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Carmen de Figueiredo: a proibição de “Vinte anos de manicómio!”

O romance não foi censurado assim que foi publicado. É que, "como era feito por uma escritora”, os censores da PIDE nunca supuseram “que esta tivesse escrito com tanta realidade”.  O livro tem “um realismo tão cru e descrições de tal basévia e lubricidade que custa a crer terem sido escritas por uma mulher”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

A narrativa do romance está organizada de forma cronológica, linear, sem recorrer a analepses ou prolepses, sendo os momentos de descrições alternados com os de acções das personagens. Inicialmente, a acção gira à volta de Joaquim Bento, que, tendo juntado dinheiro no Brasil, conseguiu fazer uma casa em Portugal.

Casado com Lídia, recebe uma proposta de Laurentino, pai de Macário, para ser seu sócio numa mercearia. Lídia deseja que Bento aceite a proposta, que vá morar para Lisboa, já que o dinheiro vindo do Brasil já está prestes a acabar. Acabam por mudar-se para a capital de Portugal com a sua filha Lourdes. A partir daqui, a narrativa começa a explorar a vida quotidiana da família, mostrando-se ainda a relação de dominação patriarcal do pai em relação à filha, em relação à qual o primeiro “pressentia que só tinha a esperar desgostos” graças ao seu “temperamento sensual” (p. 70/ 71):

 

Há homens em casa, quer-se vergonha! Agora todo o dia aí como uma fraldiqueira em camisa, tem algum jeito? Se amanhã isto acontece, racho-te! (p. 68)

 

Assim, começou de ser mais ríspido, autoritário, violento em demasiado, quebrando em ímpetos quase ferozes (…) desejava a sua filha mais pura que as estrelas, tinha de reconhecer que o sangue do seu sangue era um produto adulterado, todo borbulhante de perigosas taras. (p. 69)

 

Para mais, Bento chegava “a temer estar só com a filha, com receio de dar cabo dela com pancada, para amansá-la” (p. 71). Esta ideia de obrigatoriedade de deserotização da mulher contrastará com a figura do próprio Bento, que não se impede de ter desejos sexuais adúlteros. Vendo Bento uma aproximação entre Lourdes e Macário, “rastaquore profissional” (p. 73), começa a pensar num casamento entre ela e João Lúcio. Considerava ainda Macário impróprio para um casamento com a filha:

 

Paulo Macário era um desses trapos humanos a que o vinho e todo o género de deboche tinha embotado a sensibilidade, adormecendo-lhe os sentimentos sagrados da honra e da dignidade, sendo portanto capaz de tudo. Sensual e sádico, tinha por vezes fibrilhas alucinantes na íris metálica, deixando mesmo que lhe surpreendessem nos vincos da boca, o desequilíbrio do seu psíquico afogado em libertinagem. (p. 73)

 

Notando o crescendo de irritação do pai, Lourdes aproxima-se de João Lúcio para iludi-lo. Supondo – acertadamente – que a aproximação é fingida, Joaquim Bento começa a emagrecer e adoece. Lourdes passa, nessa altura, a admitir a possibilidade de casar com João Lúcio. Para mais, a realização do casamento significaria deixar de viver sob o domínio do pai.

Os dois acabam, assim, por casar, após Lourdes ter levado pontos de uma parteira de forma a poder fingir a sua virgindade. Ainda que sem “interesse carnal” (FIGUEIREDO, 195-, p. 88) pelo marido, acaba por engravidar e, no dia em que Lourdes tem o primeiro filho, Lídia dá uma queda e morre.

Posteriormente, reencontrando-se Lourdes com Paulo Macário, Lourdes, ainda que inicialmente tente rejeitá-lo, inicia com ele uma relação adúltera:

 

rápido, brutal, curvou-se mais, dobrou-a pelos quadris, como vime, estendeu-a mesmo ali no cimento morno, ajoelhando-se ávido e sedento sobre a carne palpitante que mordeu, voraz, sorvendo-lhe na boca beijos dum requinte cru, completamente dementado pela onda de luxúria amorosa que lhe agitava o sangue, como se um poderoso afrodisíaco enlouquecesse. (p. 136)

 

