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A Cataluña vai-se embora... para a Europa

Os catalães apontam para a maré genericamente independentista e especificamente soberanista. O dilema visto por um basco. Por Ramón Zallo, Viento Sur
Manifestação de 11 de setembro em Barcelona: Inicia-se um curso inesperado na história da Catalunha e da Espanha. Foto de jordillar foto

“A Catalunha vai-se. Já em espírito, e inicia o seu caminho como sujeito nacional para a soberania plena. Nada será igual … nem para nós” (os bascos, entende-se). Este twit (Twitter) que escrevi às 8 da noite do 11-S, depois de ver ao vivo por computador a megamanifestação da Diada de 2012, foi retwitado com profusão por catalães – na sua maioria jovens – e alguns bascos. Acho que representa bem o momento histórico da Catalunha.

Profundamente desagradada pela limpeza do Estatut de 2006; intensamente dececionada pela atitude anticatalanista da opinião pública espanhola animada por alguns média; totalmente irritada por ter a 8ª posição em financiamento público estatal per capita; e gravemente humilhada por ter de pedir o resgate ao Estado... a Catalunha aponta para a maré genericamente independentista e especificamente soberanista. Ou seja, decidir sobre o que se quer ser e convenha ser como nação. Este sentimento é muito fundo na geração jovem. Expressa-se em catalão; é espontaneamente catalanista e não considera adequados os equilíbrios da Transição.

Há 10 anos, a independência não era nem contemplada pelo catalão médio. Agora, metade da população é dela adepta expressamente e é maioria com respeito a outras opções. O problema não é de sujeito coletivo. Ele já existe e é um ponto de partida para o tabuleiro político. O problema está mais na divisão dos atores políticos que a liderariam: cinco correntes com origem na ERC, duas ou três visões no interior de CiU, dualidade clara no PSC. Os catalães já repudiam a madrasta Espanha, ou melhor, querem ser eles mesmos, querem ser a nação catalã em Europa. A sua vocação é tão plenamente europeia que querem ser o Estado nº 28. Longo e complicado processo, é verdade; mas já começou.

Artur Mas tem um argumento contundente para exigir a curto prazo o menos (o pacto fiscal aliviador) como preço a pagar pelo Estado para travar o mais (a independência). Mas esta maré não vai deter-se. Inicia-se um curso inesperado na história da Catalunha e da Espanha. E – por que não! – também na nossa.

A Catalunha não é um território qualquer em matéria de peso económico na Espanha – primeira economia regional –, em relações comerciais internacionais, em imagem internacional, com Barcelona como divisa, e em maturidade cívica. Civicamente disse que até aqui chegámos. E não tem os nossos estigmas de confronto violento nem de reivindicacionismo razinza.

Plenamente mediterrânicos, pacífico parceiro e negociador de regras escrupulosas e formalmente democráticas, sempre têm velado pelos seus interesses com mão esquerda. Isso tem configurado um catalanismo que vai para além dos nacionalismos clássicos e que é um ativo de primeira magnitude para ter maiorias sociais claras. Não é nosso caso. Agora acrescentam um fator que recupera a tradição unitária antifranquista. Vistas as limitações do jogo político e institucional, a sociedade civil articula-se em democracia participativa, mobilizada, mobilizadora e de pressão em organismos com vocação unitária – isso não impede as cotoveladas – como a Assembleia Nacional Catalã. E isso sem prejuízo do espaço decisório do Parlament, como se comprovou com a entrega de uma carta reivindicativa à sua presidenta no dia 11 de setembro.

Euskadi não teve a Cataluña como modelo nestes anos; nem tinha que tê-la em bastantes temas. Cabe invejar-lhe que no tardofranquismo tivesse uma Assembleia da Catalunha unitária (1971) e, em contrapartida, nós uma vanguarda armada épica com a qual bastante gente se identificava, mas também uma sociedade civil muito ativa. Recordem também que os partidos históricos estavam muito ausentes.

Na Transição, Catalunha apostou na Constituição e nós não. A nossa maioria institucional também apostou no Estatuto mas viu a oportunidade da “velharia” da concertação (muito dolorosa no princípio, benéfica depois) frente ao modelo Pujol. A Catalunha apostou com desigual e escasso sucesso em liderar a Espanha (Rocha i Junyent) e nós por fazer o nosso, paralelamente a uma violência persistente que nos sangrava e deslegitimava. Com Ibarretxe desafiámos o centralismo e bateram-nos a porta, e para evitar maiorias institucionais que refletissem as maiorias reais, ilegalizaram um sector social inteiro e vivemos durante vários anos numa ficção democrática que, em breve, desvanecer-se-á. A Catalunha fez os deveres com paciência mas negaram-lhe três vezes o seu Estatut até descafeiná-lo enquanto a teta catalã – não era a única, claro – era profusamente espremida, ao mesmo tempo que difamada.

