Está aqui

Quim Arrufat: "Não somos nacionalistas conservadores, somos independentistas de classe"

Para um dos novos deputados das Candidaturas de Unidade Popular (CUP), a soberania catalã tem de ser uma ferramenta de transformação social para as classes populares, e portanto deverá ter conceção política totalmente integradora, multicultural.
Quim Arrufat: "A Catalunha é uma nação, isso é reconhecido por todo o mundo. Mas não porque tenhamos de impor o catalão, mas porque há caraterísticas económicas, sociais, culturais, linguísticas, que fazem com que sejamos – como povo, como sociedade – substancialmente diferentes".

Quim Arrufat (1982) é um dos três deputados com que se estreia a Candidatura d'Unitat Popular (CUP) no Parlament da Catalunha. Desde 2009, é vereador em Vilanova i la Geltrú (Barcelona) e logo deixará o cargo, porque um dos limites que os membros da CUP se auto impõem é não poderem acumular cargos. Arrufat esclarece que, de facto, "seria impossível", porque a CUP vai ter três deputados que não param de trabalhar.

Como avaliam os resultados da CUP?

A avaliação é positiva. Apresentávamo-nos para termos representação, se não, não o teríamos feito. Não era um salto ao vazio, pois achávamos que havia uma falta de discurso e, com um projeto municipalista atrás que o avalizava, nós tínhamos opções reais de o fazer possível. Lamentamos não ter conseguido deputados em Tarragona ou Girona, que ficaram muito perto e há anos desenvolvem uma prática política e uma luta muito válidas, mas são eleições com uma participação excecional, que nos surpreendeu a todos. Neste sentido, se Solidaritat, com 100.000 votos, elegeu quatro deputados, nós mal atingimos os três com 126.000.

E quanto aos resultados em geral?

Consideramos a perda de cadeiras – não tanto de votos – da CiU, como um castigo pelos cortes, o pacto com o PP, mas sobretudo a arrogância de ter querido vincular, de forma grosseira e partidária, a possibilidade de liberdade política para este país com a sua própria vitória como projeto político determinado. Também houve uma reação espanholista, veiculada através de Ciutadans, por um desmembramento discursivo e organizativo do Partido Socialista. É uma reação preocupante porque estas eleições eram entendidas por uma maioria social na Catalunha como plebiscitárias, não tanto pela independência mas pela condição prévia ao direito a decidir. Portanto, a proposta espanholista, basicamente, e à margem de todos os medos identitários, é não nos deixar decidir. É um voto de proibição da liberdade de decidir, que em termos práticos nega a sociedade catalã, afirma: “não, isto também não podem fazer”.

O aumento desta votação reflete que não há uma maioria social clara a favor da independência?

Não sabemos. Este é o principal problema, porque não podemos nem consultar. O que sim há é medo em relação à independência. Mas os resultados são que há 87 deputados a favor do direito a decidir, uma maioria nítida e clara numas eleições com alta participação, portanto achamos que o passo mais lógico e democrático é convocar um referendo de autodeterminação contra ventos e marés.

Será fácil de convocar no panorama atual?

Há que diferenciar as coisas. Uma é formar governo, de uma autonomia que há 40 anos que queremos morta, porque não nos está a servir para nada em absoluto – e não em termos de défice fiscal, mas para decidirmos como queremos a nossa sociedade –, porque não tem competência para nada do que é substantivamente importante para as classes populares. O Parlament é outra coisa e não tem que governar, tem maiorias para determinadas coisas. A Assembleia Nacional Catalã, com muito má visão política e muito mau entendimento do momento, pediu um governo forte para levar à independência, que basicamente é um governo da Convergència. Erro, mais uma vez. Desvinculemos uma coisa de outra. Se há uma maioria social expressa nas urnas favorável à autodeterminação, numa campanha onde foi o tema central, não importa o governo forte. Temos de fazer passar o direito democrático acima do possibilismo ou da gestão concreta do dinheiro dos orçamentos. São duas coisas diferentes e, se voltam a vinculá-las, voltaremos a meter o pé na poça, como CiU já fez, com o seu interesse legítimo de se apropriar absolutamente de todo, vinculando a possibilidade da independência ao seu projeto político e económico, o que, por outro lado entendemos que é nefasto para a Catalunha.

A que se devem os resultados da CUP?

