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Angola: ativistas convocam nova manifestação para 11 de novembro

Os promotores da manifestação de sábado denunciam a repressão do protesto e criticam o Presidente da República por falta de diálogo com a sociedade. Duas pessoas foram baleadas mortalmente, dizem os ativistas. Um grupo de jovens adolescentes continuam presas.
Brigada de cães e Polícia de Intervenção afastam manifestantes junto ao Tribunal, no julgamento das 103 pessoas detidas na manifestação de 24 de outubro, 26 de outubro de 2020 – Foto de Ampe Rogério/Lusa
Brigada de cães e Polícia de Intervenção afastam manifestantes junto ao Tribunal, no julgamento das 103 pessoas detidas na manifestação de 24 de outubro, 26 de outubro de 2020 – Foto de Ampe Rogério/Lusa

Os organizadores da manifestação do passado sábado, 24 de outubro, que foi brutalmente reprimida pela polícia, deram uma conferência de imprensa esta quarta-feira, na qual convocaram uma manifestação para dia 11 de novembro, Dia da Independência de Angola.

Segundo a Lusa, Dito Dalí, que foi um dos agredidos no sábado, anunciou a convocatória da manifestação e exigiu o afastamento do diretor do gabinete do Presidente da República, Edeltrudes Costa.

Um Presidente que não está aberto para o diálogo com a sociedade"

"Anunciámos naquele dia que, doravante, faremos das ruas os nossos escritórios, para manifestar o nosso descontentamento e exigir do Presidente um esclarecimento sobre a calendarização das eleições autárquicas, o afastamento do Edeltrudes, do presidente da Comissão Nacional Eleitoral e exigir do Presidente que crie condições para resolver os problemas dos cidadãos", referiu Dito Dalí, que destacou que a situação social e económica de Angola se agrava e afirmou que as reclamações devem ser apresentadas ao governo, que tem a missão de "atender os problemas de que enferma a sociedade".

"Temos um executivo que se fecha, um Presidente totalmente arrogante, que não está aberto para o diálogo com a sociedade", disse o ativista e criticou:

"O Presidente tem que conversar com aquelas pessoas que têm estado a reivindicar ao longo dos últimos anos, é com essas pessoas que têm que se sentar. O Conselho Nacional da Juventude [recebido por João Lourenço] não representa a maioria dos angolanos, o Conselho Nacional da Juventude representa os interesses do partido".

Cartaz convocando a manifestação de 11 de novembro de 2020, em Luanda
Cartaz convocando a manifestação de 11 de novembro de 2020, em Luanda - retirado de página no facebook

No cartaz que convoca o protesto de dia 11 de novembro, refere-se que a manifestação, “nacional e internacional”, é “Pela cidadania, pelo fim do elevado custo de vida e por autárquicas em 2021, sem rodeios”, estando convocada concentração para as 11h e partida às 13h, mas não é indicado local.

Dito Dalí disse também que na próxima iniciativa vão ser convidados os partidos políticos da oposição e também o MPLA.

"Afinal, a luta é pela cidadania, que não escolhe cor partidária. Significa que todos nós enfrentamos os mesmos problemas, passamos fome, não temos água nas nossas casas, falta eletricidade, faltam transportes públicos, em suma, a vida dos angolanos está dura e esses problemas estendem-se aos partidos políticos, aos seus primos, filhos, irmãos, mãe. Daí entendermos que a presença de todos os partidos da oposição faz sentido", sublinhou Dito Dalí, que criticou João Lourenço.

"O Presidente começou tão bem aquando da sua investidura, quem não ficou emocionado com os discursos do Presidente? Sentíamo-nos incluídos, numa Angola nova, que se pretendia. Infelizmente, fomos seduzidos por discursos bonitos, para sermos dececionados dessa forma, uma deceção total", frisou.

Na manifestação de 24 de outubro houve duas mortes

Os organizadores da manifestação de sábado passado disseram também que duas pessoas morreram e há cerca de 387 com paradeiro incerto.

Segundo um relatório dos promotores da manifestação, “dois cidadãos, identificados pelos nomes «Mamã África», e Marcelina Joaquim foram baleados mortalmente”. O relatório está disponível na página do facebook “Central Angola 7311”, aqui: https://www.facebook.com/centralangola7311/posts/3464868290242830

Conferência de imprensa dos organizadores da manifestação reprimida pela polícia angolana no sábado passado, em Luanda. Ao centro, José Gomes Hata e à direita Dito Dalí, 28 de outubro de 2020 – Foto de Ampe Rogério/Lusa

Conferência de imprensa dos organizadores da manifestação reprimida pela polícia angolana no sábado passado, em Luanda. Ao centro, José Gomes Hata e à direita Dito Dalí, 28 de outubro de 2020 – Foto de Ampe Rogério/Lusa

José Gomes Hata, um dos promotores, disse à comunicação social que “mais de 50 cidadãos foram brutalmente agredidos e feridos” e contou que “um dia após a manifestação, os organizadores percorreram as principais esquadras policiais de Luanda para localizar os cidadãos que se encontram desaparecidos e apenas localizaram 41 detidos na Direção Provincial de Investigação Criminal, 45 na 9ª esquadra do distrito urbano do Sambizanga e 18 na esquadra do bairro Uíge, no distrito urbano do Ngola Kiluanje, perfazendo um total de 103 cidadãos, número confirmado pelas autoridades”.