Numa vez seguinte, João Lúcio quase os encontra juntos. Aliás, vislumbra um homem em casa, mas Lourdes finge que tinha sido impressão. O episódio traz consequências ao marido e este adoece, tendo a esposa de chamar um médico. Na sequência deste episódio, João Lúcio acaba por ser internado num manicómio, e ali fica durante vinte anos. Lourdes permanece impávida face a isto:

Inicialmente, João Lúcio debate-se contra a clausura, gritando que não está louco. Pouco depois, habitua-se à reclusão, acabando por considerar a sua situação irremediável, já que não tem ninguém que o liberte. Durante o seu internamento, Lourdes inicia uma relação erótica com Carlos e Castro, médico responsável pelo internamento do marido.

Chega-se então à última parte do romance, cuja narrativa é rápida, contrastando com o que até aí fora apresentado. Tendo passado dezanove anos desde o internamento de João Lúcio, este é agora visitado frequentemente pela sua filha Ângela e por António, seu noivo, que querem libertá-lo. Finalmente, falando com Carlos e Castro, numa altura em que Lourdes já está morta, percebem que a única forma de libertarem João Lúcio é darem-no como morto para que possa sair e refazer a sua vida noutro lado, sob outro nome. É o que acontece, finalmente, e João Lúcio torna-se no senhor Júlio. Com um mês de liberdade, porém, começa a pesar-lhe ter perdido a sua própria identidade e suicida-se.

 

Recepção/censura de Vinte Anos de Manicómio!

 

O relatório que ditou a proibição de Vinte Anos de Manicómio! devia estar disponível nos arquivos do Secretariado Nacional de Censura, com a referência Censura cx. 733, na Torre do Tombo, já que, ao pesquisar-se a informação dos serviços de censura em relação à obra, é esta a referência bibliográfica indicada. O relatório, contudo, não se encontra na caixa 733, podendo sugerir-se que talvez tenha sido extraviado. Contudo, numa obra sobre a censura literária, da autoria de Cândido de Azevedo1, encontra-se o texto do relatório fixado, que repetimos aqui:

 

Parece-me condenável este romance pelos trechos (por vezes páginas inteiras) de realismo tão cru e descrições de tal basévia e lubricidade que custa a crer terem sido escritas por uma mulher.

E, afinal, todos os esses trechos absolutamente condenáveis podiam ter sido omitidos, sem prejuízo da contextura ou da acção do romance.

Os trechos principais que me parecem mais condenáveis vão assinalados a p. 162, 193, 23, 244, 255, 27-286, 427, 518, 549, 63-6410, 80-8111, 9212, 9313, 94, 9714, 135-13615, 16716, 20717 e 21618.” (AZEVEDO, 1997, p. 108)

 

Cândido de Azevedo informa ainda sobre a data de proibição da obra, 30 de Janeiro de 1952, o que bate certo com a informação dada pela própria autora (p. 182).

Esta informação bate ainda certo com outros documentos que se encontram na caixa 733 dos arquivos do Secretariado Nacional de Censura, como uma nota que solicita a apreensão da obra de Carmen de Figueiredo, datada de 31 de Janeiro de 1952.

 

Director da Policia Internacional e de Defesa do Estado

 

LISBOA

 

Tenho a honra de solicitar de V. Exª. se digne mandar apreender o livro intitulado “VINTE ANOS DE MANICÓMIO”, da autoria de Carmen Figueiredo, editado pela “Empresa Literária Universal”, Travessa da Era, nº 17, em Lisboa, por ter sido proibido de circular no País, o que desde já muito agradeço.

 

A Bem da Nação

 

Lisboa, 31 de Janeiro de 1952

 

O DIRECTOR

 

No dia seguinte, numa outra nota, o subdirector dos serviços de censura pergunta a razão pela qual o livro da autora não fora submetido à apreciação daqueles serviços:

 

Gerente da Empresa Literária Universal

Rua da Era, nº 17

LISBOA

 

O Exmo. Director encarrega-me de solicitar a V. Exª. se digne informar por que não submeteu à apreciação destes serviços, o livro “20 ANOS DE MANICÓMIO”, da autoria de Carmen de Figueiredo.

