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“A expressão corporal tem uma ambiguidade fascinante”

Em entrevista ao esquerda.net, a coreógrafa e bailarina, Olga Roriz fala do seu percurso profissional, do estado da cultura em Portugal e também do espetáculo “Antes que matem os Elefantes” que estreia esta sexta-feira no Centro Cultural de Ílhavo. Por Pedro Ferreira.
A coreógrafa e bailarina, Olga Roriz. Foto de Danilo Pavone.

Descobriu a dança muito cedo o que lhe serviu para disfarçar a timidez e assim comunicar com os outros.

As brincadeiras habituais das outras crianças não lhe diziam nada, achava que eram violentas e por isso preferia ficar sentada na escada da escola a pensar.

Aos quatro anos a família muda-se para Lisboa e mãe colocou-a numa escola de dança dando assim início a um percurso que se foi estruturando e fez dela uma das maiores referência no campo da dança e da coreografia em Portugal.

Aos três anos já sabia o que queria ser. Como é que isso aconteceu tão cedo?

A dança entrou muito cedo na minha vida porque foi uma forma que eu encontrei de comunicar com os outros.

Mas era uma miúda tímida.

Precisamente por isso. Eu não gostava muito de brincar, achava aquilo tudo muito violento e, por isso, queria mostrar-me aos outros a dançar. Mas tudo o que eu fazia tinha sobretudo a ver comigo, era um prazer de natureza muito pessoal e, por esta razão, não era o típico exibicionismo que caracteriza o comportamento de muitas crianças.

Uma situação algo complexa.

Sem dúvida, mas a verdade é que entre os seis e os nove anos percebo o poder da dança e encontro aí o meu lugar.

Teve influências familiares ?

Não. Quando vim para Lisboa fui ter aulas com a professora Maria de Abreu que, tempos depois, disse à minha mãe que devia procurar uma escola que me possibilitasse outro tipo de evolução.

E foi para a escola do São Carlos?

Entre os 10 e os 19 anos, estive no São Carlos e ainda fiz dois anos de Conservatório. Depois fui para a Gulbenkian onde estive 19 anos.

Que entretanto já não existe.

Eu já lá não estava quando o Ballet Gulbenkian fechou. Foi uma grande perda para o público, para os bailarinos, para os coreógrafos e para os amantes da dança.

"Antes que matem os Elefantes" é um espetáculo sobre a guerra e o seu impacto no ser humano.

Entretanto criou a sua própria companhia?

Sim. Há 20 anos.

E enfrentou muitas dificuldades para a sua criação?

É mais difícil a sua manutenção. A gestão tem de ser muito criteriosa porque os meios financeiros são escassos.

Mas tem pelo menos um espaço físico.

Temos apoios públicos que, no entanto, representam apenas 30 por cento do nosso orçamento e por isso vivemos num estado de grande precariedade porque se os donos do edifício (Palácio Pancas Palha, em Lisboa) quiserem temos de sair em três meses.

Mas levou algum tempo até a sua companhia ter encontrado um espaço.

Durante 11 ou12 anos andámos com a casa às costas. Foi complicado porque exigiu um esforço e uma dedicação muitos grandes. Mas não desistimos.

Porque é que a cultura vive sempre com tantos constrangimentos em Portugal?

Acima de tudo, porque há pouco dinheiro.

Mas o poder não pode ou não quer apoiar a cultura?

Na minha opinião, não pode embora esta problemática seja mais vasta porque nós temos uma classe média pouco culta que não é estimulada durante o seu percurso escolar para a fruição cultural. Temos bons profissionais em todas as áreas mas há falhas que depois têm consequências negativas

E que falhas são essas?

A divulgação das diversas atividades culturais têm muitas deficiências e esta situação agrava-se nas grandes cidades. É preciso trabalhar em rede e ter meios de divulgação que permitam que a população tenha conhecimento daquilo que está a acontecer.

Sentiu dificuldades ao longo destes últimos anos fruto da crise em que Portugal mergulhou?

A partir de 2009 começámos a sentir mais problemas. Menos convites para espetáculos porque houve uma contenção em termos orçamentais por parte não só dos municípios como também de outras entidades. E a gestão de meios tornou-se ainda mais difícil.

No mundo da cultura há um quadro permanente de instabilidade. Porquê?

