Uma carta à esquerda ocidental a partir de Kiev

Com a capital ucraniana a ser bombardeada, o historiador de esquerda Taras Bilous decidiu escrever uma carta à esquerda que “exagera a influência da extrema-direita na Ucrânia mas não presta atenção à extrema-direita nas “Repúblicas Populares” e evitar criticar as políticas conservadoras, nacionalistas e autoritárias de Putin”.

26 de February 2022 - 19:45
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Manifestantes do grupo de esquerda "Movimento Social" manifestam-se contra a guerra. Foto do Facebook desta organização.

Escrevo estas linhas enquanto Kiev está sob ataques de artilharia.

Até ao último minuto, tinha esperança que as tropas russas não lançassem uma invasão em larga escala. Agora, só posso agradecer a quem passou a informação aos serviços de inteligência dos EUA.

Ontem, passei metade do dia a ponderar se me deveria juntar a uma unidade de defesa territorial. Durante a noite que se seguiu, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyi, assinou uma ordem de mobilização total, as tropas russas avançaram e preparam-se para cercar Kiev, isto acabou por decidir por mim.

Mas, antes de assumir o meu posto, gostaria de comunicar à esquerda ocidental o que penso acerca da sua reação à agressão da Rússia contra a Ucrânia.

Em primeiro lugar, agradeço aos ativistas de esquerda que estão agora a concentrar-se nas embaixadas russas – até àqueles que demoraram a compreender que a Rússia era o agressor neste conflito. Agradeço aos políticos que apoiam pressionando a Rússia para acabar com a invasão e retirar as suas tropas. E agradeço à delegação de deputados, sindicalistas e ativistas britânicos e galeses que vieram apoiar-nos e ouvir-nos nos dias antes da invasão russa. Também agradeço a Campanha de Solidariedade para com a Ucrânia do Reino Unido por nos ter ajudado ao longo de muitos anos.

Este artigo é sobre a outra parte da esquerda ocidental. Aqueles que imaginam uma “agressão da Nato na Ucrânia” e aqueles que não conseguem ver a agressão russa – como a secção de Nova Orleães dos Democratas Socialistas da América. Ou o Comité Internacional do DSA que publicou uma declaração vergonhosa na qual não apresenta uma única crítica à Rússia (estou muito grato ao professor e ativista Dan la Botz e aos outros que criticaram esta tomada de posição).

Ou aqueles que criticaram a Ucrânia por não implementar os acordos de Minsk mas ficaram em silêncio no que diz respeito às suas violações pela Rússia e as auto-intituladas “Repúblicas Populares”. Ou aqueles que exageraram a influência da extrema-direita na Ucrânia mas não prestaram atenção à extrema-direita nas “Repúblicas Populares” e evitaram criticar as políticas conservadoras, nacionalistas e autoritárias de Putin. Parte da responsabilidade pelo que está a acontecer é vossa.

Isto faz parte de um fenómeno mais vasto no movimento “anti-guerra” ocidental, habitualmente chamado de “campismo” pelos seus críticos de esquerda. A autora e ativista síria-britânica Leila Al-Shami atribuiu-lhe um nome mais forte: o “anti-imperialismo dos idiotas. Leiam o seu fabuloso artigo de 2018 se ainda não o fizeram. Apenas repetirei a sua tese principal aqui: a atividade de uma ampla parte do movimento ocidental “anti-guerra” de esquerda sobre a guerra na Síria não tinha nada a ver com parar a guerra. Apenas se opunha à interferência ocidental, ao mesmo tempo que ignorava, ou até mesmo apoiava, o envolvimento da Rússia e do Irão, já para não falar da sua atitude face ao “legitimamente eleito” regime de Assad na Síria.

Muitas organizações anti-guerra justificaram o seu silêncio sobre as intervenções russa e iraniana argumentando que “o principal inimigo está em casa”, escreveu Al-Shami. “Isto desculpava-os de não empreenderem nenhuma análise séria do poder de forma a determinar quem eram os principais atores que promoviam verdadeiramente a guerra.”

Infelizmente, vimos este mesmo cliché ideológico repetir-se na Ucrânia. Mesmo depois da Rússia ter reconhecido a independência das “Repúblicas Populares” no início desta semana, Branko Marcetic, que escreve para a revista de esquerda americana Jacobin, assinava um artigo quase exclusivamente dedicado a criticar os EUA. No que diz respeito às ações de Putin, apenas notava que o líder russo “assinalará ambições pouco benignas”. A sério?

