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Rastreamento.pt é o site que faz pensar antes de instalar

O site lançado pela D3, associação de defesa dos direitos digitais, reúne informação sobre as apps de rastreio de contactos para que as pessoas possam formar a sua decisão de instalá-las (ou não) nos telemóveis. Ricardo Lafuente, um dos autores da iniciativa da D3, explicou-nos o que está em causa.
Foto torbakhopper/Flickr

O site rastreamento.pt está online há poucos dias e pretende dar respostas às dúvidas dos utilizadores sobre as aplicações de rastreamento de contactos que supostamente avisam quando alguém esteve próximo de uma pessoa com teste positivo à covid-19.

“Arrancámos com esta plataforma para providenciar um meio de informação sobre as apps de rastreio de contactos (ARCs), para ajudar as pessoas a determinar informadamente se faz sentido ou não instalarem uma app desse tipo”, explicou Ricardo Lafuente ao esquerda.net.

O ativista da D3 diz que a associação recebeu várias perguntas sobre o assunto, “e nós próprios também tínhamos algumas dúvidas”. “Com o tempo, foi-se tornando evidente que existem vários aspetos a levantar para além do discurso tecno-otimista que foi sendo veiculado nos meios de comunicação”, afirma Ricardo Lafuente.

E assim surgiu a ideia de criar esta página na internet para preencher “uma lacuna na clarificação dos pormenores e dilemas colocados por estas aplicações”, tendo em conta que “boa parte da população partilha da mesma confusão em compreender o que está em jogo”.

Mas afinal qual é a eficácia real destas apps de rastreamento de contactos no combate à pandemia? Para Ricardo Lafuente, é aqui que residem as maiores dúvidas, dado tratar-se de “um mecanismo muito recente e muito pouco testado”. No entanto, há um aspeto importante a reunir acordo na comunidade científica: “é necessário a maioria de uma população (de 50 a 75%, sendo o número mais citado os 60%) instalar e seguir à risca os procedimentos que a ARC implica”.

E é aqui que surge o primeiro obstáculo, prossegue Lafuente. É que “atingir esse número é impossível com uma ARC de uso voluntário, e explicamos porquê na resposta à primeira das perguntas no site”. Ali é lembrado que mesmo num regime "musculado", como o de Singapura, apenas 20% da população tinha descarregado a app do governo ao fim de um mês desde o lançamento.

Mas existem outros problemas para os quais o dirigente da D3 entende que “ainda não vimos resposta satisfatória”. Um deles é que “o Bluetooth não foi desenhado para medir distâncias e não é possível determinar se pessoas estão a 1 ou 4 metros entre si. A essa imprecisão juntamos o problema de que atravessa vidros, acrílicos e paredes, registando contactos que não existiram”, alerta Ricardo Lafuente. Por exemplo, se estiver “uma pessoa dentro de um café e outra na esplanada com um vidro a separar, ou dentro dos seus carros num engarrafamento”. Nestes casos o sistema vai dar o alerta e o resultado será “gerar um conjunto enorme de falsos positivos que vão levar muita gente a isolar-se enquanto espera pelo teste, com a consequente ansiedade provocada”

Os ativistas questionam ainda o valor epidemiológico de uma rede de contactos com tantas falhas e prometem desenvolver estes argumentos no rastreamento.pt nos próximos dias.

Mas para além das apps relacionadas com o Covid, há outras apps que vão surgir à boleia das necessidades de distanciamento por causa da pandemia. É o caso das apps que informam sobre a lotação das praias. Ricardo Lafuente diz que “são casos distintos”. “As ARCs são profundamente sensíveis porque vão lidar diretamente com informação clínica altamente confidencial. Uma app de ocupação das praias, à partida, deverá ser um recurso de consulta simples, que comunica o estado de ocupação de uma praia”.

No entanto, a D3 diz-se preocupada com informações de que essas apps “poderiam também ser empregues para recolher informação sobre a lotação das praias através da recolha do sinal dos telemóveis das e dos banhistas. Este seria um desenvolvimento preocupante, e estamos ainda à espera de um sinal claro das autoridades que não irá haver abusos no acesso aos telemóveis das pessoas”, refere o ativista.

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