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O franco suíço abala um mito

Os responsáveis do Banco Central suíço conseguiram em 20 minutos perder mais dinheiro do que o Banco Central russo em meses e realizar o notável feito de superar tanto a crise da Libra de 1992 como a crise do Rublo de Julho a Dezembro de 2014. Artigo de Ricardo Cabral no blogue Tudo Menos Economia.
Banco Nacional Suíço. Foto Jérôme/Flickr

Uma das verdades de La Palice, ou uma “lapalissada” a bem dizer, é que um Banco Central tem poder ilimitado porque tem liquidez ilimitada. Pode sempre imprimir mais papel-moeda para obter essa liquidez. Como consequência lógica, um Estado soberano, com moeda própria e banco central próprio, nunca entraria em incumprimento — outra lapalissada.

Ora, o Banco Central Suíço (Banco Nacional Suíço ou BNS), há cerca de um mês atrás, garantia que a taxa de câmbio euro-franco suíço (CHF) manter-se-ia fixa nos 1€=1,2 CHF e que não deixaria o franco suíço valorizar-se. E os “crentes” acreditavam que tal taxa de câmbio se poderia manter, porque o BNS poderia sempre imprimir mais francos suíços.

Taxa de câmbio CHF-EUR (Fonte: Onvista.de)

Só que, ontem de manhã, o BNS deu o dito pelo não dito, mudando de ideias e abandonando, de um momento para outro, a taxa de câmbio fixa. O resultado foi que o franco suíço chegou a valorizar-se cerca de 43% face ao euro, em apenas 20 minutos. Não se trata aqui do rublo ou de outra moeda de um país considerado “em desenvolvimento” mas de uma das principais praças financeiras do mundo desenvolvido, i.e., do “establishment”. Depois a taxa de câmbio corrigiu algo, mas penso que o franco suíço ainda se irá valorizar bastante mais.

O que farão os banqueiros centrais suíços se (quando?) o franco suíço passar a valer 2 euros? Anunciar nova taxa de câmbio fixa? Com que credibilidade?

Tal como no caso do Banco Central da Federação Russa (BCR), os responsáveis do BNS não estiveram à altura do desafio. Em resultado, as perdas sofridas pelo BNS (e pelos contribuintes suíços), consequência das menos valias nas reservas de moeda estrangeira detidas pelo BNS, deverão ser, à data de hoje, de cerca de 80 mil milhões de euros, tendência crescente. Ou seja, os responsáveis do BNS conseguiram em 20 minutos perder mais dinheiro do que o BCR em meses e realizar o notável feito de superar tanto a crise da Libra de 1992 como a crise do Rublo de Julho a Dezembro de 2014. Os especuladores dos mercados cambiais estarão, nos últimos 6 meses, a realizar enormes fortunas a apostar na inépcia de banqueiros centrais deste mundo fora.

Talvez agora os “powers that be” mundiais prestem mais atenção ao que está a acontecer nos mercados financeiros internacionais.

Por paradoxal que pareça, este evento pode vir a ser benéfico para Portugal por várias razões. Dois exemplos:

- A Alemanha anda a namorar com a ideia de sair do euro, para deixar de ter os custos de suportar os países periféricos, criando uma nova moeda. Agora, terá muito receio de o fazer, não vá acontecer ao seu novo marco o que aconteceu ao franco suíço nos 20 minutos críticos de ontem. Pode ser que este facto amacie a sua posição negocial face à Grécia e aos outros países periféricos;

- O consenso é que bastaria ao BCE anunciar que iria realizar compras ilimitadas de dívida pública para evitar que as taxas de juro da dívida pública subissem. Ora também esse mito, após o terramoto cambial suíço, deverá em breve ser testado pelos mercados. E pode ser que esse teste acabe finalmente com a paz podre que vigora nos mercados de dívida pública dos países periféricos da zona euro desde 2012 e precipite, finalmente, uma resolução séria e construtiva da crise que afecta o euro.

Artigo publicado no blogue Tudo Menos Economia.

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