 

A Bem da Nação

Lisboa, 1 de Fevereiro de 1952

 

O SUBDIRECTOR

 

A resposta chegar-lhe-ia no dia seguinte, pela mão de Gaspar de Almeida:

 

Lisboa, 2 de Fev. 1952

 

A Exma Direcção dos Serviços de Censura

Lisboa

 

Em conformidade com o ofício nº 198 de ontem em que perguntam – porque não submete à Censura o livro – Vinte anos de Manicómio, por Carmen de Figueiredo – comunico a essa Exma Direcção, que não costumo submeter à censura romances passionais, porém reconheço que o referido romance é demasiado realista e só dei por isso depois deste estar meio impresso.

Como era feito por uma escritora – nunca supus que esta tivesse escrito com tanta realidade, porém atendendo que os Romances de Abel Botelho e Guido de Verona este continuam a suceder-se, sempre julguei que este poderia ser tolerado.

Se não estivesse esgotado, teria nele um prejuíso [sic].

 

Sem mais, subscrevo-me...

 

Gaspar de Almeida

 

No dia anterior, 1 de Fevereiro, tinham sido pedidos ao Gerente da Empresa Literária Universal, pelo subdirector dos serviços de censura, exemplares das obras de Carmen de Figueiredo:

 

Gerente da Empresa Literária Universal

 

Rua da Era, 17

 

LISBOA

 

O Exmº. Director encarrega-me de solicitar a V. Exª se digne enviar a estes Serviços, a titulo devolutivo, um exemplar de cada um dos livros abaixo indicados, da autoria de Carmen de Figueiredo:

 

“FAMINTOS” - “ELE NÃO É MEU MARIDO” E “CAMINHO DO CALVÁRIO”.

 

Com os meus agradecimentos.

 

A Bem da nação

 

Lisboa, 1 de Fevereiro de 1952

 

O SUBDIRECTOR

 

A resposta chegou durante o mesmo dia:

 

Lisboa, 1 de Fev. 1952

 

Exmo

Subdirector dos Serviços de Censura

Lisboa

 

Ainda que quisesse ser agradável a V. Excia não me é possível enviar os livros que me pede por não os ter.

 

Famintos – edição de Domingos Barreira – Porto

Ele não é meu marido – edição do Século

Caminho & Calvário – desconheço o editor

Dedicação Suprema – Casa do Livro – R. D Deus Z.

 

O livro 20 anos de Manicómio encontra-se esgotado

 

Com os meus cumprimentos, subscrevo-me

 

Gaspar de Almeida

 

A última nota que versa sobre o processo de censura de Vinte Anos de Manicómio! data de 6 de Fevereiro de 1952. Escrita pelo subdirector dos serviços referidos, informa sobre o que terá acontecido com a impressão da obra: Gaspar de Almeida, gerente da Empresa Literária Universal, tê-lo-ia imprimido sem atentar no conteúdo da obra, já que, regra geral, a sua empresa publicava apenas livros infantis.

 

INFORMAÇÃO

 

Veiu à Censura, a meu pedido, Gaspar de Almeida, gerente da Empresa.

 

Expuz-lhe a gravidade da falta cometida, mostrando-lhe as disposições legais referentes ao assunto.

 

Declarou-me que, excepcionalmente, imprimiu o livro, pois a sua empresa só publica livros infantis. Que só no meio da impressão notou que o livro era bastante realista, tendo chamado a atenção para o caso, da autora. Que em virtude de esta lhe afirmar que a publicação não tinha mal, tendo em vista outros livros do mesmo género que estão à venda, acedeu ao seu desejo, induzindo-o em erro que confessou ter cometido.

Disse-lhe que ia apresentar as suas declarações ao Exmª. Director, para resolução, mas desde já o prevenia de que se verificasse reincidência ficaria sujeito ao encerramento da empresa.