Não sou um adepto da Nato. Sei que depois do fim da Guerra Fria, este bloco perdeu a sua função defensiva e conduziu apenas políticas agressivas. Sei que a expansão para leste da Nato minou os esforços de desarmamento nuclear e de formação de um sistema conjunto de segurança. A Nato tentou marginalizar o papel da ONU e da Organização de Segurança e Cooperação na Europa e desacreditá-las como “organizações ineficazes”. Mas não podemos trazer o passado de volta e temos de nos orientar para as circunstâncias atuais para procurar uma saída para esta situação.

Quantas vezes a esquerda referiu a promessa informal feita ao ex-presidente Mikhail Gorbachev sobre a Nato (“nem mais um centímetro para leste) e quantas vezes mencionou o Memorando de Budapeste de 1994 que garantia a soberania da Ucrânia? E com que frequência a esquerda europeia apoia as “legítimas preocupações de segurança” da Rússia, uma estado que detém o segundo mais arsenal nuclear? E com que frequência se lembrou das preocupações de segurança da Ucrânia, um estado que trocou as suas armas nucleares, sob pressão dos EUA e da Rússia, por um pedaço de papel (o Memorando de Budapeste) que Putin rasgou definitivamente em 2014? Alguma vez ocorreu a esses críticos da Nato que a Ucrânia é a maior vítima das mudanças causadas pela expansão da Nato?

Vezes sem conta, a esquerda ocidental respondeu à crítica da Rússia referindo a agressão dos EUA contra o Afeganistão, o Iraque e outros países. Claro que estes precisam de ser chamados à discussão – mas de que forma exatamente? O argumento da esquerda deveria ser que, em 2003, outros governos não pressionaram o suficiente os Estados Unidos sobre o Iraque. Não que é necessário exercer menos pressão sobre a Rússia por causa da Ucrânia agora.

Um erro óbvio

Imaginem por um momento que, em 2003, quando os EUA se estavam a preparar para uma invasão do Iraque, a Rússia se tivesse comportado como os EUA o fizeram nas semanas recentes: com ameaças de escalar o conflito. Agora imaginem o que a esquerda russa poderia ter feito nessa situação, de acordo com o dogma, “o nosso principal inimigo está em nossa casa”. Teria criticado o governo russo por esta “escalada”, dizendo que “não devia colocar em perigo as contradições inter-imperialistas”? É óbvio para toda a gente que tal comportamento teria sido um erro nesse caso. Porque é que isto não é óbvio no caso da agressão contra a Ucrânia?

Noutro artigo da Jacobin do início do mês, Marcetic chega ao ponto de dizer que Tucker Carlson da Fox News estava “completamente certo” acerca da “crise ucraniana”. O que Carlson tinha feito era questionar o “valor estratégico da Ucrânia para os Estados Unidos”. Até Tariq Ali na New Left Review citava de forma abonatória o cálculo do almirante alemão Kay-Achim Schönbach que tinha dito que “respeitar” Putin acerca da Ucrânia “era barato, até não tinha qualquer custo” dado que a Rússia poderia ser um aliado útil contra a China. A sério? Se os EUA e a Rússia pudessem chegar a um acordo e começassem uma nova Guerra Fria contra a China, seria isso o que queremos verdadeiramente?

Reformar as Nações Unidas

Não sou fã do internacionalismo liberal. Os socialistas devem criticá-lo. Mas isto não significa que tenhamos de apoiar a divisão de “esferas de influência” dos estados imperialistas. Em vez de esperar um novo equilíbrio de poder entre os dois imperialismo, a esquerda deve lutar pela democratização da ordem de segurança internacional. Precisamos de uma política global e de um sistema internacional de segurança. Temos o último: são as Nações Unidas. Sim, têm muitas falhas e é frequentemente objeto de críticas justas. Mas pode-se criticar para refutar algo ou para o melhorar. No caso da ONU precisamos desta última alternativa. Precisamos de uma visão de esquerda para uma reforma e democratização das ONU.

Claro que isto não significa que a esquerda deva apoiar todas as decisões da ONU. Mas um reforço global do papel desta na resolução de conflitos armados iria permitir à esquerda minimizar a importância das alianças político-militares e reduzir o número de vítimas. (Num artigo anterior, escrevi que as forças de manutenção de paz da ONU poderiam ter ajudado a resolver o conflito em Donbas. Infelizmente, isto agora perdeu a sua relevância.) Afinal de contas, também precisamos da ONU para resolver a crise climática e outros problemas globais. A relutância de muitos militantes de esquerda ao nível internacional em apelar a isto é um erro terrível.

