De todos os maus argumentos usados para incitar os escoceses a votar não — e há muitos — talvez o pior seja a exigência de que a Escócia fique na União para salvar a Inglaterra de si própria. As reações ao meu artigo da semana passada sugerem que este infeliz argumento umbilical ainda tem algum sucesso entre gente que se diz de esquerda.
Não é de admirar que, quanto mais os escoceses vêem os seus antigos ministros Labour, mais inclinados ficam a votar pela independência.
Vamos lá ver o que isto implica: pede a uma nação de 5,3 milhões que desista da sua independência para dispensar uma nação de 54 milhões da luta pelas suas próprias batalhas. Em troca da sua auto-negação, os cinco milhões têm de continuar sob o jugo das mesmas políticas sinistras de cobardia e da triangulação política que causaram os problemas dos quais lhes pedimos agora que nos salvem.
“Seria muito menos provável que um Reino Unido sem a Escócia alguma vez elegesse um governo de cores progressistas”, declarou o ministro Brian Wilson no Guardian, na semana passada. Temos de nos juntar contra “as forças do privilégio e da reação” (diz ele, que alinha com os Conservadores, o Ukip, os Liberais Democratas, os bancos, as corporações, quase todos os colunistas de direita britânicos, e todos os jornais do Reino Unido com excepção do Sunday Herald), na causa pela “solidariedade”.
Há mais um chavão do New Labour a juntar a este vocabulário (outros exemplos incluem “reforma”, que agora quer dizer “privatização”, e “parceria”, que significa vender aos grandes negócios). Em tempos, “solidariedade” quis dizer assumir a causa dos explorados, dos mal pagos, dos excluídos. Hoje, para estes ciborgues de fato e gravata, significa lealdade aos bancos, à imprensa corporativa, aos cortes orçamentais, uma economia de cobranças e fundamentalismo de mercado.
Isto foi o que “solidariedade” quis dizer para Wilson e os seus comparsas cobardes quando estiveram no governo. Quis dizer votar a favor da guerra do Iraque, do Trident, dos bilhetes de identidade, de 3.500 novas infrações penais, incluindo a criminalização da maior parte das formas de protesto pacíficas. Significou serem alistados como mercenários políticos para impor as políticas inglesas a que os escoceses não estavam sujeitos, tais como as propinas ao critério das universidades ou as fundações hospitalares. Significou apoiar toda e qualquer proposta destrutiva e injusta dos seus líderes: a cambada de parasitas criada no ninho do Labour e que empurrou os seus princípios mais caros pela borda fora. Não é de admirar que, quanto mais os escoceses vêem os seus antigos ministros Labour, mais inclinados ficam a votar pela independência.
Então agora a campanha do Better Together foi buscar Gordon Brown, espalhando subornos num esforço de contenção desesperado e de última hora. Devem esperar que os escoceses se tenham esquecido de quando Gordon Brown se gabou de ter estabelecido “o imposto sobre as sociedades mais baixo da história do Reino Unido, mais baixo do que em qualquer dos principais países da Europa, e mais baixo do que em qualquer grande país industrializado do mundo”. Ou de que jurou à City de Londres que “orçamento após orçamento, quero que façamos ainda mais para encorajar o empreendedorismo”. Ou de que, passados 13 anos de governo Trabalhista, o Reino Unido tinha níveis de desigualdade maiores do que depois de 18 anos de governo Conservador. Ou de que o governo dele conspirou raptos e tortura. Ou de que ajudou a provocar a morte de centenas de milhares de pessoas através do apoio à guerra ilegal no Iraque.
