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Crise e Cultura

Ao longo de 2009, grupos de pressão europeus de defesa do sector cultural aconselharam os agentes culturais a terem como mote na sua discussão de financiamentos públicos "forget about culture" (esqueçam a cultura), para centrar todo o discurso na importância da Cultura na Economia, Qualificação, Inovação. Ou seja, este não é o tempo para falar da importância da Cultura mas sim para mostrar que é aí que está a saída para a Crise. Terá sentido?

Em Portugal não sabemos bem qual é o impacto da Crise na Cultura. Temos a noção que os profissionais da arte e da cultura vivem pior - não vivemos todos? - e que é provável que algum património não esteja no melhor estado... Talvez demoremos algum tempo a perceber tudo o que estamos a perder, que caminho sem retorno está a levar parte de nós.

E, enquanto quotidianamente vamos sacudindo os males que a Crise provoca na Cultura - e se os podemos sacudir com tanta leveza não nos devemos perguntar se a Cultura terá o devido peso nesse quotidiano? -, responsáveis de instituições culturais públicas e privadas falam das indústrias criativas como quem descobriu a cura para todos os males. Estamos em plena euforia de indústrias criativas (ou melhor, de discurso sobre indústrias criativas). Não é já a Cultura que nos vai salvar, mas - fruto também do "forget about culture"? - as indústrias criativas que nos vão tirar da Crise.

E é este o mais visível impacto da Crise na Cultura. Um país que nunca definiu serviços públicos de cultura, que não tem estatutos profissionais próprios para os trabalhadores do sector cultural e lhes nega protecção social, que não tem práticas de descentralização cultural aprofundadas, em que existem redes de equipamentos culturais que não o são porque não têm programas nem financiamentos, em que há instituições culturais sem qualquer relação com a população que supostamente servem, em que nunca há lugar para programas de promoção e qualificação cultural de médio e longo prazo, em que tudo se mede evento a evento, em que as grandes instituições e os grandes eventos culturais competem pelos mesmos 30% de população potencial público de Cultura e todos parecem esquecer os outros 70% que nunca participam em qualquer actividade cultural, em que o acesso a meios de produção cultural é escassa, ... um país com uma vida cultural tão frágil reage à Crise trocando Cultura por indústrias criativas.

E o que são as indústrias criativas? Entidades de produção altamente qualificadas de... qualquer coisa. São más? Claro que não! Mas substituem a necessidade de serviços públicos em Cultura? Substituem a necessidade de oferta e produção artística plural? Podem existir num meio sem uma vida cultural activa? Onde se geram os profissionais qualificados que alimentam as indústrias criativas? Onde se geram os consumidores para os produtos dessas indústrias? Onde nos levará esta onda suicidária de quem permanentemente espera e reclama frutos de sementes que se recusa a plantar?

O maior desafio em 2010 será, no meio da Crise, lembrarmo-nos por uma vez da Cultura.

Catarina Martins

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Resto dossier

Temas para 2010

Neste dossier publicamos dez artigos sobre alguns temas que marcaram 2009 e perduram para 2010.
2010, a crise continua por Francisco Louçã; Sócrates à boleia por Luís Fazenda; Crise e Cultura por Catarina Martins; Política de saúde: 2009, a gripe A contagiou o governo por João Semedo; 2010, o ano da escalada afegã por Jorge Costa; Violência contra as mulheres - 2009 entre os números e as leis por Sofia Roque; Professores, educação pública em Portugal por Miguel Reis; O desemprego está para durar! por Francisco Alves; Ano novo, que movimentos e lutas sociais? por Carlos Carujo; O combate contra a discriminação LGBT: os desafios que virão por José Soeiro e 2010: o ano do princípio do fim por Myriam Zaluar. 

2010: o ano do princípio do fim

Se pensarmos bem chegaremos à conclusão que em Portugal, em 2010, excepcional é mesmo trabalhar com um vinculo estável e com os direitos que foram conquistados pelas gerações anteriores. Artigo de Myriam Zaluar

O combate contra a discriminação LGBT: os desafios que virão

2010 começará com uma interessante discussão no Parlamento. A Assembleia da República vai votar, a 8 de Janeiro, 3 projectos de lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Artigo de José Soeiro

Crise e Cultura

Será que as Indústrias Criativas vão aparecer numa manhã de nevoeiro para nos salvar? Artigo de Catarina Martins

Professores, educação pública em Portugal

Afastaram-se os carrascos, perdoaram-se os desobedientes, reformulam-se algumas políticas. Os professores ganharam uma batalha, mas falta muito para que a escola vença a guerra. Artigo de Miguel Reis

Sócrates à boleia

Sócrates-kamikaze, precipitando legislativas, entregaria o governo de bandeja... punido pelos mesmos sectores que ambicionam a estabilidade a qualquer custo. Artigo de Luís Fazenda

Violência contra as mulheres - 2009 entre os números e as leis

Na verdade, da análise dos números resulta uma conclusão incontornável, a de que a violência doméstica é sobretudo violência contra as mulheres. Os números dizem-nos, portanto, que a dominação masculina existe, persiste e tem de ser combatida. Dizem-nos que precisamos de transformação, de emancipação, de organização social, de luta feminista. Artigo de Sofia Roque

2010, a crise continua

Os riscos sistémicos de economias presas a sistemas financeiros que flutuam sobre mares de activos tóxicos repercutem-se na economia portuguesa porque dominarão as grandes economias no ano de 2010. Artigo de Francisco Louçã

2010, o ano da escalada afegã

Enquanto enterra dinheiro e recursos para salvar a face da NATO no Afeganistão, o governo prepara-se para receber, nos finais do novo ano, uma cimeira da aliança. Artigo de Jorge Costa

Política de saúde: 2009, a gripe A contagiou o governo

Enquanto, os problemas do SNS e da saúde dos portugueses passaram para um segundo plano. Artigo de João Semedo

O desemprego está para durar!

Para inverter esta elevada taxa de desemprego, sabemos que não basta evitar a perda de postos de trabalho, é fundamental criá-los. Artigo de Francisco Alves

Ano novo, que movimentos e lutas sociais?

Defende-se aqui que é urgente que a militância social se torne uma aposta decisiva de toda a esquerda anti-capitalista. Artigo de Carlos Carujo