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Vítimas húngaras das lamas vermelhas ganharam voz: “Vivemos numa prisão”

As famílias tiveram voz pela primeira vez num espaço que lhes foi proporcionado pela eurodeputada Marisa Matias no Parlamento Europeu e os seus relatos revelaram uma situação escabrosa numa União Europeia que se proclama, a todo o momento, campeã de direitos humanos.

“Praticamente vivemos numa prisão”. A senhora Molnar não necessitou de mais palavras para descrever o quotidiano de numerosas famílias da cidade de Devecser e da aldeia de Kolontar, no Sudoeste da Hungria, um ano depois da torrente de lamas vermelhas cáusticas ter invadido as suas vidas, terras e águas e que, não tendo meios de fugir para lugares salubres também não recebem apoios e indemnizações devidas a quem é obrigado a ficar. Doze meses depois da catástrofe, estas famílias tiveram voz pela primeira vez num espaço que lhes foi proporcionado pela eurodeputada Marisa Matias no Parlamento Europeu e os seus relatos sucintos e directos de pessoas muito simples revelaram uma situação escabrosa numa União Europeia que se proclama, a todo o momento, campeã de direitos humanos. (aceda à notícia: Mesmo ao lado do Inferno)

Não fora a iniciativa de Marisa Matias, que em finais de Junho se rodeou de uma pequena equipa e decidiu investigar no terreno o que se passava depois da tragédia de Outubro de 2010, e centenas de cidadãos húngaros, logo europeus, não conseguiriam romper a barreira de silêncio, rigorosamente vigiada, que se abateu sobre eles. O governo de Budapeste, então na presidência da União Europeia, empenhou-se mais em silenciar os acontecimentos do que em socorrer as vítimas. E encontrou nas instituições de Bruxelas – Comissão, Conselho e no próprio Parlamento – os aliados que melhor lhe serviram. O assunto, envolvendo a vida de milhares de pessoas, surgiu como um estorvo e não uma emergência. Num debate em plenário parlamentar realizado no dia 19 de Outubro de 2010 nem um dos eurodeputados húngaros falou sobre o tema. A única intervenção explicando o que se passava em Devecser e Kolontar, pedindo esclarecimentos e exigindo respostas, foi a da portuguesa Marisa Matias.

A eurodeputada organizou agora, exactamente um ano depois da sua primeira intervenção no plenário e recorrendo aos dados obtidos durante a viagem de Junho, uma audição pública parlamentar em Bruxelas sobre a tragédia, convidando membros das famílias atingidas, que assim tiveram, pela primeira vez, oportunidade de explicarem o que lhes acontece desde o fatídico 4 de Outubro do ano passado. A iniciativa da deputada eleita pelo Bloco de Esquerda teve o apoio do grupo político em que se integra, o da Esquerda Unitária (GUE/NGL).

Com Marisa Matias estiveram também na viagem e na audição a activista política húngara Kinga Kalocsai, natural da região atingida e dirigente do Partido dos Trabalhadores da Hungria 2006, a fotógrafa Paulete Matos e o realizador José Nuno Pereira, que testemunham e fixaram em imagens uma realidade pelos vistos comprometedora para quem desejou escondê-la. Filme e imagens estão disponíveis em exposição até sexta-feira num espaço do Parlamento, em Bruxelas; Marisa Matias compilou em livro – “Mesmo ao lado do Inferno” - a história da catástrofe, uma narrativa sustentada pelas fotos de Paulete Matos, humanizando uma situação onde as pessoas foram as principais esquecidas. A obra está em Português, Húngaro e Inglês.

Como é, então, esta “prisão” de que os habitantes de de Devecser e Kolontar não podem fugir? A limpeza dos efeitos da torrente de lamas tóxicas ainda não foi dada como concluída, prometendo as autoridades locais de protecção civil que tal possa acontecer em Dezembro, segundo Kinga Kalocsai. Mas a limpeza não significa o fim do pesadelo. “As nossas terras estão contaminadas, os nossos poços estão contaminados, a água não pode ser considerada potável, os rios deixaram de poder ser utilizados”, explica a senhora Molnar. “Os nossos lagos que estavam reservados à pesca ficaram inutilizados”, reforçou Rajmund Erdélyi.

Uma fonte escapou à torrente e hoje é o lugar mais procurado pelas pessoas em busca de água potável. Como é que isso aconteceu? “Foi a vontade de Deus”, responderam a Marisa Matias.

A tragédia foi provocada pela fábrica de alumínio MAL, uma sugestiva coincidência traduzida pela sigla de Magyar Aluminium Mermelo es Kereskedelmi Zrt. Por cada tonelada de alumínio produzida por esta instalação através do tratamento de bauxite geram-se duas toneladas de lamas vermelhas, fortemente cáusticas e repletas de metais pesados venenosos para o organismo humano, como é o caso do chumbo. Essas lamas são armazenadas em depósitos sem qualquer tratamento nem reutilização, ao contrário do que acontece noutros países produtores de alumínio. A Hungria produz cerca de sete mil toneladas de alumínio por ano, o que significa 14 mil toneladas de lamas tóxicas.

