O pacote laboral e as PPP na saúde foram os temas que mais dividiram os dois candidatos no frente a frente televisivo de sexta-feira.
No dia seguinte à greve geral, o tema foi incontornável na abertura do frente a frente entre Catarina Martins e Marques Mendes esta sexta-feira na RTP.
Para a candidata, o Governo colocou-se “num beco sem saída e nas mãos do Chega”, enquanto a greve deu uma “lição de unidade e solidariedade” a um executivo que até se tem comportado de forma arrogante, “insultando os sindicatos”.
Marques Mendes concordou que a “situação está bloqueada”, mas defendeu que “é possível e útil um entendimento” sobre a proposta do Governo no sentido de haver uma “lei equilibrada”, propondo o diálogo sobre formas de “dividir os ganhos de produtividade”.
Catarina insistiu que “é irresponsável achar-se que não é preciso dizer ao Governo que um pacote laboral que baixa salários é um erro num país de baixos salários”.
No tema dos poderes do Presidente da República, Catarina voltou a defender que, ao contrário de Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa, o seu entendimento é de que “orçamentos de Estado não são moções de censura”.
Por seu lado, Marques Mendes acusou Catarina de ter aberto uma crise política quando chumbou o Orçamento de 2022, levando a candidata a responder que “quando vejo as notícias de mulheres que dão à luz na estrada, sei que em 2022, quando disse que o SNS devia ter mais capacidade, eu tinha infelizmente razão”. E lembrou que foi o próprio Marques Mendes a reconhecer em 2018 que “eu cumpro o que está acordado”, referindo-se ao último período de estabilidade política que o país viveu entre 2015 e 2019.
No tema da imigração, colocado no debate a partir dos dados que mostram que a entrada de imigrantes caiu 40% na segunda metade de 2024, após o fim das manifestações de interesse, o potencial impacto negativo para a economia e a Segurança Social foi reconhecido por Marques Mendes, ao afirmar que “não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.
O candidato defendeu a chamada “Via verde para a imigração” criada pelo Governo e que passa pela entrega de vistos nos consulados a pedido das empresas nacionais. “Temos de dar tempo ao tempo para que a medida tenha resultados”, afirmou
Catarina Martins respondeu que o próprio Governo já veio admitir que essa via verde não funcionou. Por outro lado, “quando é mais difícil a regularização das pessoas que estão a trabalhar em Portugal, abrimos portas a mais esquemas de tráfico de seres humanos e exploração de trabalho ilegal, por isso sou defensora de uma política humanista e de imigração”.
A divergência de posições regressou no tema da Saúde, com Marques Mendes a introduzir a defesa das Parcerias Público Privadas nos hospitais públicos, criticando o seu fim nos hospitais de Braga, Loures e Vila Franca de Xira. “Os utentes estavam felizes”, disse Marques Mendes, defendendo também que o Governo “deve aplicar no setor público os instrumentos das PPP que davam bons resultados”.
Sobre esta proposta, Catarina Martins disse que ela própria propôs maior autonomia na gestão hospitalar pública, tal como foi dada às PPP e negada aos restantes hospitais com gestão pública. “Mas não esqueço que as PPP são geridas por homens como o dono da PPP de Cascais que em Espanha pediu para que os doentes menos rentáveis fossem afastados. Não podemos ter hospitais que funcionam bem porque se negam a tratar doentes menos rentáveis”.
Sobre esta “tentação” de Marques Mendes “para dar aos privados aquilo que o Estado deve fazer bem”, Catarina alertou também para o projeto de Maria Luís Albuquerque “para que uma parte dos descontos vá para fundos privados que comportam mais riscos para as pensões”, concluindo que “uma Presidente da República deve assumir a responsabilidade de proteger as pensões em Portugal”.
No debate sobre o apoio à Ucrânia, Catarina começou por sublinhar as diferenças na situação internacional em relação ao passado: “Trump quer impor à Ucrânia o projeto de Putin e tem uma estratégia de segurança que descreve a Europa como inimiga e diz que quer apoiar as forças de extrema-direita na Europa”. Defendeu a necessidade de “uma posição sobre a segurança europeia e de autonomia e caminhos para a paz” e lembrou que viu em Kiev “todo um país solidário contra a invasão russa”, independentemente das divergências políticas no país.
Marques Mendes disse subscrever a posição de Catarina Martins, acrescentando que é preciso continuar o diálogo com os EUA apesar das dificuldades da atual relação e pôr a Europa a investir mais em segurança e defesa.