apresentado pela Sociedade Real Sabor, de Vila Nova de Gaia, que reclama 11.951 euros, havendo 30 dias para a reclamação de créditos.

O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Norte lamenta a decisão e requereu uma reunião ao ministério do Trabalho, com a presença do administrador de insolvência.

Sindicato quer reunião com ministério do Trabalho

Em comunicado citado pela Lusa, “a direção do sindicato lamenta o encerramento da Galiza, pois o restaurante é viável, mesmo em tempos de pandemia aguentou-se e os salários foram sempre pagos”. O sindicato lembra ainda que "os trabalhadores impuseram a sua reabertura dia 11 de novembro de 2019, mantiveram o estabelecimento aberto estes oito meses, receberam os salários e outras retribuições em atraso num total de 10 meses".

A cervejaria tem dívidas ao fisco e à Segurança Social, num montante que ronda os dois milhões de euros e estão ainda em atraso o subsídio de natal de 2018 e a segunda parte do salário desse mês aos cerca de 30 trabalhadores.

Em declarações ao Expresso, António Ferreira, que encabeçava o serviço de restaurante e teve um papel de destaque na luta, afirma: “As faturas começavam a chegar, tem de se pagar o IVA, tem de se pagar a Segurança Social, e não estávamos a conseguir pagar tudo”.

António Ferreira tem uma “réstia de esperança” que na assembleia de credores, possam surgir interessados, que integrem os trabalhadores, que esta segunda-feira receberam a carta para o subsídio de desemprego.

“Mas são 33 anos a trabalhar aqui. É sempre duro”, frisa a concluir.

Mostraram como gerir uma empresa sem patrões”

Ao esquerda.net, o deputado José Soeiro salienta que os trabalhadores da cervejaria Galiza, durante sete meses, “tomaram a vida nas suas mãos, defenderam os seus postos de trabalho, mostraram como gerir uma empresa sem patrões, com os salários pagos e o dinheiro distribuído entre eles, deram uma enorme lição à cidade e ao país, desencadearam uma onda de solidariedade que foi de uma força comovente”.

O deputado recorda que “com uma dívida de milhões deixada pelo anterior gestor, os trabalhadores foram confrontados com um garrote insuportável, sem possibilidade de investirem na manutenção dos equipamentos, a que se somou a imensa dificuldade do período da pandemia e da emergência, que lhes levou quase todos os clientes, mesmo que tenham sempre mantido a atividade, passando para o take-away”.

“Por causa dessa dívida que não era sua responsabilidade, não puderam aceder aos apoios públicos disponíveis em tempo de pandemia: empresas que tenham dívidas ao fisco ou à segurança social não puderam candidatar-se, por exemplo, ao lay-off”, recorda ainda José Soeiro.

“Haverá ainda, a 4 de agosto, uma assembleia de credores. O Estado pode ainda, também, empenhar-se numa solução e tem a obrigação de fazê-lo”, refere ainda o deputado bloquista.

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