Depois das tropas russas terem invadido a Ucrânia, o editor da Jacobin para a Europa, David Broder, escreveu que a esquerda “não devia pedir desculpa por se opor a uma resposta militar dos EUA”. Mas, de qualquer forma, esta nunca foi a intenção de Biden, como ele repetiu múltiplas vezes. Uma parte significativa da esquerda ocidental deveria admitir honestamente que fez uma asneira completa na sua resposta à “crise ucraniana”.

A minha perspetiva

Terminarei escrevendo brevemente sobre mim e sobre a minha perspetiva.

Ao longo dos últimos oito anos, a guerra de Donbas tem sido o assunto principal que tem dividido a esquerda ucraniana. Cada um de nós formou a sua posição a partir da influência da sua experiência pessoal e de outros fatores. Assim, um outro militante da esquerda ucraniana teria escrito este artigo de forma diferente.

Nasci em Donbas mas numa família que fala ucraniano e que é nacionalista. O meu pai envolveu-se na extrema-direita nos anos 1990 quando observava a decadência económica da Ucrânia e o enriquecimento da liderança do antigo Partido Comunista que ele tinha combatido desde meados dos anos 1980. Claro, ele tem pontos de vista muito anti-russos mas também anti-americanos. Ainda me lembro das suas palavras no 11 de setembro de 2001. Vi a queda das Twin Towers na televisão e disse que os responsáveis era “heróis” (já não pensa assim – agora acredita que foram os americanos que rebentaram com elas de propósito).

Quando a guerra começou no Donbas, em 2014, o meu pai alistou-se no batalhão de extrema-direita Aidar como voluntário, a minha mãe fugiu de Luhansk e o meu avô e a minha avó ficaram na sua aldeia que passou a ser controlada pela “República Popular de Luhansk”. O meu avô condenou a revolução da Euromaidan. Apoia Putin que, diz ele, “restaurou a ordem na Rússia”. Contudo, tentamos continuar a falar uns com os outros (apesar de não falarmos de política) e ajudar-nos uns aos outros. Tento ser empático para com eles. Afinal, os meus avós passaram toda a sua vida a trabalhar num quinta coletiva e o meu pai era trabalhador da construção civil. A vida não foi meiga para com eles.

Os acontecimento de 2014 – a revolução seguida da guerra – levou-me numa direção oposta à maioria do povo da Ucrânia. A guerra matou o nacionalismo que havia em mim e trouxe-me para a esquerda. Quero lutar por um melhor futuro para a humanidade e não pela nação. Os meus pais, com o seu trauma pós-soviético, não compreendem as minhas posições socialistas. O meu pai é condescendente para com o meu “pacifismo” e tivemos uma conversa desagradável depois de eu ter participado num protesto antifascista com o cartaz a reivindicar o desmembramento do regimento de extrema-direita Azov.

Quando Volodymyr Zelenskyi se tornou presidente da Ucrânia, na primavera de 2019, tive esperança que isso pudesse impedir a catástrofe que agora está a acontecer. Afinal de contas, é difícil diabolizar um presidente russófono que ganhou as eleições com um programa a apelar à paz em Donbas e cujas piadas eram populares tanto para os ucranianos quanto para os russos. Infelizmente, estava errado. Apesar da vitória de Zelenskyi ter mudado a atitude de muitos russos acerca da Ucrânia, isso não impediu a guerra.

Nos últimos anos, tenho escrito sobre o processo de paz e sobre as vítimas civis de ambos os lados da guerra de Donbas. Tentei promover o diálogo. Tudo isto se esfumou agora. Não vai haver compromissos. Putin pode planear o que quiser, mas ainda que a Rússia ocupe Kiev e instale um governo de ocupação, resistiremos. A luta vai durar até que a Rússia saia da Ucrânia e pague por todas as vítimas e por toda a destruição.

Daí que as minhas últimas palavras sejam dirigidas ao povo russo: despachem-se e derrubem o regime de Putin. É do vosso interesse, assim como do nosso.


Taras Bilous é um historiador ucraniano e um ativista do Movimento Social, uma organização que se define como anti-capitalista, pela democracia e pelo socialismo contra a omnipotência do capital. É editor do jornal Commons: Journal of social critique. Escreve sobre guerra e nacionalismo.

Artigo publicado originalmente no Open Democracy. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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