 

Lisboa, 6 de Fevereiro de 1952

 

O SUBDIRECTOR

 

Entende-se, assim, que esta obra de Carmen de Figueiredo não foi apreendida aquando da sua publicação porque, tendo sido escrita por uma mulher, os membros do regime partiram do princípio de que não poderia afrontar as políticas ou a moral do regime. Daí o comentário de Gaspar de Almeida (“Como era feito por uma escritora – nunca supus que esta tivesse escrito com tanta realidade”) e daí o comentário do próprio relatório de censura (“trechos (por vezes páginas inteiras) de realismo tão cru e descrições de tal basévia e lubricidade que custa a crer terem sido escritas por uma mulher”). De resto, não foi sequer a estrutura da narrativa ou o subtexto aquilo que alarmou os serviços censórios, mas os trechos com referências sexuais na primeira incorporada. Como foi dito pelo censor literário, sem eles não haveria prejuízo da acção do romance. É que, ao contrário do que acontece com Minha Senhora de Mim, a incorporação do erótico/sexual, não será um elemento interno da construção literária, uma peça essencial na construção da narrativa literária, ou seja, é somente um elemento que possibilita a realização narrativa, mas não é nela determinante: conduz a narrativa, mas não actua na constituição do essencial da obra enquanto peça literária. Assim, este elemento não será particularmente subversivo, estando a sua capacidade de ferir o Estado Novo apenas no facto de afirmar a existência da sexualidade e dos impulsos sexuais.

 

 

4.5 Conclusões

 

Os dois romances de Carmen Figueiredo a que aqui nos referimos não passaram pela censura graças à incorporação, na estrutura da narrativa, de descrições sexuais. São elementos secundários das narrativas: existem de forma a conferirem algum realismo à obra, possibilitando a construção da narrativa, mas não são o seu elemento central. Os censores literários escandalizaram-se particularmente pelo facto de tais descrições terem sido escritas por uma mulher.

Torna-se difícil dizer que à PIDE se deveu o desaparecimento de Carmen Figueiredo da vida literária portuguesa e, pode dizer-se, até da sua canonização. Ainda que tenha havido a sua clara intenção, através das proibições, a verdade é que nem as outras obras sobreviveram, havendo muito poucas reedições e sendo hoje muito difícil encontrá-las, nem a reedição de Famintos, que aconteceu vinte e cinco anos após a sua primeira publicação e um ano após o término da ditadura, lhe garantiu uma vida longa ou até um espaço na vida pública. Mesmo Criminosa, agraciado com um prémio também dado a muitos escritores conceituados e canonizados, acabou por perder o seu espaço entre as prateleiras. Afinal, mesmo com as duas obras proibidas, Carmen de Figueiredo contava ainda com uma obra literária extensa, à qual se juntavam as publicações frequentes em jornais de tiragem diária.

Se as obras da autora foram apagadas do conhecimento público, podemos dizer o mesmo da autora. Por isso, torna-se difícil falarmos das condições de produção destas obras e podemos apenas referirmo-nos à recepção com os parcos dados que temos: os dos relatórios dos serviços censórios e os conhecimentos que temos das produções editoriais. Assim como assim, os livros de Carmen de Figueiredo não agitaram e não agiram sobre o mundo, não deixaram marcas para a posterioridade, não foram fulcrais na redefinição de modelos sociais nem contribuíram de forma visível para os debates sobre as relações de poder e muito menos para o derrubar da ditadura.

 

Para saber mais sobre as obras das autoras portuguesas censuradas pela PIDE, clique aqui.

1Azevedo, Cândido de (1997). Mutiladas e Proibidas. Para a história da censura literária em Portugal nos tempos do Estado Novo. Porto: Caminho.

2 “Oh! Quantas vezes se masturbara ele (…) Masturbara-se, sim, furiosamente, pensando, doido, nas formas promitentes e esplêndidas dessa mulher, sem querer provocante, que não tinha homem, e a aldeia em peso acabara por apontar a dedo, por ela ter aparecido se barriga à boca, sendo como era viúva... Masturbara-se, violento e frenético, possesso de desejos insensatos” (p. 16)

3 “Vezes acontecera já que, se calhava o cio impetuoso do macho acicatá-lo, bastava, ao chegar-se-lhe, fixar a deformação monstruosa, para se lhe ir água abaixo todo o violento desejo da carne.” (p. 19)

