Um primeiro-ministro que diz querer conseguir condições no seu país que nunca aconteceram em país algum do mundo e que chama de irrealista a solução que foi utilizada em tantos países do mundo, que é a renegociação da dívida, é, sim, um primeiro-ministro completamente irrealista, disse a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, quando confrontada com as afirmações de Passos Coelho em relação à proposta de reestruturação da dívida avançada num manifesto subscrito por 70 personalidades de vários quadrantes políticos. O primeiro-ministro afirmou que a reestruturação da dívida “é irrealista” e “põe em causa o financiamento das políticas públicas”.
Para a deputada do Bloco de Esquerda, “o que o primeiro-ministro propõe é que Portugal tenha uma taxa de crescimento e saldos positivos durante 30 anos que nenhum país do mundo conseguiu por mais de dois anos, e quer que consideremos isto realista?”. Ao mesmo tempo, prosseguiu a coordenadora do Bloco, Passos Coelho “considera irrealista a solução da reestruturação da dívida, que é uma solução que ao longo dos tempos foi utilizada tantas vezes”.
“Ninguém pode acreditar seriamente que o primeiro-ministro vai conseguir que Portugal, com uma economia débil, com medidas de austeridade, tenha taxas de crescimento de 4% ao ano durante 30 anos”, prosseguiu a deputada. “Dizê-lo é uma forma de enganar as pessoas, não é aceitável, o debate político deve ser feito de forma séria, sobre alternativas, caminhos que são todos eles difíceis, é certo, mas aquele que o primeiro-ministro quer impor é impossível”.
Manifesto pela reestruturação
“O Bloco de Esquerda tem insistido na necessidade da reestruturação da dívida há já muito tempo”, disse Catarina Martins, sublinhando o consenso na sociedade portuguesa me torno desta proposta. “Estão juntas pessoas que têm visões diferentes sobre o país, mas que com bom senso dizem que a dívida pública em Portugal tem valores insustentáveis e tem de ser renegociada”.
E prosseguiu: “Vemos portanto como positivo este passo para o consenso do país, que não é um consenso para a austeridade, não é um consenso para aprofundar a crise, é sim um consenso sobre mecanismos essenciais para tirar o país da crise”.
A coordenadora explicou que o Bloco de Esquerda considera também que é preciso rejeitar o Tratado Orçamental. “Achamos muito importante que todos os partidos políticos assumam a responsabilidade, neste momento, sobre qual é a sua proposta concreta para sair da crise. Nós assinamo-la: rejeitar o Tratado Orçamental, renegociar a dívida para conseguir crescimento e dignidade na vida das pessoas”.
Mas Catarina Martins ressaltou que “não é novidade que António José Seguro não tem sido claro sobre como é que se pode rejeitar a austeridade sem renegociar a dívida ou sem rejeitar o Tratado Orçamental. Pensamos que essa clarificação também é importante”.