A fábrica MAL continua a laborar; já em Bruxelas, um dos membros das famílias atingidas recebeu um sms informando que o depósito nº6 apresenta fissuras, o mesmo problema que afectou o depósito nº 10 antes de rebentar. Com a queda do regime pró-Moscovo, a fábrica foi privatizada a preço simbólico com a condição de assegurar a produção com respeito absoluto pelas questões ambientais e a segurança das pessoas da região. Em 20 anos, porém, arrecadou lucros e acumulou lamas tóxicas. As condições dos depósitos degradaram-se com o tempo e as cargas de resíduos

Em Agosto último a fábrica foi nacionalizada, não tanto para resolver os problemas relacionados com os resíduos mas sim para militarizar a situação. Os acessos às instalações e à região passam a ser controlados pelo aparelho administrativo governamental, com apoio militar: a delegação de Marisa Matias terá sido a última a ter conseguido visitar a região. Kinga Kalocsai deu conta das dificuldades que lhe foram levantadas para que dois jornalistas do Le Monde se inteirassem da situação no local, o que não conseguiram. Ainda assim, Marisa Matias e Paulete Matos sofreram restrições ao seu trabalho, foram praticamente impedidas de permanecer juntas, de registar, por exemplo, imagens de culturas experimentais em solos vermelhos de lamas e poeiras.

A seguir à explosão do depósito nº10, a reacção das autoridades locais e de Budapeste foi do tipo “pouco podemos ajudar a não rezar e obter donativos”, resumiu Marisa Matias. “Nem podemos conhecer o destino desses donativos porque o processo não foi contabilizado”, acrescentou a eurodeputada.

O recurso às instituições europeias foi infrutífero. A eurodeputada sublinhou que no conjunto dos mecanismos legais existentes na União nenhum é adaptável à situação tal como se registou. O Fundo de Solidariedade, que terá sido invocado pelas autoridades, segundo um cidadão húngaro presente na sala e que se identificou como ligado ao ministério da tutela, também não pode ser utilizado uma vez que destina apenas “a catástrofes naturais”.

Marisa Matias acrescentou que a Comissão Europeia se limitou a enviar um grupo de cinco peritos para treinar as pessoas que foram envolvidas no processo de limpeza da região.

Na fase seguinte, o governo húngaro ofereceu novas casas às famílias que ficaram com as suas completamente destruídas, o que não aconteceu com as que ficaram danificadas ou com as famílias que quiseram procurar outro lugar para viver.

“Disseram-nos que vendêssemos as casas e comprássemos noutro lugar”, disse Lazlo Molnar; “ora só um louco estaria na disposição de comprar uma casa num sítio daqueles depois do que aconteceu. Foi como obrigar-nos a permanecer e sem nos darem garantias de que a situação não é preocupante para a nossa saúde”.

As incidências sanitárias da tragédia são outro problema, tornado mistério pelas autoridades, que não divulgam resultados das investigações e análises feitas às populações da região. “Queremos indemnizações, mas sobretudo queremos que nos digam a verdade sobre os efeitos na nossa saúde”, disse Lazlo Molnar. Mas essa verdade é coisa que, até agora, não conseguiram arrancar às autoridades. E, contudo, trata-se da sua própria vida.

“Ao princípio montaram um centro de socorros mas pouco ou nada fizeram”, explicou Janos Almasi. Entretanto, as lamas tóxicas transformaram-se em poeiras tóxicas que nenhum processo de limpeza poderá eliminar completamente pelo menos durante os tempos mais próximos. Um dos participantes captou um vídeo pessoal de um dia de vento naquele deserto em que a região se transformou e durante inquietantes minutos a nuvem que inundou o ecrã não deixa dúvidas de que, tendo carácter tóxico, será seguramente nociva para quem a respira dia após dia. “De dois em dois dias temos de limpar as casas, ficam cheias de poeira por todo o lado”, explica a senhora Molnar.

“Quando fazemos exames médicos dizem-nos que estamos bem”, diz Lazlo Molnar, “mas ninguém nos garante o que estas poeiras de metais pesados fazem aos nossos organismos e quais serão os efeitos que poderão ter na nossa esperança de vida”. Familiares presentes deram então conta dos dramas dos seus familiares mais jovens, crianças com deficiências respiratórias que se agravam constantemente, problemas psicológicos e muitas dúvidas sobre a evolução da saúde global de jovens que também não têm para onde ir.

“As nossas perguntas não têm respostas das autoridades”, diz Eva Horvath. “Quando perguntamos a quem nos dirigirmos para colocar os nossos problemas dizem-nos que façamos queixa aos tribunais. Aos tribunais? Nós, que somos pobres, que ficámos praticamente sem nada, onde é que vamos buscar dinheiro para lutar com o governo nos tribunais?”, interroga-se.

Na catástrofe de Kolontar e Devecser, a cerca de 160 quilómetros de Budapeste, morreram 10 pessoas e 150 ficaram feridas na ocasião. A área contaminada por cerca de um milhão de metros cúbicos de lamas cáusticas é de 50 quilómetros quadrados. Não há meios de conhecer, devido ao secretismo imposto pelas autoridades aos resultados das investigações e análises clínicas, quais poderão vir a ser as consequências reais do desastre a médio e longo prazo. Entretanto a Fábrica MAL pagou uma multa e continua a laborar intensivamente, como se nada tivesse acontecido. Umas famílias receberam casas novas, outras mantêm-se nas que tinham, mas todas continuam submetidas aos efeitos da praga vermelha.

“No século XVIII”, diz Lazlo Molnar, “foram publicados decretos reais proclamando o fim do feudalismo; hoje voltámos atrás desses tempos na nossa região, não podemos deixar a terra do senhor”.

“Temos de sobreviver um dia de cada vez”, diz a senhora Istvanné Sarik.

“Viver assim”, reforça a senhora Molnar, “é praticamente como estar na prisão; temos que viver nesta poeira horrível; ajudem-nos a sair dela, não temos solução”.

Hungria, União Europeia, Outubro de 2011

Artigo de José Goulão, publicado no portal do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu

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