4 “queimada já na chama ardente dos pecadilhos da juventude que, quase sem maldade, as faz levar, os deditos lambuzados de terra, a ensaiar no mistério das carnes tenras, o prelúdio dum prazer de pecado, saltavam poças cheias de lama, esparrinhando-se umas às outras, que essa delambida da dona Manuela, fora surpreendida, agarrada ao professor, um marmanjote casado, mas cão como o mais refinado cão, toda descomposta e desgrenhada...” (23/24)

5 “Umas gatas sempre a arderem em cio... Porém... a culpa muita vez nem era delas. Nem sempre o sangue as queimava. Eles, homens, é que ateavam a fogueira. (…) Onde quer que haja um homem e uma mulher, o pecado surge. Eis a imposição do instinto e dar carne. Brutalidade, animalidade, matéria, só matéria...” (p. 25)

6 “Uma forte rajada de impetuoso desejo fez-lhe instantâneamente dilatar o sexo gordo, ao mesmo tempo que na boca sentiu um travo acre, como líquido vertido duma esponja a retrair-se.” (p. 27)

7 “O brilho maroto da pupila incendiada, apagava-se; seus lábios de arqueado perigosamente luxuriante, amoleciam, e, toda a febre que o queimava durante o dia, e reflectia na face tumefacta, se ia extinguindo lentamente, mergulhando-o em calma, cheio de pensamentos sérios.” (p. 42)

8 “(...) era diàriamente iniciada por ela, nos segredos perigosos dos palpitantes anseios da sua carne de fêmea desejeosa, e pervertida talvez pelo contacto dos muitos homens por quem se tinha roçado na vida, desde os bancos do liceu até ao magistério” (p. 51)

9 “O próprio púbis, esse galvanizante triângulo de Vénus, que outrora beijara sôfrego, com requintes de bruto e selvagem desejo, - macho cego pelo delírio da carne que requeria posses – não podia agora vê-lo ou palpá-lo, sequer, inchado pela trama de veias que apareciam como tortulhos em eido de castanheiros bem adubado pelo apodrecimento que é morte e renovação.” (p. 54)

10 “(...) macho forte, em permanente contacto com mulheres, impunha as suas necessidades físicas, atormentado pelo desejo, um pouco esquecido das varizes deformadoras. Sim, nesses momentos rubros de delírio, em que o amor é apenas uma palavra toda carne, sangrenta, de humanos desejos ou torpes e selvagens ímpetos, Joaquim esquecia a rede de varizes, que já se enroscava no próprio sexo” (p. 63/64)

11 “(...) dir-se-ia que, despertara em si um novo mundo de vivacidades e loucas ardências até ali ignoradas (...) rasgando lhe sem escrúpulos o véu de sangrentas bistrações, para além do qual surgira a mulher, birante e forte na grandeza sublime da posse que é redenção e pecado. Mas ela, levada por uma amigalhaça, antiga condiscípula no liceu, fora logo, cautelosamente a uma misteriosa fazedora de virgens, e, por trezentos escudos, aquela dera dentro dela certos pontanázios, garantindo que ficava à prova do mais sabido macho.” (p. 80/81)

12“Lourdes foi assim virgem uma segunda vez” (195-, p. 92)

13 “Fingidamente púdica, não queria despir-se, acirrando mais e mais o desejo impetuoso que como um véu, obscurecia a razão do rapaz. Em dado momento, Lúcio toma-a pela cintura, joga-a sobre a colcha, rasga o vestido enfolharado, e colhe, todo ele queimado numa intensa labareda, a flor que mal sangrou mas que por isso mesmo o fez delirar.” (195-, p. 93)

14 “As ignoradas fibras da sua carne voluptuosa de grande amorosa, todas vibravam, desnorteando-a” (p. 97).