Os ativistas consideraram ilegal e arbitrária a detenção de 103 manifestantes, assim como a detenção de jornalistas e exigem “não só a libertação imediata e incondicional de todos os cidadãos que se encontram detidos, como também imputa a responsabilidade ao Presidente João Lourenço, sobre o paradeiro dos cidadãos angolanos desaparecidos”.

Proibida a concentração de manifestantes junto ao tribunal

Entretanto, a polícia angolana proibiu esta quarta-feira, 28 de outubro, a presença de manifestantes nas proximidades do Tribunal Provincial de Angola (TPA), onde continua a decorrer o julgamento das 103 pessoas detidas no protesto de sábado passado.

Para proibir a presença de manifestantes junto ao TPL, a polícia dá como explicação a concentração de mais de 300 pessoas, apoiantes dos detidos, na terça-feira à , e diz que essas pessoas terão cometido atos de vandalismo.

"Houve atos de pilhagem, houve a tentativa de retirar as barreiras metálicas da polícia por parte destes manifestantes, uma atitude reprovável. A polícia teve que tomar medidas para conter os ânimos destes manifestantes", disse à comunicação social o porta-voz do comando provincial de Luanda da Polícia Nacional, Nestor Goubel.

Duas jovens de 13 e 15 anos continuam detidas

Pelo menos duas jovens irmãs de 13 e 15 anos continuavam detidas na tarde desta quarta-feira, 28 de outubro, entre as 103 pessoas que estão a ser julgadas por terem participado na manifestação de 24 de outubro, noticia o Novo Jornal (NJ).

"Fomos detidas na rua, nas imediações da Cidadela Desportiva, quando saíamos de casa da nossa tia para casa dos nossos pais. Levaram-nos para a 9ª esquadra, e, já de noite, acordaram-nos quatro agentes encapuçados com ameaças para nos forçarem a confessar coisas que não fizemos", contou uma das jovens, numa das salas do Tribunal Provincial de Luanda, "Palácio D. Ana Joaquina", onde aguardavam para serem ouvidas, refere o jornal. "Roubaram os nossos telemóveis e a carteira com bilhete de identificação. Foram mais de cinco horas de terror", contou ainda a menor.

Segundo o jornal, elas fazem parte do grupo das jovens adolescentes que estão presas deste sábado passado e os pais podem até não saber do seu paradeiro.

Duas mulheres grávidas foram postas em liberdade na terça-feira, 27, ao início da noite, e afirmam também que não tinham nada a ver com o protesto. "Os agentes da polícia da Brigada Canina, foram quem nos deteve, interpelaram-nos e pediram os nossos documentos. Dissemos que deixámos a carteira na viatura e eles não quiseram saber. Ficaram com os sacos das compras e mandaram-nos subir numa patrulha da Unidade Operativa de Luanda", disse uma das mulheres ao NJ.

O porta-voz da polícia, Nestor Goubel, negou ao NJ todas as acusações e afirmou: "nas esquadras não houve maus tratos para nenhum dos detidos, isso é mentira, as pessoas querem denegrir a imagem da Polícia Nacional".

Luaty Beirão comenta na sua página do facebook:

“Como é que recolhem, levam para a esquadra, mudam de esquadra, instruem processo, levam a tribunal uma criança de 13 anos e NINGUÉM interrompe esta sequência sórdida?”

Solidariedade de ativistas moçambicanos

Segundo notícia do Maka Angola, o CDD (Centro para Democracia e Desenvolvimento) divulgou um comunicado a condenar a repressão policial da manifestação de 24 de outubro e a solidarizar-se com os cidadãos angolanos. O CDD é “uma instituição de referência da sociedade civil moçambicana”, salienta o Maka Angola, que refere que “as expectativas de democratização que a população angolana e a comunidade internacional têm depositado em João Lourenço sofreram um duro revés neste dia 24 de Outubro”.

No comunicado, o CDD considera que “a proibição e a repressão da manifestação por parte das autoridades de Luanda configura uma grave violação da Constituição angolana da Declaração Universal dos Direitos Humanos, além de ser um sinal perigoso de fechamento do espaço cívico com recurso à força policial”.

O CDD manifesta a sua solidariedade com as vítimas da repressão policial, “apoia a causa dos cidadãos angolanos que protestam contra a degradação das condições de vida” e apela à libertação das pessoas detidas, “incluindo aqueles cujo paradeiro é desconhecido”.

O CDD diz esperar que “os trágicos acontecimentos de Luanda induzam o Presidente da República de Angola, João Lourenço, a assumir um verdadeiro compromisso com os valores e princípios de Estado de Direito Democrático.”

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