Conforme já disse, tudo é precário, incerto e também por isso muito exigente. A minha companhia não consegue contratar bailarinos por um período superior a três meses o que é muito complicado porque muitos têm de procurar outras formas de vida ou abandonar definitivamente a profissão. Tudo isto penaliza a estrutura de uma companhia e esta é essencial para que a parte criativa não caia em 'saco roto'. Resta-nos assim encontrar soluções com poucos meios financeiros. Em suma, vivemos sempre num impasse.

O que é que a fascina na dança?

A ambiguidade da dança através da sua expressão corporal é uma coisa extraordinária. Através dos movimentos é possível contar muitas histórias.

A coreógrafa Pina Bausch disse uma dia que"as palavras apenas evocam as coisas. É aí, que entra a dança.". Concorda com esta afirmação?

Na dança sentimos algo que muitas vezes não conseguimos traduzir por palavras o que alarga o campo do pensamento e da interpretação daquilo que queremos comunicar.

Ao fim destes anos o que é que lhe falta ainda fazer?

Sabe, eu trabalho muito diariamente e apesar de tudo o que já fiz, dos prémios que recebi, continuo a sentir a insegurança que, no fundo, é aquilo que me move. Costuma dizer-se que tudo já está inventado mas acabamos sempre por descobrir algo de novo.

É então um processo inacabado?

Sim, é duro mas gratificante. Aquilo que se faz de uma maneira pode ser feito de outra e há sempre coisas que nos ultrapassam.

Mas continua a sentir-se nervosa antes dos espetáculos?

Insegura. Não me preocupa fazer coisas novas mas sim o modo com as posso exprimir. Essa é a magia da criação.

Com os nervos sempre à flor da pele?

No dia em que não sentir essa insegurança, perco também a capacidade de me surpreender e nesse momento serei forçada a concluir que não vale a pena continuar.

O que é que a levou a escolher o drama da guerra para tema da sua próxima criação?

A minha inspiração é naturalmente fruto daquilo que me rodeia, do que oiço, vejo e sinto. Há um ano comecei a pensar em algo que pudesse expressar os afetos entre as pessoas ou a falta deles, uma família à procura de outro sítio, enfim era este o esboço. E, por razões óbvias, a desumanidade da guerra acabou por se impor.

Este trabalho é um grito contra o horror provocado pelos conflitos bélicos que estiveram sempre presentes na história da Humanidade?

É sobre a guerra e a sua condenação, sobre o impacto no ser humano, a morte e a sobrevivência. Analisei esta problemática e, em janeiro deste ano, estive na Grécia por causa dos refugiados sírios e acabei por levar um murro no estômago.

E quer devolver-nos esse murro?

Tenho um amigo que costuma dizer que o único vírus existente no Planeta é o homem. Não sei se as pessoas vão ficar incomodadas com este trabalho mas espero que, pelo menos, fiquem mais sensibilizadas. Esse é também o papel da cultura.


quase todos as crianças do mundo são confrontados com esta pergunta: o que é queres ser quando fores grande? As que sofrem com as guerras também respondem só que acrescentam : se não morrer antes.

O que é que poderemos ver?

Direi apenas que a sua construção foi muito dura, e foi concebido a partir do cruzamento entre o trabalho dos bailarinos e a utilização de meios audiovisuais.

Que experiências teve na Grécia?

A dignidade dos refugiados foi algo que me tocou imenso. Fui para Atenas com um caderno cheio de ideias mas queria estar mais perto e sentir o problema para enriquecer o trabalho. E a estadia acabou por ser muito produtiva mas teve um lado arrepiante.

Porquê?

Porque constatei que eles não aceitam ser tratados como 'coisas' e por isso indignam-se com o discurso daqueles que os querem obrigar a aceitar a inevitabilidade da guerra, da fome, do frio, da perda do pai ou da mãe. Nenhum ser humano está preparado para isto.

É esse o choque que pretende provocar na nossa consciência coletiva?

Cada um fará a sua leitura, mas é bom reter o seguinte: quase todos as crianças do mundo são confrontados com esta pergunta: o que é queres ser quando fores grande? As que sofrem com as guerras também respondem só que acrescentam : se não morrer antes.

O espetáculo “ Antes que matem os Elefantes” será ainda apresentado em Famalicão (28 de maio) e em Lisboa (15 e 16 de julho) no Teatro Camões.

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