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A proposta de privatização dos estaleiros não é nova

Qual é a posição da Comissão de Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo sobre a privatização dos estaleiros, prevista no Programa de Estabilidade e Crescimento do Governo?

Esta proposta de privatização da empresa não é nova. Já nos anos 90 houve um forte ataque que tinha em vista a privatização dos estaleiros. Na altura, houve uma grande mobilização social na cidade e não só: os partidos políticos, a Igreja, a Câmara Municipal, o Governo Civil, toda a população se uniu em prol da defesa dos estaleiros. Assim, a tentativa de privatização de 1995 foi adiada, ficou em «banho-maria», por assim dizer.

Este episódio de 95 foi no tempo do governo do Cavaco, quando o presidente dos estaleiros na altura, Duarte Silva, foi chamado para Ministro da Cultura (foi presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz). Dizia-se na altura, que a solução estava nas mãos de um grupo alemão que passadas poucas semanas faliu e deixou no desemprego milhares de trabalhadores. Houve uma grande contestação à situação, até na missa das Festas da N.S. da Agonia se falou contra a privatização dos estaleiros.

Portanto, sempre que houver intenções de privatizar empresas, os estaleiros são sempre uma hipótese: umas vezes está só no pensamento, outras estará como este ano está, inscrito no PEC.

Nós, os trabalhadores sempre estivémos contra a privatização e não é só por estar contra. É que a privatização de uma empresa como a dos estaleiros terá sempre no imediato, ou passado pouco tempo, consequências na manutenção dos postos de trabalho. É isso que nos preocupa, são postos de trabalho desta empresa que é um baluarte da indústria naval nacional, para além de ser uma empresa importantíssima na região onde está inserida, que é Viana do Castelo, o Minho. Não estamos contra por estar contra, sabemos é que a privatização da empresa trará problemas acrescidos para quem nela trabalha. Temos a certeza absoluta e isso preocupa-nos.

Nós até somos a favor de algumas parcerias estratégicas, sabemos que são importantíssimas no mundo de hoje. Actualmente até temos uma parceria com o grupo holandês Damen que tem uma série de estaleiros ao nível mundial, e é um exemplo na indústria naval militar.

Quantas pessoas trabalham actualmente os ENVC?

Somos cerca de 787 trabalhadores, mais os 3 administradores e a pessoa que está na autarquia local.  

Qual é a situação actual dos Estaleiros em termos de produção, encomendas?          

Os estaleiros precisavam já há muito tempo de uma encomenda no mercado civil. Agora estamos convictos que com este negócio com o armador grego, uma encomenda de dois ferries, há esperança. Foi como uma lufada de ar fresco na empresa. Isto porque a empresa tem estado a laborar apenas no mercado militar e nas reparações. A construção civil estava completamente parada.

O que nos pode dizer sobre o caso do navio encomendado pelo Governo Regional dos Açores que acabou por ser recusado depois de construído?

O caso dos Açores foi um caso inédito que nos causou graves problemas e danificou muito a nossa imagem como construtores navais. E ainda continuará a dar problemas porque o navio continua encostado à muralha, o «Atlântida». Mas a encomenda era de dois navios e o segundo, mais pequeno, continua à espera de melhores dias, já que a nossa costa, sobretudo submarina, vai ser aumentada (e de que maneira, 3 a 4 vezes mais). Portanto, nós precisamos de navios militares e até as nossas universidades precisam de navios científicos. São ideias a explorar pois já se investiu nalgum equipamento que está armazenada, estando parte do navio montado em blocos, em cima do cais.

O «Atlântida» está no mercado à venda mas... É como quando alguém encomenda um fato - esse fato só ficará bem a quem o encomendou. É esse o problema do «Atlântida» que está, por exemplo, preparado para aportar nos portos dos Açores. Assim, tal e qual como ele está, dificilmente servirá a outro armador qualquer. E, claro, a agravar toda esta situação, temos a crise internacional que fez abrandar um pouco o negócio, que ainda assim não parou totalmente.

Aguardamos, portanto, melhores dias, porque o caso daquele navio dos Açores é desprezar o erário público. Ele só foi rejeitado porque não permitia a velocidade que o armador pretendia, embora nós consideremos isso uma falsa questão porque o navio tem um sistema de manobra formidável e faz uma acostagem sem necessitar de auxílio de terceiros. Este navio, com o seu poder de manobrabilidade, facilmente recuperaria os poucos minutos que perderia, de velocidade, ao fazer a ligação inter-ilhas.

Além disso, o navio estava muito bem equipado e tem um grande poder de trabalho, óptimos níveis de ruído... Enfim, foi uma pena os senhores dos Açores não querem ficar com ele. Mas as duas empresas envolvidas são duas empresas do estado, os ENVC e a Atlânticonline e por isso deveríamos ter chegado a outra solução. Infelizmente não houve vontade disso.

Como tem sido a vida e a luta dos trabalhadores dos ENVC?  

Já no tempo do anterior regime, os estaleiros eram um lugar de luta e de ideias revolucionárias. Os estaleiros estiveram sempre ligados a uma forte cultura de reivindicação positiva, sempre houve entre os trabalhadores, um grande empenhamento de classe. Aliás, actualmente, podemos dizer que os direitos dos trabalhadores estão assegurados razoavelmente.  Há um acordo interno que a empresa sempre respeitou embora agora "esteja um pouco na gaveta". Como o Governo decretou que para a função pública e empresas com participação maioritária do estado há aumentos zero, sabemos que não teremos aumentos também. No entanto, não deixámos de fazer a nossa proposta.

Como vêm o vosso futuro próximo? Quais são as vossas expectativas?

Bom, haverá agora uma assembleia geral onde, em princípio, serão nomeados os novos órgãos sociais da empresa, os novos gestores. Penso que a questão da privatização ou da empresarialização da empresa não é para já. Porque os estaleiros não são a Galp, não são a EDP... A indústria naval é uma indústria de alto risco, e isso é assim a nível mundial. E tendo em conta a situação actual dos estaleiros, não se trata de uma empresa apetecível..

O nosso medo é que apareça um fulano qualquer como aconteceu na Lisnave e compre isto por 1 dólar! Lembramos-nos que foi isso que aconteceu na Lisnave há uns anos atrás, ao que se seguiu aquela «razia» de despedimentos. É este o perigo, são os despedimentos e o que pode acontecer aos trabalhadores.

Nós já alertámos toda sociedade civil aqui de Viana do Castelo. Falámos com os partidos políticos, com o presidente da Câmara, o Governo Civil e com a população porque queremos as pessoas do nosso lado e a perceber os nosso receios. Recebemos palavras de alento e de compreensão. Esperamos que quando isto for para a frente, as pessoas estejam presentes e que o Governo faça marcha atrás. Nós estaremos atentos a qualquer manobra que ponha em causa os trabalhadores.

Entrevista de Sofia Roque.

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