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Sexo e luta de classes em “A Vida de Adèle”

Não há esperança neste filme, já o dissemos. As diferenças sociais, ao contrário das telenovelas, são uma linguagem que separa as amantes
Abdellatif Kechiche recria o universo do primeiro amor e da perda da inocência, tão caro ao cinema francês.

Quando Adèle desaparece ao virar da rua, fumando o mais angustiado cigarro, percebemos que o filme vai acabar. Futuro aberto? Nem por isso. Adèle falhou o grande amor e não parece haver segunda oportunidade. Como a desesperança é violenta…

Para alguns, a fita de Abdellatif Kechiche recria o universo do primeiro amor e da perda da inocência, tão caro ao cinema francês. Para outros, é um manifesto pela liberdade de orientação sexual. Afinal, Adèle descobre a paixão no olhar fulminante e fremente de outra rapariga, Emma, na enésima repetição do "coup de foudre" plasmado na grande e pequena literatura. Mas o filme, sem deixar de ser tudo isso, aborda a questão social e as pequenas mas irreversíveis lutas simbólicas que separam as pessoas de classes sociais diferentes.

Adèle come gulosamente o macarrão lambendo os dedos, num ambiente popular onde os pais nunca questionam a sua heterossexualidade. Espreguiça-se à mesa e esmera-se na cozinha para conquistar Emma, que prefere as ostras, o ambiente requintado das galerias (é pintora) e as intermináveis discussões com os amigos pós-modernos sobre temáticas artísticas. Adèle sofre "bullying" por parte dos colegas de liceu, quando percebem que experimentou o amor proibido. Emma, pelo contrário, tem uma mãe ultra compreensiva e move-se em ambientes cosmopolitas. Unem-se, durante algum tempo, suspendendo a violência da dominação de classe na dádiva dos corpos. Na cama, por instantes, a volúpia de Eros, a envolvência da pele e da carne, o apelo do orgasmo, tornam-nas indistintas, puro prolongamento mútuo, como os amorosos em certos quadros de Klimt (artista demasiado cromático e óbvio, para os pintores amigos de Emma). Mas o mundo distingue: Emma, aos poucos, faz valer a sua “superioridade de classe”, trata Adèle como criada e condena-a a uma solidão quebrada apenas pelas ondas dos lençóis. A subtileza do filme mora então aqui, nos pequenos detalhes com que o olhar descobre a violência de classe, não declarada, quase insuspeita, derramada nos gestos, nos tiques e toques, em determinado timbre de voz, na escolha das palavras e na maneira de as dizer, prolongada nos modos do corpo.

Não há esperança neste filme, já o dissemos. As diferenças sociais, ao contrário das telenovelas, são uma linguagem que separa as amantes. O que nasceu separado morre separado. Fim do amor romântico. Fim.

Publicado originalmente no Público

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Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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