“Vamos deixar Lisboa porque não somos ricos”

A gentrificação e o turismo de massas têm vindo a alterar o perfil da cidade de Lisboa empurrando para a periferia aqueles que têm menos recursos económicos. Recolhemos a opinião de pessoas que já detetaram esses sinais e algumas delas foram mesmo obrigadas a mudar o seu curso de vida. Por Pedro Ferreira.

08 de outubro 2016 - 9:45
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Não saio porque sou de Alfama e tenho valentia”

Não ponha aí o meu nome porque senão ainda fico com mais problemas lá com o dono da casa. Então ao fim de 40 anos anda a dizer-me que eu devia procurar uma casa mais pequena e com elevador. Eu disse-lhe que ainda posso comigo e até sei porque é que ele anda a dizer aquilo. Quer arranjar o prédio para fazer daquelas casas onde entram e saem pessoas todos os dias. Eu sou uma mulher honrada apesar de ser solteira e ter um filho. Fui olhada de lado por muita gente, o meu pai nunca mais me falou mas eu sei tratar de mim. No prédio onde vivo moravam quatro famílias e agora só estou eu os que moram no andar de baixo. Os outros foram-se embora e o dono não faz obras porque diz que não tem dinheiro e as rendas são muito baixas. O meu filho já me disse para eu ir morar com ele lá para o Seixal mas eu não quero. Tenho as rendas em dia, sou honesta e só tenho medo que qualquer dia o teto me caia em cima. Já fui à Câmara dar queixa dele mas até agora nada. Eles são todos iguais querem é dinheiro. Mas eu tenho valentia, sou de Alfama. E escreva lá Teresa que é meu nome. (Teresa, 68 anos, reformada, residente em Alfama, Lisboa)

Há zonas nobres da cidade transformadas em feiras ambulantes”

Faz-me impressão ver esta cidade tão desfigurada. Toda a gente exulta com a prosperidade do setor do turismo que eu até acho positivo, mas são poucos aqueles que se detêm a olhar para o caos urbanístico, a poluição sonora e a exclusão de tanta e tanta gente que dorme junto aos empreendimentos de luxo que nascem todos os dias.

Eu moro em Alvalade uma zona onde a maioria da população deve ter uma idade já superior a 50 anos ou mais e vejo muitas lojas a fechar e casas desabitadas há anos. Isto num país onde o problema da habitação nunca foi resolvido.

Por outro lado, as praças desta cidade que deviam ser tratadas com a nobreza que a nossa História lhes confere estão ao abandono ou então transformadas em feiras com barraquinhas de comes e bebes e artesanato de segunda. O que é que se pretende? Dizer às pessoas para visitarem uma cidade cheia de animação, bares e restaurantes mas onde os museus, os teatros e outros equipamentos culturais estão às moscas? O turismo à 'molhada', permita-me a expressão, está a dar cabo da cidade . Os bairros típicos que são um extraordinário cartão de visita estão transformados em albergues e os residentes, precisamente aqueles que lhes dão sentido, estão a ser escorraçados e não há renovação de moradores porque as rendas estão propositadamente inflacionadas. Onde é que queremos chegar? Dou a palavra a quem foi eleito para governar a cidade. (Teresa Coutim, 42 anos, gestora cultural, residente em Lisboa)

Já nem o Santo António nos salva”

Por aqui a vida está muito diferente, anda tudo à procura de modernices. Eu nasci naquela casa para onde estou a apontar agora e por lá fiquei até me casar. Era assim naquele tempo. Depois vim mais para baixo porque o meu falecido marido tinha um problema nas pernas e custava-lhe muito subir escadas. Criei sete filhos numa casa rasteirinha onde só havia dois quartos e uma cozinha. Eram tempos difíceis mas cá nos fomos governando a contar os tostões. Eu não quero sair daqui. Tenho uma vizinha que diz que devemos morrer no mesmo sitio onde nascemos. Mas isto está muito diferente. Eu até gosto de ver essa juventude por aí e só não falo mais com eles porque não os percebo. Só que às vezes fazem muito barulho e comportam-se de uma maneira que...sabe no meu tempo não era assim.

A minha casa ninguém a quer e ainda bem. Mas há aí gente que anda com medo porque os donos querem que eles saíam para fazer os hotéis ou lá o que é isso. E já houve quem se tivesse ido embora. Foi uma razia quando andaram a aumentar as rendas. E fecharam algumas lojas também. Mas o pior é o barulho. E as festas do Santo António que já não prestam para nada. Já nem maridos nos dão. (Maria Oliveta, 82 anos, reformada, residente na Mouraria, Lisboa)

A massificação turística é uma corrida desgovernada”