15 “Lourdes recuava, tentava desprender-se, ginasticava os membros em desvios e curvas aliciantes, mas, deixando-se a pouco e pouco, amolentar pelo desejo louco do macho, cujo hálito lhe queimava a cara e o colo. (…) E, rápido, brutal, curvou-se mais, dobrou-a pelos quadris, como vime, estendeu-a mesmo ali no cimento morno, ajoelhando-se ávido e sedento sobre a carne palpitante que mordeu, voraz, sorvendo-lhe na boca beijos dum requinte cru, completamente dementado pela onda de luxúria amorosa que lhe agitava o sangue, como se um poderoso afrodisíaco enlouquecesse.” (p. 135/136)

16 “Retesou-se toda, sacudindo os ombros, espanejando os cabelos; e atirou-se-lhe, trémula, de encontro o peito, esmagou-lhe a boca, queimando lha, com o ardor bárbaro de seus vorazes beijos de luxúria. (…) Ela, inebriada, só instinto, deixava-se enganar, e torcia-se, gemendo incoerências, sob o forte amplexo dos braços que a cingiam.” (195-, p. 167)

17 “Moça desflorada que quisesse passar por donzela, se entrava mulher, era certo sair virgem da casa da rata-sábia sem hesitações. Ele dava uns pontos tão bem dados, cosia com tal perfeição, que nem o homem mais sabedor conseguiria descobrir o logro...” (p. 207)

18 “Beijara-a então, sôfregamente, violentamente, sacudindo aquela carne lânguida, dementado pela fogueira que lhe queimava o sangue, aguilhoando-lhe o instinto, martelando-lhe nas artérias, congestionando-lhe o sexo. (…)

O médico fitou-a quase surpreendido... mas, sem mais preâmbulos, antes mesmo de dirigir-lhe qualquer banal cumprimento, atraiu-a a si, esmagando-lhe a boca entreaberta, onde mergulhou a sua, com avidez desenfreada.

Beijou-a, mordeu-a, esfanicou-lhe as roupas até vê-la inteiramente nua, sob aquele manto luminoso de gase dourada...” (p. 216)

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
(...)

Resto dossier

As obras das autoras portuguesas censuradas pela PIDE

Nas últimas semanas, estivemos a olhar para a história da censura literária em Portugal, focando-nos nas obras das autoras que a PIDE censurou. Neste dossier, podemos ver análises de todas essas obras - um total de 21, escritas por 9 autoras. Dossier organizado por Ana Bárbara Pedrosa.

Escritoras portuguesas e Estado Novo: 9 autoras e 21 obras censuradas

No decorrer do Estado Novo, foram censuradas 21 obras de 9 autoras portuguesas. Salta à vista o número reduzido e a variedade de percursos destas obras, que têm ainda valores literários muito diferentes. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Três Marias: a censura de “Novas Cartas Portuguesas”

"Algumas das passagens são francamente chocantes por imorais (...) Sou do parecer que se proíba a circulação no País do livro em referencia, enviando-se o mesmo à Polícia Judiciária para efeitos de instrução do processo-crime." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria Teresa Horta: a censura de “Minha Senhora de Mim” (1971)

"Minha Senhora de Mim (1971) compõe-se de 59 poemas. Neles, a autora usa a forma poética das cantigas de amigo medievais, usando a literatura canónica – e, portanto, a tradição literária – para desafiar um status quo." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria Teresa Horta: a censura de “O delator”

"É uma peça nitidamente marxista, sem ponta por onde se lhe pegue: se fizesse cortes seria da primeira à última linha. Por isso reprovo.", pode ler-se num parecer da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de "Quem move as árvores" (1970)

"As relações dialógicas são constantes na obra de Fiama: se em O Testamento vimos que vida e peça se confundem, dialogando, em Quem move as árvores há um paralelismo temporal com alcance no passado, entre a época da monarquia e o Estado Novo. Em nenhum dos casos o povo escolhe, o poder é imposto." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de três peças num volume

"Auto da Família, consiste numa versão ou visão desprimorosa e desrespeitosa do Natal de Cristo, apresentando Maria e José como dois criminosos que, depois de terem morto, para os comerem, a vaca e a mula do presépio, abandonam o filho à porta do lavrador, proprietário da estrebaria onde os deixara alojar." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de “O Museu”

O tom absurdista da peça dificulta a sua análise, na medida em que, para além de não haver grandes relações dialógicas até nos próprios diálogos, se torna difícil descortinar as intenções da autora. No entanto, são mostrados dois grupos numa relação conflitual, em que um está submisso ao outro, recebendo acriticamente as suas instruções, viabilizando acontecimentos que servem os interesses do segundo. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de “O Testamento”

