Screen New Deal: uma distopia tecnológica à boleia da pandemia

A jornalista e autora Naomi Klein critica a aproximação do governador de Nova Iorque aos magnatas das tecnologias de informação, convidados para participarem na construção do futuro daquele estado num mundo pós-covid.

14 de junho 2020 - 13:49
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Naomi Klein

O governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, convidou figuras como o antigo líder da Google, Eric Schmidt, ou o fundador da Microsoft, Bill Gates, para integrarem uma comissão para imaginar o futuro daquele estado num mundo pós-pandemia. Cuomo não escondeu o seu entusiasmo quanto ao que entende ser esse futuro dominado pela tecnologia.

Num artigo publicado no portal Intercept, a autora de “Doutrina de Choque” diz que a tese exposta nesse livro, a propósito do furacão Katrina, se aplica agora à atual pandemia. Mas desta vez são os gigantes de Silicon Valley que procuram apropriar-se dos recursos públicos para construírem a sua distopia.  “E no centro de tudo isso está Eric Schmidt”, aponta Naomi Klein, acrescentando que “muito antes de os americanos entenderem a ameaça da covid-19, Schmidt fazia uma campanha agressiva de lóbi e relações públicas, vendendo exatamente uma visão da sociedade ao estilo “Black Mirror”, que agora Cuomo o capacitou a construir”.

Para Naomi Klein, essa visão passa pela “perfeita integração do governo com umas poucas gigantes de Silicon Valley — com escolas públicas, hospitais, consultórios médicos, polícias e militares, todos eles subcontratando (a um alto custo) muitas das suas principais funções a empresas privadas de tecnologia”.

Enquanto presidente do Conselho de Inovação em Defesa, que aconselha o Departamento de Defesa dos EUA sobre o aumento do uso de inteligência artificial nas forças armadas, e da poderosa Comissão de Segurança Nacional para Inteligência Artificial, que assessora o Congresso norte-americano sobre a mesma área, Schmidt tem promovido a sua visão ao lado de outros membros dessas comissões, como os líderes da Oracle, Amazon, Microsoft, Facebook e da Google.

A autora recorda que antes da pandemia essa visão enfrentava o seu maior obstáculo na desconfiança da opinião pública sobre as supostas maravilhas de um futuro guiado por apps e algoritmos: uma opinião pública preocupada “com a segurança, qualidade e iniquidade da telemedicina e das salas de aula online. Com carros sem condutor a atropelarem peões e drones a esmagarem pacotes (e pessoas). Com o rastreamento de localização e o comércio sem dinheiro a eliminar a nossa privacidade e a consolidar uma discriminação racial e de género. Com redes sociais sem escrúpulos a envenenarem a nossa ecologia de informação e a saúde mental dos nossos filhos. Com as “cidades inteligentes” cheias de sensores que substituem o governo local. Com os bons empregos que acabaram por causa dessas tecnologias. Com os empregos ruins que elas criaram em massa”, resume.

Mas acima de tudo, havia uma preocupação com a concentração do poder e da riqueza nas mãos de um punhado de magnatas das empresas de tecnologia e com o que isso representa em termos de ameaça à democracia. Cidades como Nova Iorque mobilizaram-se contra os planos da Amazon para abrir no bairro de Queens uma das suas sedes de operações em troca de apoios públicos milionários. O mesmo aconteceu em Toronto com a contestação à criação de uma “cidade inteligente” pela Sidewalk Labs, empresa da Google. As críticas apontaram o projeto como um exemplo acabado do “capitalismo de vigilância”, uma “visão distópica que não pode ter lugar numa sociedade democrática” ou uma forma de a Google usar os seus algoritmos “para influenciar o comportamento humano” de forma a favorecer os seus negócios.

Mas no momento atual, o pânico gerado pela pandemia pode ser a oportunidade pela qual estas empresas tanto esperavam para consolidar o seu poder e a sua omnipresença no espaço público. Com um argumento adicional junto do poder político: a necessidade de não ficarem para trás em relação aos avanços tecnológicos chineses nas mesmas áreas.  

Aulas sobrelotadas são risco para a saúde? Que tal contratar o dobro dos professores?

Se não existem dúvidas de que a tecnologia é hoje essencial para a proteção da saúde, a questão, para Naomi Klein, é se “essa tecnologia estará sujeita às disciplinas da democracia e da supervisão pública ou será lançada no frenesi de um estado de exceção, sem responder a perguntas críticas que vão moldar as nossas vidas nas próximas décadas”. E a primeira dessas perguntas é saber se “os nossos dados devem realmente estar nas mãos de entes privados como Google, Amazon e Apple”. Outras serão saber se o investimento público nessa tecnologia não deveria garantir a sua propriedade pública, ou se a internet não deveria ser tratada como um serviço público sem fins lucrativos.

Por outro lado, a ideia de que a tecnologia oferece uma solução para tudo também deve ser contestada, aponta a jornalista. “Schmidt está certo ao dizer que as salas de aula sobrelotadas apresentam um risco para a saúde, pelo menos até termos uma vacina. Então, que tal contratar o dobro de professores e reduzir o tamanho da turma pela metade? Que tal garantir que toda a escola tenha um enfermeiro?”, questiona Naomi Klein, sublinhando a vantagem desta solução num momento em que o desemprego dispara para níveis nunca vistos desde a Grande Depressão.

Em resumo, “o problema de entregar a homens como Bill Gates e Eric Schmidt as principais decisões sobre como ‘reimaginar’ os nossos estados e cidades é que eles passaram a vida a afirmar a sua convicção de que não há problema que a tecnologia não possa resolver”, conclui Naomi Klein.

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