É um mistério saber por que as pessoas votam na CUP: há mil motivos. Nós fazemos uma leitura da realidade que se resume em três eixos: democrático, social e nacional. Quando dizemos “Ho volem tot” (“Queremo-lo todo”), não é só uma frase feita, acertada ou utópica. Entendemos que há três grandes crises, três grandes desafios lançados na rua: a mobilização por uma democracia real, aquela, como na última greve geral, contra o facto de que paguemos a crise entre todos, contra o poder financeiro e a dívida, e finalmente pela máxima liberdade política, pela capacidade de decidir do povo catalão. Estes três eixos, que são as três pulsões que saíram à rua em grandes ondas de mobilização, são o que defendemos. Por isso também dizemos “És l'hora del poble” (É a hora do povo). O povo não somos nós, a CUP é um elemento mais.

Porque é a hora do povo?

A chave é que estas questões estão a ter zero continuidade nas estruturas institucionais, numa transposição legislativa. Atenção! Porque está a ser feita uma barreira, que começa a não ser de matizes. Ou lutamos e impomos estas mudanças e começa a mover-se algo, ou basicamente estamos a deduzir que o sistema no seu conjunto é anti-nós. Lemos três grandes crises, três grandes desafios e três grandes propostas de para onde deve ir a sociedade: para uma democracia real, para uma redistribuição da riqueza que passa por fazer mudanças substantivas com a reforma do poder financeiro – não com a reforma laboral – e na liberdade política deste país para resolver a contradição nacional.

Há muitas maneiras de abordar a questão nacional.

Nós não somos nacionalistas conservadores, nem etnicistas, nem racistas, somos sobretudo independentistas políticos e de classe. Queremos ter soberania para poder decidir como queremos que seja a nossa economia. Para que ganhe a maioria, claro. Para poder decidir como povo catalão o que queremos, não para dizer aos que não falam catalão “você é menos importante”, ou o que quer que seja. Isso é uma invenção da direita. Na CUP acho que votou tanta gente catalanofalante como castelhanofalante. Muitas vezes, esforçam-se para que não possa existir este espaço político que proponha a soberania catalã como uma ferramenta de transformação social para as classes populares e portanto com uma conceção política totalmente integradora, multicultural. É evidente que a Catalunha é uma nação, isso é reconhecido por todo o mundo. Mas não porque tenhamos de impor o catalão, mas porque há caraterísticas económicas, sociais, culturais, linguísticas, que fazem com que sejamos – como povo, como sociedade – substancialmente diferentes da sociedade do lado e, portanto, faz-nos falta um enquadramento que nos permita decidir, com toda a pluralidade da nossa sociedade, o que queremos ser. Não é o nacionalismo conservador, que diz que somos catalães porque falamos catalão. Não é por isso. É porque temos uma língua própria que nos torna, como sociedade, fale o que falar, diferentes de Madrid, onde não há este problema. Esta e muitas outras questões – uma configuração económica determinada, uma fiscalidade determinada, uma história da burguesia e das classes trabalhadoras determinada – fazem com que consideremos que a sociedade catalã merece soberania para decidir, e enquanto não tiver este elemento de transformação social, não a deixarão decidir nada. Entre o Estado espanhol e a burguesia latifundiária espanhola e a nossa burguesia, tentaram converter esta campanha numa luta de bandeiras entre o Partido Popular e a CiU para polarizar o voto e que todo mundo votasse na direita. É o negócio do nacionalismo conservador. Sempre foi este, enfrentar classes trabalhadoras com projetos burgueses em que nem uns nem outros se interessassem por ti.

Então o voto na CUP não foi necessariamente independentista.

Não, muita gente não-independentista votou na CUP. Entendemos que a formulação política que fazemos, não só quanto à democracia radical ou à luta social, mas também ao tipo de independência e de soberania que propomos, ganhamos gente a favor dessa ideia determinada de independência. Somos novos independentistas, não nacionalistas, anti-independência burguesa. Somamos gente à ideia de que é possível construir, e isto não vai contra os espanhóis. Se em Madrid ou Múrcia se sentem espanhóis por igual, parece-me muito bem, mas isto não tem de implicar em que não possamos decidir como povo. É uma formulação que foram matando nos últimos 20 ou 30 anos. O nacionalismo trabalha para tentar açambarcar toda a ideia da Catalunha numa só causa política, que é a da burguesia catalã. Até conseguiu que o nacionalismo da ERC se pareça muito com o da CiU. Com a diferença que a ERC não tem os mesmos interesses empresariais, mas a conceção teórica do seu nacionalismo parece-se muito. Foram matando uma pulsão histórica; quando houve momentos de mudança, mobilizações sociais fortes, a questão nacional deixou de ser um problema para as classes populares, e começou a ser entendida como parte da libertação.