"A peça de Pais Brandão sugere que não pode haver espectadores na vida, que toda a gente tem de intervir em tudo o que à vida pública diz respeito, e é por isso que peça e vida se confundem, mostrando a autora que em tudo há relações dialógicas". Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “O Encoberto”

"Trata-se do desenvolvimento em estilo de 'paródia' de assunto histórico, com não poucas pinceladas pornográficas, à maneira de 'Natália Correia', com alusões ao povo português ou a figuras históricas com expressões de chacota e uma clara intenção de ridicularizar", pode ler-se no relatório da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “A Pécora”

Nesta peça, Natália Correia denunciou os poderes da Igreja e a relação estabelecida entre esta e o Estado, assim como o comércio religioso. Ao mesmo tempo, o povo tem consciência do seu poder colectivo. O Estado Novo não gostou. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “O vinho e a lira”

"Como a função destes Serviços não é de índole literária não cabe aqui a apreciação do valor literário desta obra que me parece nulo. Todavia há que assinalar as suas intenções e expressões que considero muito más.", pode ler-se no parecer da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de "O Homúnculo"

O Homúnculo contaria com a rápida censura, sendo de imediato apreendida, e, pasme-se, com a admiração de Salazar. No cenário, a autora denuncia ainda os pactos implícitos e explícitos entre os vários poderes que estruturavam a ditadura salazarista. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “O adolescente”

As orelhas da capa do livro faziam propaganda a dois livros proibidos. Assim, a PIDE proibiu também a circulação deste romance. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “A comunicação”

Este é um texto em que a autora apresenta uma ambiguidade entre poesia e teatro. A PIDE considerou que “o estilo irreverente e por vezes pornográfico da linguagem em frequentes passagens de algumas das quadras” obrigava à “reprovação da peça”, já que a sua “Indispensável sequência” impossibilitava “quaisquer cortes de saneamento”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “Pigalle”

Como em "Falsos Preconceitos", o romance parece inicialmente querer contrastar uma moral retrógrada portuguesa com uma França livre e moderna. Acaba por mostrar uma França imoral, perversa, desta vez palco de negócios de tráfico e redes de prostituição. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “Falsos preconceitos”

A PIDE considerou que “dada a imoralidade que o livro revela”, “não é de molde a ser autorizada a sua circulação no País”, e isto apesar de a obra ser de tal forma reaccionária que, afinal, se colocaria ao serviço do que o regime apregoava. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria da Glória: a proibição de “A Magrizela”

Nesta obra, não apenas há muitas situações sexuais como há muitas variantes que hão-de ter sido ainda mais problemáticas para os censores: sexualidade infantil, necrofilia (praticada por crianças), atracção sexual de uma criança pelo pai adoptivo, relações eróticas homossexuais, relações eróticas grupais, várias relações extra-conjugais. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Carmen de Figueiredo: a proibição de “Vinte anos de manicómio!”

O romance não foi censurado assim que foi publicado. É que, "como era feito por uma escritora”, os censores da PIDE nunca supuseram “que esta tivesse escrito com tanta realidade”.  O livro tem “um realismo tão cru e descrições de tal basévia e lubricidade que custa a crer terem sido escritas por uma mulher”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Carmen de Figueiredo: a proibição de “Famintos”

A PIDE censurou a obra “Famintos”, de Carmen de Figueiredo, considerando que esta se “refere a uma vida familiar romanceada, com descrição de acidentes trágicos, revelando caracteres mórbidos, aberrações sexuais e outras taras”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fotografia: ephemerajpp.com

Maria Archer: a proibição de "Casa sem pão"

"Casa sem pão" (1957) foi o segundo livro de Maria Archer proibido pela PIDE e deu azo não apenas ao processo mais longo sobre qualquer uma das suas obras, mas também ao processo mais longo que tratamos neste dossier. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fotografia: cvc.instituto-camoes.pt

Maria Archer: a proibição de "Ida e volta duma caixa de cigarros"

A PIDE censurou a obra "Ida e volta duma caixa de cigarros", de Maria Archer, considerando que este “não atingiu o alcance moral” e que a autora “compraz-se na volúpia do pormenor sensual”. Por Ana Bárbara Pedrosa.