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As farsas do Fundo Monetário Internacional

O nível técnico dos seus trabalhos é, em geral, e com notáveis exceções, de muito escassa qualidade e impermeáveis aos dados que mostrem o contrário do que defendem. Sem falar na incoerência entre o que o FMI impõe e o que faz na sua própria casa.
Tharman Shanmugaratnam e Chritine Lagarde, do FMI. Impermeáveis aos dados da realidade, até mudarem de opinião sem admitir que erraram. Foto de Internacional Monetary Fund.

Nos maiores fóruns de reflexão financeira e económica em Espanha existe uma atitude quase reverencial em relação ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Os seus relatórios leem-se com grande detalhe e as suas recomendações são levadas muito a sério. O FMI é, olhe-se como se olhe, uma das instituições financeiras internacionais com maior influência nos círculos mediáticos e políticos em Espanha, onde a sabedoria convencional se gera, reproduz e promove.

Conheço bem o FMI. A The Johns Hopkins University tem vários campus em Washington, onde está localizada a sede do FMI, e conheço muitos dos seus profissionais, que encontro em congressos, seminários e sessões profissionais. E sempre me surpreendeu o grande respeito que o FMI recebe nos círculos mediáticos e políticos espanhóis. E a minha surpresa deriva de que o nível técnico dos seus trabalhos é, em geral, e com notáveis exceções, de muito escassa qualidade (uma exceção ao nível de mediocridade é o Departamento de investigação económica que, por desgraça, tem muito pouca incidência no desenvolvimento das políticas do FMI). Quanto aos demais, entre os que se consideram “especialistas”, há grande quantidade de indivíduos formados em centros académicos dos EUA ou da Europa bem conhecidos por sua sensibilidade neoliberal, impermeável aos dados que mostrem o contrário do que defendem. E um de seus dogmas é a conhecida ênfase em diminuir os salários (que chamam de desvalorização doméstica) como forma mais eficaz para sair da crise financeira e económica. O FMI publica um relatório (em média a cada quatro meses) onde se repete uma e outra vez que a redução de salários é necessária para aumentar a competitividade e assim aumentar as exportações, aumento que irá estimular a economia e permitir aos países da periferia da Eurozona (o que inclui a Espanha) a saída da crise.

Conhecendo o FMI, garanto-lhes que em dois ou três anos mudará de postura e, sem pedir desculpas, promoverá outro dogma igualmente erróneo. Se não me creem, esperem um par de anos. Lembrar-se-ão de que há dois anos o FMI era um dos maiores promotores de outro dogma neoliberal: o de que a austeridade (cortes da despesa pública) era necessária para conseguir a recuperação económica. O FMI (junto com a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu) repetiu milhares de vezes que tinha de cortar, cortar e cortar a despesa pública a fim de reduzir o défice e a dívida, e com isso recuperar a famosa confiança dos mercados financeiros. Há menos de um ano, no entanto, o FMI mudou de opinião e alertou para que não se fizessem tantos cortes, pois os cortes de despesa público reduziriam a procura doméstica e com isso reduzir-se-ia a atividade económica e o crescimento económico. Por fim tinham visto a luz! Mas, pelos vistos, não se deram conta ainda de que a redução dos salários (20% em média na Grécia nos primeiros meses de 2012!) também cria um enorme problema de falta de procura. Garanto-vos que num par de anos o vão descobrir. Duvido que o façam antes pois são um pouquinho lentos. E entretanto, as suas políticas estão a fazer um enorme dano.

As falácias de sair da crise baixando os salários

Mas a situação é ainda pior, pois não só a sua recomendação de que baixem os salários é empiricamente insustentável, como também toda a evidência – que você, leitor, não verá muito nos meios de informação espanhóis – assinala que é uma das causas da crise, pois não só dificulta a saída da crise, como também a piora substancialmente pois, ao reduzir os salários, supostamente para serem mais competitivos, reduz-se a procura em todos os países (que competem para ver quem baixa mais os salários para serem mais competitivos) que estão em crise. E esta é a causa da crise na Eurozona, muito acentuada nos seus países periféricos.

Mas o que é inclusive mais indignante é que os dados mostram muito consistentemente que em nenhum destes países as suas exportações têm muito a ver com o nível salarial. A procura externa de produtos (origem das exportações) permaneceu estancada em toda a Eurozona durante o período 2008-2011. Houve variações dentro da cada país. Mas, em média, houve na prática um estancamento, dentro da Eurozona, do comércio entre os seus países membros, e isso apesar da redução salarial que ocorreu em todos eles. Na realidade, o crescimento das exportações dos países da Eurozona tem ido para países de fora da Eurozona, os países emergentes, onde os salários, na realidade, têm aumentado. E este crescimento não tem nada a ver com a redução dos salários dos países exportadores, mas sim com o crescimento dos salários nos países importadores (que estão fora da Eurozona) e com a redução do valor do euro contra as moedas daqueles países. Esta é a evidência que existe, facilmente constatável. Ora bem, garanto-vos que o FMI (bem como a Comissão Europeia e o BCE) continuarão a insistir que é preciso baixar os salários. Na verdade, os salários dos especialistas do FMI são (junto com os de outra instituição ultraliberal como a OCDE) os mais altos de todos os funcionários públicos internacionais, mostrando, uma vez mais, que não há relação estatística entre produtividade e salários. Ou, dito de outra forma: o nível salarial é uma variável política, mais que económica. A incoerência entre o que o FMI impõe e o que faz na sua própria casa, é enorme.

Artigo publicado por Vicenç Navarro na revista digital SISTEMA, 10 de janeiro de 2014

http://www.vnavarro.org/?p=10302

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha).
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