Por exemplo?

Salvador Segui no século XIX ou a mesmo a CNT nos anos 30. Não tinham nada de independentistas, mas não tiveram nenhum problema em constituir o Comité de Milícias Antifascistas só na Catalunha e declarar que era um governo independente, fazer as coletivizações aqui e depois federar-se com os outros. E o PSUC, na transição, maioritariamente formado por trabalhadores imigrantes, também. Não há nenhum tipo de problema quando as classes populares ganham em adotar as liberdades nacionais como forma emancipatória, e esse PSUC de maioria castelhanofalante inundou de bandeiras catalãs o 11 de setembro de 1977. As CUP estão a tentar recuperar isto. Iremos formulando e atualizando isso conforme as pessoas estiverem de acordo com necessidades, com as classes populares outra vez em marcha, e não vinculados a figuras históricas que nos tenham de impor um determinado nacionalismo. Após a crise, parecia que a sociedade estava adormecida e de repente está a reorganizar-se de forma bastante invejável e está a reformular os termos do discurso político que interessa às classes populares. Está-se a formular outra vez o catalanismo popular, o independentismo político que tentamos definir.

A CUP nasce da Esquerra Independentista. Viu-se esta desbordada pelo apoio social que recebeu a CUP?

A Esquerra Independentista, num cálculo aproximado, não tem mais de 2.500 militantes nos Países catalães, mas são muitos. E são 2.500 ativistas, que lhe dedicam dias e dias por semana. Tende-se a menosprezar muito a Esquerra Independentista, mas conseguiu nos últimos dez anos tecer uma rede de 140 casals e ateneus, que nas vilas ou bairros onde estão são motores de muito ativismo, repolitização, debate de ideias... Apesar disto, a Esquerra Independentista viu-se ultrapassada pela CUP já nos municípios, com 100 vereadores e muita expetativa. Agora a CUP viu-se ultrapassada, não pelo sucesso na eleição de deputados, mas pela quantidade de pessoas que querem participar, não no partido, mas neste espaço que está a ser criado. A questão é como reformular toda a nossa organização com isto. Não diremos às pessoas que se façam militantes da CUP, porque não buscamos crescer em poder como partido, mas dar poder às pessoas e ao projeto político, que se chamará CUP ou como bem entender. Sempre dissemos que as CUP nos servirão até onde servirem. As organizações veem-se ultrapassadas e há que repensar o espaço político, e isto é positivo. As soluções não estão escritas em parte nenhuma e temos de repensar, o que é um desafio interessante.

Como funciona o municipalismo?

Vilanova é de cidade a mais de 20.000 habitantes onde a CUP teve mais percentagem de votos, de modo que nos correu bastante bem, mas não há uma fórmula mágica. São muitas horas de dedicação. As esquerdas deste país explicaram às pessoas durante muito tempo que o mais prático e inteligente não é militar e perder muitas horas, mas fazer políticas de distância e confiar nos partidos políticos. Nunca foi assim. Quando as classes populares tiveram organizações realmente potentes neste país, foi porque participou muita gente, que se deixou horas, que fez muita militância. As pessoas às vezes esquecem isto e dizem-nos: “Bom, correu-vos muito bem” e parece tudo muito fácil. Aqui há muita gente que trabalhou muitas horas em muitos âmbitos diferentes, da Esquerra Indepentista e de fora, que são os proprietários disto. A gente chama-lhe assembleismo, mas é basicamente respeito absoluto, porque o projeto não é nosso e sim de toda esta gente.

De onde vem este modelo?