A qual das duas vias catalãs nos queremos parecer? À de antes ou à de agora? A primeira opção correu mal aos catalães, apesar das suas unanimidades. No nosso caso é uma má opção repetir o caminho de um novo estatuto, seguindo procedimentos de “transversalidade” esterilizante que nos converta em reféns das opções que não querem soberania e ignorando as maiorias sociais. Ainda por cima a Espanha não está preparada para isso e essa parte da nossa classe política também não. Segunda opção, a que inaugura a Diada. Já que nos adiantámos aos catalães no direito de decisão e da consulta, o normal seria retomá-lo como o caminho mais democrático e coletivo, sem prejuízo de elaborar um documento que o consagre a uma maioria nacional basca, à qual oxalá! se somem também os socialistas, ainda que são eles os que têm o problema, e não os demais. São muito importantes as próximas eleições para ter um mapa estimulante.

Articular uma alternativa real e de maiorias sociais é o contrário de fazer rodeios ao abordar o lado social das crises múltiplas. Não são tempos para perder mais tempo depois do parêntesis artificial destes últimos três anos.

Ramón Zallo é catedrático da UPV-EHU

13 de setembro de 2012

http://www.vientosur.info/spip/spip.php?article7118

(...)

Resto dossier

Catalunha a caminho da independência?

A Catalunha pode vir a separar-se do Estado espanhol? A pergunta tem toda a atualidade, depois de 2 milhões de pessoas se terem manifestado em Barcelona a 11 de setembro, sob a bandeira da independência e quando as sondagens indicam um crescimento em flecha dos que defendem o estado independente, que são já maioria. Neste dossier, organizado por Luis Leiria, procuramos apresentar um panorama da questão.

Cronologia recente da Catalunha

Em julho de 2006, apenas 14,9% dos catalães eram a favor de um Estado independente. Mas seis anos depois, já são 44,3% os que querem que a Catalunha seja independente. Veja alguns dos acontecimentos que provocaram esta mudança.

Principais partidos catalães

Conheça os principais atores da cena política catalã, um pouco da sua história e os resultados que obtiveram nas últimas eleições para o Parlamento catalão.

Que acontece na Catalunha?

O sistema do Estado autonómico espanhol é uma armadilha que se estabelece sobre a base de prometer direitos que depois não são concedidos, diz o historiador catalão Josep Fontana, que se declara favorável à independência da Catalunha sob certas condições. Entrevista realizada por Enric González

Que aconteceu nas eleições catalãs?

Falta uma coligação ampla de esquerda que explicite um discurso de classe diante do establishment financeiro, económico, político e mediático catalão, o maior responsável pelo subdesenvolvimento social da Catalunha. Para que essa coligação se faça será necessária uma profunda transformação dos partidos existentes, estimulados pelo aparecimento do movimento radical CUP. Por Vicenç Navarro, Público.es

Artur Mas, o “messias” sem povo

Caiu a máscara do da CiU, por mais que se disfarce de independentista. Apareceu como é: a cabeça visível de um partido conservador, fiel ao mundo empresarial e que sempre defendeu o atual marco constitucional. Por Esther Vivas, Público.es

Pelo direito da Catalunha a decidir o futuro e a independência

A extraordinária mobilização vivida em Barcelona por ocasião da “Diada” confirmou a enorme ascensão do sentimento independentista entre a população catalã. Nem sequer a opção federalista aparece já como uma alternativa credível, enquanto. Por Jaime Pastor

A Cataluña vai-se embora... para a Europa

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Quim Arrufat: "Não somos nacionalistas conservadores, somos independentistas de classe"

Para um dos novos deputados das Candidaturas de Unidade Popular (CUP), a soberania catalã tem de ser uma ferramenta de transformação social para as classes populares, e portanto deverá ter conceção política totalmente integradora, multicultural.

Oriol Junqueras: "É viável referendar a independência em 2014"

Em entrevista ao esquerda.net, o líder da Esquerda Republicana Catalã (ERC) afirma que o problema dos cortes orçamentais não será resolvido enquanto a Catalunha não dispuser de todos os recursos gerados na região, “que a cada ano são levados pelo Estado espanhol”.

Estamos perante o fim da articulação da Catalunha e de Euskadi na atual Constituição

Para Joan Herrera, líder da Iniciativa pela Catalunha Verdes - Esquerda Unida e Alternativa, a esquerda tem de ser capaz de propor uma alternativa à CiU a partir da denúncia do austericídio e da defesa do direito a decidir. Por Gustavo Buster, Ernest Urtasun e Antoni Domènech, Sin Permiso.