Ele percorre a Escócia, ainda com as mãos sujas de sangue, a prometer o que nunca cumpriu quando teve a oportunidade de o fazer, este homem que ajudou a rasgar a rede de segurança social tecida pelos seus antecessores; que vendeu e desmembrou serviços públicos; que enriqueceu os ricos e tramou os pobres; que prometeu dinheiro para o Trident mas não conseguiu inverter a quebra na habitação social; cujas iniciativas a favor do financiamento privado plantaram uma série de bombas-relógio que estão agora a explodir no sistema nacional de saúde e nos serviços públicos; que engraxou, adulou e serviu como escravo até ser aceite na companhia de banqueiros e oligarcas enquanto espezinhava os trabalhadores que tinha sido eleito para representar. É este o Preste João progressista que cavalgará em auxílio da campanha do NÃO?
Onde estão, no Labour escocês, os Keir Hardies e os Jimmy Reids dos dias de hoje? Onde está a inventividade, a inspiração, a esperança? Os homenzinhos cambaleantes e sem espinha que substituíram estes titãs não têm o que oferecer senão o medo. Através do medo, tentam empurrar a Escócia novamente para dentro da sua gaveta, ao verem a população revoltar-se contra o futuro fechado e deprimente que lhes foi traçado — e a todos nós — pelos três principais partidos de Westminster.
Se o Labour tiver alguma inteligência política, algum vestígio de coragem, perceberá o que este momento significa. Em vez que tentar sufocar as forças da esperança e da inspiração, tratará de mobilizá-las. Poderá, por exemplo, comprometer-se no seu manifesto a levar a cabo um referendo sobre a escrita de uma constituição para o resto do Reino Unido.
É certo que, se a Escócia se tornar independente e tudo o resto se mantiver, o Labour perderá 41 lugares em Westminster e as maiorias Tory tornar-se-ão mais prováveis. Mas não é preciso que tudo o resto se mantenha. A independência tem um potencial galvanizante para os movimentos progressistas do resto do Reino Unido. Vamos poder assistir ao envolvimento dos escoceses no processo transformador de escrever uma constituição. Vamos poder assistir a como uma nação destas ilhas pode viver e (espero eu) prosperar com um parlamento totalmente eleito (sem uma Câmara dos Lordes), com um sistema eleitoral justo (representação proporcional), e com um parlamento em que apenas representantes dessa nação possam votar (sem mercenários a saltar fronteiras).
O mito da apatia foi já destruído pelo movimento tumultuoso a norte da fronteira. Assim que há uma coisa pela qual vale a pena votar, as pessoas fazem filas pela noite fora para ter o nome no caderno eleitoral. A pouca participação nas eleições para Westminster reflete não a falta de interesse, mas a falta de esperança.
Se a Escócia se tornar independente, sê-lo-á apesar dos esforços de quase todo o establishment do Reino Unido. Sê-lo-á porque os meios de comunicação sociais venceram os meios de comunicação corporativos. Será uma vitória dos cidadãos contra a máquina de Westminster, de sapatos contra helicópteros. Mostrará que uma ideia suficientemente inspiradora pode vencer subornos e chantagens, ameaças e pregões do medo. Essa esperança, a princípio marginalizada, pode espalhar-se pela nação, desafiando todas as tentativas de sufocá-la. Significa que é possível ser-se odiado pelo Daily Mail e ainda ter hipótese de ganhar.
Se o Labour tiver alguma inteligência política, algum vestígio de coragem, perceberá o que este momento significa. Em vez que tentar sufocar as forças da esperança e da inspiração, tratará de mobilizá-las. Poderá, por exemplo, comprometer-se no seu manifesto a levar a cabo um referendo sobre a escrita de uma constituição para o resto do Reino Unido. Perceberá que que a esperança é o mais perigoso dos reagentes políticos. Consegue transformar aquilo que parecia um regime fixo, um resultado fixo, numa coisa completamente diferente. Consegue invocar paixão e propósito que nunca pensámos ter em nós. Se a Escócia se tornar independente, a Inglaterra — apenas se esse potencial for reconhecido — poderá também transformar-se.
George Monbiot é jornalista, escritor e ambientalista, escreve regularmente uma coluna de opinião no Guardian. Publicado inicialmente pelo Guardian, a 09/09/2014. Traduzido por Mariana Vieira.