As extremas-direitas de todos os tempos usaram contra a esquerda a mesma velha acusação de ser o “partido do estrangeiro”. Na sequência da primeira grande guerra, os operários insurretos foram acusados de traição à Alemanha - às ordens da conspiração judeo-bolchevique. Hoje, o “islamo-esquerdismo” é o anátema lançado aos defensores do povo palestiniano; toda a esquerda é acusada de defender aiatolas. No ano passado, em França, os aliados de Le Pen vindos da direita tradicional propuseram um inquérito parlamentar a fantasiadas ligações de partidos políticos a redes de terrorismo islâmico. O alvo, claro, era a France Insoumise.
Com o segundo mandato de Donald Trump, essa retórica faz ricochete. A guerra iniciada por Trump e Netanyahu contra o Irão está a piorar, muito e depressa, a vida de milhões de pessoas, muito para além do Médio Oriente. Tal como na invasão russa da Ucrânia, a perturbação da produção energética e da circulação de mercadorias terá graves efeitos inflacionistas e de especulação. Em Portugal, a prestação da casa e o depósito do carro esgotarão salários mais cedo. Muitas empresas poderão fechar e, à despesa extraordinária causada pela catástrofe climática, o Estado terá de juntar o custo de medidas de mitigação destes aumentos.
Iniciada com o massacre de 160 crianças numa escola, a guerra contra o Irão é inteiramente ilegal à luz da Carta das Nações Unidas e está em choque com o que a nossa Constituição impõe sobre respeito pela soberania dos países. E prejudica Portugal, qualquer que seja o ângulo. É um crime e uma desgraça, na qual o Estado português, incluindo como membro da NATO, não teria que colaborar. Mas, ao contrário do Estado espanhol, o governo quis ser cúmplice deste ataque e autorizou o uso da infraestrutura nacional (na verdade, a base das Lajes já estava a ser usada antes mesmo de ser dada autorização de Lisboa). Tudo com o previsível aplauso da extrema-direita trumpófila.
Não é a primeira vez que a direita, incluindo a mais “nacionalista”, oferece propaganda e logística à guerra dos outros. Há quase um século, no 13º “Caderno” que escreveu na prisão do fascismo, o marxista italiano Antonio Gramsci escreveu: “Quanto mais a vida económica imediata de uma nação é subordinada às relações internacionais, mais um determinado partido representa esta situação. (...) Com frequência, o chamado “partido do estrangeiro” não é aquele que como tal é habitualmente apontado, mas é precisamente o partido mais nacionalista, que, na realidade, mais do que representar as forças vitais do próprio país, representa a subordinação e a servidão económica às nações ou a um grupo de nações hegemónicas”.
Tal como Bolsonaro e os seus aliados - que escandalosamente celebraram as tarifas norte-americanas contra o Brasil em julho passado -, também em Portugal as direitas se mostram descoladas do país. Sabem que a guerra é ilegal e ilegítima, um delírio imperial que é uma catástrofe de longo prazo. Sabem que, imediatamente, os portugueses pagarão caro este delírio. Mas as direitas obedecem e o chefe é Donald Trump.