Aprendemos muito dos três grandes exemplos de municipalismo popular que se mantiveram com a Assembleia da Catalunha quando todo o mundo se filiou aos partidos na Transição, que eram Arbúcies, Sant Pere de Ribes e Ripollet. Os três que mantiveram estruturas assembleares e unidade pela mudança. Os sítios onde melhor aguentou foram Ripollet e Ribes. Em Ripollet tinham um sindicato e uma candidatura e em Ribes, uma entidade cultural e uma candidatura. Na maior parte dos lugares onde foi avante o projeto que chamamos de unidade popular há um ateneu, uma plataforma de luta social, e uma candidatura. Um espaço de luta social permite a confluência de sindicalismo alternativo com organizações políticas. O ateneu serve para ligar toda a gente. É importantíssimo para a esquerda ter espaços abertos às pessoas sem nenhum tipo de medo, não se fechar nunca num escritório, também para ter debates, para formar as pessoas, repolitizando uma sociedade profundamente despolitizada. Quando começa a crise entendemos que temos uma sociedade e classes populares em Marte, vivendo na outra ponta do planeta. Os ateneus serviram muito para formar uma juventude, a partir da ideia de Ribes de uma candidatura e um ateneu potente que faça atividade cultural, recupere cultura popular, ponha debates sobre a mesa, junte gente, faça comunidade, crie cooperativas... Em 10 ou 12 anos as pessoas foram fazendo 140 casals e ateneus sem que ninguém o dissesse. Isto não se decide num escritório, é muita gente trabalhando, muita gente criando o projeto.

Como candidatura como convocam as pessoas?

Em Vilanova organizamos uma ou duas assembleias populares por ano e há umas 380 pessoas inscritas, que é toda a gente que passou e quis inscrever-se para continuar a receber os documentos das assembleias, enquanto militantes da CUP em Vilanova só há 18 inscritos. Há muita gente que nos segue mas que luta, por exemplo, na educação e quando há uma assembleia popular vem. não quer ser militante da CUP, mas acha que é um projeto válido e quer participar. Nós dizemos-lhes que não se façam militantes, porque são muito úteis na luta que estão a fazer. Graças a eles há esperança, não graças à CUP.

E como se passa tudo isto para o Parlament?

Confiamos bastante na experiência dos municípios, onde o epicentro sempre é a rua e cuidar as pessoas que lutam, que é mais importante que a tua sobrevivência como partido. Nos municípios sempre pensamos: se nas próximas eleições ficamos a zero vereadores, que a nossa passagem por esta aventura deixe um tecido muito potente. Não utilizar todo o mundo para uns resultados eleitorais, que é o que fizeram os partidos de esquerda nos anos 80, destruindo todo o tecido associativo polo seu sucesso eleitoral. A nossa obsessão é a oposta e isto faz-nos trabalhar com o epicentro na rua. Por isso há que estar na rua, na instituição e na criação de alternativas. Cada vez é mais importante acompanhar as cooperativas de consumo, finanças éticas, meios de comunicação alternativos... Pôr em prática a sociedade que aspiramos conseguir, porque, senão, tudo é uma mentira.

Que função desempenha a CUP neste novo âmbito?

Há uma função básica que as pessoas esperam que cumpramos no Parlament, que é extrair informação, socializá-la, fazendo uma leitura e pedindo muita. Há um desconhecimento profundo e absoluto do que se está a cozer nos locais de não-decisão democrática deste país. Não-decisão porque os nossos representantes são incapazes de decidir uma coisa que vá contra quem está a ditar as ordens do outro lado. Perderam a capacidade de se opor e de enfrentar e de fazer programas alternativos, tudo é imposto polo mercado financeiro, pelo Estado, pela União Europeia, que é basicamente uma extensão do mercado financeiro bem planificado.

Depararam-se com essa incapacidade de decidir?

Nós já estamos habituados a abandonar o plenário municipal. Fizemo-lo três vezes. O Estado diz que tens 25 milhões de euros em faturas que não podes pagar, pede-tas e paga-as, mas impõe um crédito. Para este crédito, passa-se a lista de bancos com que tem que assinar, e diz que já negociou os juros e que serão 6%. 6%? Mas deixaram ao banco dinheiro a 1%, e recebemos a lista e aí estão o Bankia, a CAM, todos os ladrões. não havia nem um que se salvasse. Isso significa que passamos de ter faturas atrasadas no valor de 25 milhões de euros a dever 25 milhões e 10 milhões mais de juros que vão para bancos sob intervenção, aos quais o Estado deixou dinheiro e agora nos obriga a pagar. É um refinanciamento descarado dos bancos fechando serviços, mas chega ao plenário a votação da aceitação deste crédito e nós dizemos: a Candidatura está contra. Então salta o secretário e diz-nos que, pela reforma da Constituição, não podemos votar contra porque podiam pedir-nos responsabilidades penais.