Lisboa é uma cidade muito bonita e por isso decidi mudar-me para cá há sete anos. Estes bairros com gente simpática e a roupa estendida nas janelas são uma inspiração para quem quer ter uma vida mais tranquila. Tenho notado algumas alterações nos últimos tempos porque há mais turismo e também mais gente nova oriunda sobretudo de outros países a viver por aqui. O bairro está a ficar algo descaracterizado, e parece que hoje é sobretudo um local de passagem temporária para quem vista a cidade ou faz estadias de curta ou média duração. Os laços de vizinhança, a solidariedade entre as pessoas está a desaparecer. Tenho conhecimento que há muitos problemas entre os inquilinos e os senhorios porque estes querem as casas para as transformar em espaços de turismo. Esta situação não se verifica só em Lisboa mas penso que as autoridades deviam ter mais cuidado na preservação da identidade da cidade que passa pela harmonização entre uma oferta turística de qualidade e a manutenção das suas características. Vejo por aí crimes urbanísticos terríveis e paralelamente o subaproveitamento de um património arquitetónico que é uma das maiores riquezas desta cidade. Mas o caminho que se está a seguir é a massificação que se transforma numa correria louca e totalmente desgovernada, como acontece em Itália Agora há muita procura de hotéis, hostels, mas eu pergunto se daqui a uns anos esta galinha do ovos de ouro não estará morta? E depois não sobra nada porque um dos exercícios mais curiosos que se pode fazer já é tentar encontrar um lisboeta a viver em Lisboa. Acredite que já é difícil. (Enrico Bianco, 47 anos, designer, residente na Graça, Lisboa)

Vamos deixar Lisboa porque não somos ricos”

Quis sair de casa para ir viver com a minha namorada. A nossa intenção sempre foi viver em Lisboa mas quando começámos a ver os preços das rendas essa ideia começou a desvanecer-se. Como é que é possível num país onde os salários são tão baixos, haver rendas de casas vulgares a mil euros ou mais? Foi um balde de água fria. De repente percebemos que estávamos numa cidade onde só podem viver os ricos. Acabámos por ter alguma sorte porque encontrámos uma casa antiga muito espaçosa que nos permitiu, depois de termos feitos algumas obras, concretizar o nosso sonho. Vivemos com outro casal amigo, dividimos a renda e as despesas de água e luz. Mas como há sempre um mas em todas as histórias, o proprietário da casa já entrou em contacto connosco para nos dizer que tem outros planos para o imóvel. Sem surpresa ou prodígios de imaginação quer transformar aquilo num alojamento local. E disse mesmo que este era o tempo de ganhar dinheiro rapidamente com o turismo em Lisboa. Confesso que não tínhamos contrato e assim não podemos fazer nada. Perdemos o dinheiro das obras e agora andamos outra vez por aí à espera de um golpe de sorte. Provavelmente vamos ter deixar a cidade e ir para a periferia porque não somos ricos. (João P., 29 anos, informático, residente em Lisboa)

Façam do Mosteiro dos Jerónimos um hotel de charme”

Tenho muito orgulho em ter nascido em Lisboa e era lá que pensava acabar os meus dias. Há três anos, o senhorio da casa onde eu morei durante mais de 20 anos aproveitou-se da lei das rendas e disse-me que ela tinha de sofrer um aumento significativo para poder fazer obras. Andámos nisto quase um ano e eu até cheguei a contratar um advogado que não fez nada. A renda que ele me propunha era incomportável, mais de metade o meu salário. Tentei negociar mas ele estava com outras intenções e disse sempre que não. Acabei por arrendar uma casa em Odivelas perto da zona onde vive a minha filha. Já a comprei porque quero dormir descansado. Vim a saber que ele transformou todas as casas que tinha em Lisboa – e eram algumas – em hostels e na minha vive lá um casal que, ao parece, que tem muito dinheiro. É nisto que está transformada a cidade. Roubaram-lhe a alma e agora anda muita gente satisfeita a fazer dinheiro com esta situação. À noite com exceção dos locais de diversão noturna não se vê nada nem ninguém. Há zonas completamente abandonadas e degradadas e o governo vira as costas à situação. Tinha a mania de dizer que já tinha visto tudo na vida. Agora só o voltarei a dizer quando um dia destes vierem anunciar que vão transformar o Mosteiro dos Jerónimos num hotel de charme. Se calhar já faltou mais. (José Mastro, 57 anos, engenheiro, residente em Odivelas)

Caminhamos para um apartheid económico”

Se hoje me pedissem para descrever Lisboa, eu diria simplesmente: hotéis, empreendimentos urbanísticos com nomes estrangeiros e preços proibitivos, cafés, bares e restaurantes que se dirigem preferencialmente a uma clientela endinheirada. Em conclusão e sem ponta de exagero posso afirmar que os portugueses estão a ser expulsos de Lisboa. A minha filha queria viver na cidade e não conseguiu, o meu filho teve de a abandonar porque deixou de conseguir suportar os custos da habitação quando nasceu o meu neto. Os resistentes, ou seja, aqueles que ainda aqui vivem já são velhos e muitas vezes os donos quando não podem fazer mais nada estão à espera que eles morram para se lançar noutras aventuras mais interessantes do ponto de vista financeiro. As cidades não são antros de negócios à toa e era bom que as autoridades tivessem a noção disso. Não tenho nada contra o turismo mas sei onde conduz a loucura da massificação. Há exemplos lá fora e por cá pelos vistos não aprenderam nada com aquilo que se fez no Algarve.

Gostaria de convidar o presidente da Câmara a pronunciar-se sobre qual o futuro que pretende para a capital do país. Uma cidade a caminhar para uma espécie de apartheid económico que só pode ser usufruída por quem tem poder económico? Ou um espaço que não vire as costas ao futuro mas que não se esqueça das suas raízes e da sua gente? Na minha opinião e se nada for feito temos a prazo mais um desastre pela frente povoado de elefantes brancos. E depois vamos ver quem paga a fatura. (Luís Campos, 61 anos, gerente comercial, residente em Oeiras)

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