Professores, educação pública em Portugal

28 de dezembro 2009 - 0:00
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Vale a pena lutar, mesmo quando a montanha parece não se mover. Se 2008 foi o ano dos protestos gigantes dos professores, foi preciso esperar por 2009 para o governo declarar oficialmente tréguas. Mas a luta pela escola pública vai continuar em 2010.



Depois de tanta força colidir contra a muralha do autoritarismo, parecia sobrar apenas a resistência longa e desgastante. Em 2009 os professores tentaram inventar novos fôlegos. Repetir os cem mil na rua seria sempre difícil. Restava a luta arriscada das dezenas de milhares que não se renderam e experimentaram o que é a desobediência civil.



Ainda assim, foram mais de 50 mil os que em Maio desceram a avenida. A uma semana do período eleitoral, experimentava-se a vingança. Assim foi: o PS perdeu as eleições europeias e deixou fugir a maioria absoluta nas legislativas. A luta dos professores pesou nas urnas tal como já tinha pesado nas ruas. Porque o voto dos professores não foi só deles: foi de todos e todas os que disseram não à tecnocracia de rosto desumano.



Encostado à parede, o governo declarou tréguas mas ao mesmo tempo mostrou-se viscoso como uma serpente. Nova ministra, nova atitude, mas sem largar o osso das políticas. Nesta tentativa de manter a face contou com um aliado previsível: o PSD contemporizou e salvou Sócrates de uma derrota contundente no parlamento.



O projecto da escola empresa que produz estatísticas agradáveis à vista está agora em cheque, mas ainda longe de ser vencido. Afastaram-se os carrascos, perdoaram-se os desobedientes, reformulam-se algumas políticas. Os professores ganharam uma batalha, mas falta muito para que a escola vença a guerra.



Directores, cadeias de comando e professores que competem contra professores. Hierarquias militarizadas e obedientes que garantem a produção e reprodução de resultados artificiais. Instituições baratas, sem recursos para o sucesso real de todos os alunos, sustentadas à custa da precariedade e do medo servil de milhares de profissionais. Esta é a escola de Sócrates. É uma escola refém do neoliberalismo.



Resta aos professores levar a luta até ao fim. Movimentos e sindicatos devem recusar a precarização e menorização da carreira docente, mas têm a obrigação de ir mais longe.



Impõe-se um desafio mais ambicioso: lutar por uma escola que não desista de ninguém. Exigir menos alunos por turma e equipas multidisciplinares que previnam o insucesso. Reformular os currículos e reduzir a carga horária. Munir as escolas de todos os meios que garantam a igualdade de oportunidades.



Porque faz falta libertar a escola. Faz mesmo muita falta fazer dela uma arma: contra a selva neoliberal e pela cidadania crítica e sem exclusões.



Miguel Reis

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