A lei manda votar em pleno, mas não podemos tomar nenhuma decisão que não seja sim, porque se não a prefeitura sofre intervenção. Pois até aqui chegamos, a mim não me elegeram para que me digam o que tenho de votar. Pro caralho, homem! Tivemos de fazê-lo mais duas vezes, porque chegam portarias fiscais e dizem: “O que votastes em março...” Mas nós não votamos! Pois aí os bancos já diziam como tínhamos de subir os impostos nos próximos anos. Então porque fazemos o plenário se não pode haver uma decisão democrática? Que nos notifiquem do que decidiram os bancos e lemos em casa. Não serve de nada irmos ao plenário, é um simbolismo, mas não é que sejamos tipos esquisitos, é que é muito sério, destruíram a democracia municipal e, por intuição, na Generalitat está a acontecer a mesma coisa. Estão a intervir na pouca democracia que existia.

Quais serão as vossas prioridades no Parlament?

A primeira é, por lealdade ao que passou nas eleições, para poder começar a ter soberania, que seja convocado o referendo de autodeterminação, por dignidade. Mas depois entendemos que as funções que teremos no Parlament serão obter informação e fazer de tensor político. Demo-nos conta que se entras nas câmaras municipais e com todas as tuas propostas, toda a tua exigência de transparência, questionamento disto e do outro, às vezes mais simbólicas, às vezes mais importantes, de repente muda o debate. Fica um pouco mais estridente, porque questiona as bases sobre as quais se fizeram as coisas nos últimos 20 anos por parte de todos, e de repente reposicionas os outros. Obriga as esquerdas a se reposicionarem ideologicamente. Dizem: Se estes estão a dizer coisas em que acredito mas estão tão afastadas do que digo, é que estiveram bastante fora de lugar nos últimos anos. Isto servirá de tensor, porque é óbvio que o espaço político que tem poder transformador começa a ganhar aos mercados.

Não somos nós, será a maioria social deste país, que terá de ter uma prática política e um discurso e uma interferência representativa nas instituições ou onde for, que terá de ter um discurso consequente com as mudanças necessárias para poder redefinir a realidade, e isto, neste momento, não está nas esquerdas institucionais. Há que pressionar esta esquerda e dizer-lhes que deixem de fazer um discurso de “se ganhássemos nós íamos fazê-lo melhor”. Não, porque não fizeste melhor e porque as condições objetivas das instituições obrigavam-vos a impor novos cortes. Porque mentem se sabem isso? Porque disseram que subiriam o imposto de sucessões ou inventariam uma taxa que é impossível de aplicar porque não temos um Estado nem soberania para o fazer? Por que dizem às pessoas que sem saírem do sofá vão solucionar-lhes a vida e tudo voltará a ser como antes? Vamos lutar contra a direita, mas também pensar a esquerda. São duas coisas diferentes. Os nossos inimigos não são a esquerda institucional deste país, mas esta deve pensar e refletir.

O objetivo para as próximas eleições seria uma candidatura de esquerda mais ampla?

O objetivo é que a maioria social deste país, as classes populares, tenham uma organização representativa que possa aplicar um projeto em benefício de todos, com os princípios da esquerda, de igualdade, justiça, redistribuição justa da riqueza. Isto tem de ser conquistado pela maioria social deste país. E consequentemente, duvido muito que a CUP, só, a tenha um dia. O bom seria que o espaço da esquerda nos próximos anos se fosse reconfigurando. Isso não quer dizer que, como governa a direita, juntemos a esquerda a qualquer preço, sem programa e sem saber aonde vamos, que é o que estão a propor agora. Isto não serve de nada, a não ser para ter outro fiasco como o tripartido [governo do PSC, a ERC e a ICV que governou a Catalunha entre 2003 e 2010] e ir aumentando o problema.

Antes de se unir as esquerdas e criar frentes amplas, devem ter um programa e uma prática políticas por trás. A prática política é importante porque alguém tem de defender a obra do governo. Haverá inimigos que, se não pegarem nas armas, pouco lhes faltará, quando começarem a fazer-se mudanças. Aqui e em todas as partes foi igual. Ou há um grande movimento popular por trás, orgulhoso de si, com confiança, organizado, com estruturas, e isto não quer dizer um partido, mas uma consciência social, um tecido, com que te podes relacionar de formas muito diversas e prestar contas, ou não serve de nada. Porque ao começar a governar, no primeiro mês esmagam-te vivo, portanto só pela tua sobrevivência física deixas de dizer metade das coisas. Que é o que aconteceu, noutro contexto, com o tripartido.

Eu, por trabalho, reunia-me com a ERC ou a ICV e diziam: o grupo Godó esmaga-nos, não podemos fazer nada... Se não podem fazer nada governando, porque o grupo Godó vos esmaga, têm um problema. Deviam ter pensado nisso antes. Ou gostavam de explicar a história de que com gravata e apresentando-vos às eleições e com suficiente apoio para governar isto já estaria feito; mas não é assim. Isso significa que não vivemos numa democracia plena, que o poder do voto das pessoas não é suficiente para mudar as coisas, porque fora das instituições democráticas – que de facto, no que é importante, já não são nem democráticas – continua a haver, cada vez mais, um espaço de poder onde se tomam decisões que nos afetam, e cada dia é maior e não o controlamos. Nem o legislamos, nem o controlamos e ele governa-nos.

4 Dezembro 2012

Publicado no El Diario, traduzido para galego pelo Diário Liberdade e para português por Luis Leiria para o Esquerda.net

(...)

Resto dossier

Catalunha a caminho da independência?

A Catalunha pode vir a separar-se do Estado espanhol? A pergunta tem toda a atualidade, depois de 2 milhões de pessoas se terem manifestado em Barcelona a 11 de setembro, sob a bandeira da independência e quando as sondagens indicam um crescimento em flecha dos que defendem o estado independente, que são já maioria. Neste dossier, organizado por Luis Leiria, procuramos apresentar um panorama da questão.

Cronologia recente da Catalunha

Em julho de 2006, apenas 14,9% dos catalães eram a favor de um Estado independente. Mas seis anos depois, já são 44,3% os que querem que a Catalunha seja independente. Veja alguns dos acontecimentos que provocaram esta mudança.

Principais partidos catalães

Conheça os principais atores da cena política catalã, um pouco da sua história e os resultados que obtiveram nas últimas eleições para o Parlamento catalão.

Que acontece na Catalunha?

O sistema do Estado autonómico espanhol é uma armadilha que se estabelece sobre a base de prometer direitos que depois não são concedidos, diz o historiador catalão Josep Fontana, que se declara favorável à independência da Catalunha sob certas condições. Entrevista realizada por Enric González

Que aconteceu nas eleições catalãs?

Falta uma coligação ampla de esquerda que explicite um discurso de classe diante do establishment financeiro, económico, político e mediático catalão, o maior responsável pelo subdesenvolvimento social da Catalunha. Para que essa coligação se faça será necessária uma profunda transformação dos partidos existentes, estimulados pelo aparecimento do movimento radical CUP. Por Vicenç Navarro, Público.es

Artur Mas, o “messias” sem povo

Caiu a máscara do da CiU, por mais que se disfarce de independentista. Apareceu como é: a cabeça visível de um partido conservador, fiel ao mundo empresarial e que sempre defendeu o atual marco constitucional. Por Esther Vivas, Público.es

Pelo direito da Catalunha a decidir o futuro e a independência

A extraordinária mobilização vivida em Barcelona por ocasião da “Diada” confirmou a enorme ascensão do sentimento independentista entre a população catalã. Nem sequer a opção federalista aparece já como uma alternativa credível, enquanto. Por Jaime Pastor

A Cataluña vai-se embora... para a Europa

Os catalães apontam para a maré genericamente independentista e especificamente soberanista. O dilema visto por um basco. Por Ramón Zallo, Viento Sur

Quim Arrufat: "Não somos nacionalistas conservadores, somos independentistas de classe"

Para um dos novos deputados das Candidaturas de Unidade Popular (CUP), a soberania catalã tem de ser uma ferramenta de transformação social para as classes populares, e portanto deverá ter conceção política totalmente integradora, multicultural.

Oriol Junqueras: "É viável referendar a independência em 2014"

Em entrevista ao esquerda.net, o líder da Esquerda Republicana Catalã (ERC) afirma que o problema dos cortes orçamentais não será resolvido enquanto a Catalunha não dispuser de todos os recursos gerados na região, “que a cada ano são levados pelo Estado espanhol”.

Estamos perante o fim da articulação da Catalunha e de Euskadi na atual Constituição

Para Joan Herrera, líder da Iniciativa pela Catalunha Verdes - Esquerda Unida e Alternativa, a esquerda tem de ser capaz de propor uma alternativa à CiU a partir da denúncia do austericídio e da defesa do direito a decidir. Por Gustavo Buster, Ernest Urtasun e Antoni Domènech, Sin Permiso.