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O grande assalto aos bancos - onde estão os ativos?

Publicamos o resumo da intervenção de José Castro, que apontou a responsabilidade dos bancos na atual crise através das escolhas desastrosas nos seus investimentos financeiros, que hoje estão a ser pagas pelos contribuintes através do seu salário e do desmantelamento de serviços públicos.
Foto de Paulete Matos

AVISO
Por razões de segurança,
os cofres deste banco estão sujeitos
 a sistema de abertura retardada

É um aviso habitual nas agências bancárias. Supostamente para evitar assaltos do exterior. Mas se a subtração de valores é feita por dentro, decidido pelos acionistas e seus administradores?

A banca está no centro da atual crise. Mas há por aí opiniões, com ar de seriedade, que apresentam os bancos como “vítimas” da crise: não podem conceder crédito às empresas, “porque foram forçados a comprar muita dívida pública portuguesa” …

Estas posições escondem as verdadeiras razões dos cortes no crédito à economia (mais de 9 mil milhões de euros em 2011..) e das escolhas desastrosas nos investimentos financeiros da banca.

Bancos – uma das instituições de crédito. Segundo o artº 2º do Dec.Lei nº 201/2002, são “empresas cuja atividade consiste em receber do público depósitos ou outros fundos reembolsáveis, a fim de os aplicarem por conta própria mediante a concessão de crédito”. Ou dito doutra forma, recebem  poupanças canalizando-as para investimento e consumo, incrementando o valor das aplicações dos depositantes. Fazem parte, com as seguradoras, fundos de pensões e outros,  dos investidores institucionais.  

Os bancos utilizam dinheiro que não é dos seus acionistas, mas dos depositantes (os capitais próprios não chegam a 6% do total de balanço e 42% do financiamento dos bancos são depósitos de clientes, valor aliás muito acima dos 33% da zona euro). E por tal motivo devem cumprir regras específicas, prudenciais, de funcionamento e adotar contabilidade própria (com encargos e rendimentos e não custos e proveitos).

Com esta apresentação queremos realçar as escolhas mais que temerárias dos donos dos bancos. Quanto ao crédito concedido, ainda hoje o valor total dos empréstimos para habitação (119 mil milhões de euros) é superior ao crédito às empresas (115. mil milhões). E ao privilegiarem a compra de ações e obrigações de empresas privadas nos  investimentos financeiros geraram imparidades (perdas) brutais, já que muitos destes títulos de dívida privada ou não têm notação ou têm-na muito baixa ,  são autênticos ativos tóxicos.

Se a escolha dos donos dos bancos quanto à concessão de crédito, está a provocar um grande aperto no financiamento das empresas, o que resultou das escolhas na vertente dos investimentos financeiros? Dos 113 mil milhões de euros de investimentos financeiros em 2010, menos de 20 mil milhões dizem respeito a dívida pública portuguesa. E este valor já correspondeu a um aumento significativo deste tipo de ativos: razão, utilizar os títulos de dívida pública portuguesa como colateral (garantia) às operações de financiamento junto do BCE (40 mil milhões de euros).  

Os outros investimentos financeiros, as outras escolhas dos administradores dos bancos, foram: mais de 64 mil milhões em obrigações de empresas privadas, quase 6 mil milhões em ações, mais de 8 mil milhões de derivados…   

Dívida pública portuguesa ( 151 mil milhões em 2010, 174 mM€ em 2011):  quem detém os títulos (2010: 19 mM BT, 106 mM OT, 15 mM CAf,)?
    
Investidores institucionais            
   Bancos/Seguradoras/FP                   FEFSS        CGA      Particulares           Estrangeiros  

   17 mM /    6 mM                                 5 mM           5 mM          15mM                  100mM

Mas  7%  de títulos de dívida pública no ativo total do sistema bancário português não será demasiado investimento, como insistem algumas vozes? Até o BdP (Relatório de Estabilidade Financeira-Maio de 2011-pág.61) refere: “Quando comparados com outras instituições monetárias da área do euro, os bancos portugueses continuam a apresentar uma menor exposição dos respetivos balanços a títulos de dívida pública”.

Estas escolhas dos acionistas e administradores dos bancos quanto à não-compra de títulos da dívida pública empurraram o país para os braços da troika (financeirização da política após a financeirização da economia). E quanto à compra de obrigações e ações de empresas  privadas, essas escolhas geraram perdas brutais, destruíram valor das poupanças dos depositantes, desperdiçaram ativos (só na primeira metade de 2011 a redução atingiu quase 10 mil milhões de euros), um autêntico assalto aos bancos …

Conclusão: Crise do endividamento dos Estados (como alguns repetem) ou crise do sistema financeiro (como a esquerda e os povos dizem)?

Fonte: BdP, APB, ISP, IGCP
 

(...)

Resto dossier

Socialismo 2012

O Fórum de Ideias "Socialismo 2012", organizado pelo Bloco de Esquerda em Santa Maria da Feira, foi o mais participado de sempre. Neste dossier reunimos resumos feitos pelos autores das apresentações nos painéis de debate, artigos sobre algumas das sessões, fotogaleria e vídeos com entrevistas a participantes. Dossier organizado por Luís Branco.

Fotogaleria do Socialismo 2012

A fotógrafa Paulete Matos captou alguns dos momentos das sessões e dos intervalos deste Fórum de Ideias do Bloco de Esquerda.

"É preciso cortar com o memorando da troika para recuperar a economia"

No encerramento do Fórum Socialismo 2012, Francisco Louçã apresentou medidas para travar a agenda de empobrecimento do Governo. E sublinhou que o resultado do primeiro ano do memorando da troika, no qual a direita cortou salários, aumentou impostos e fez disparar o desemprego, é que a dívida portuguesa aumentou 18.374 milhões de euros.

"A esquerda europeia tem de ser a melhor oposição à austeridade"

O debate sobre a "Encruzilhada da Europa em Crise e a Alternativa da Esquerda" juntou no Socialismo 2012 a eurodeputada Marisa Matias e dirigentes do Parti de Gauche francês e do Syriza grego.

"O modelo privatizador liquidou a social-democracia"

Na sessão de abertura, Luís Fazenda e Pedro Nuno Santos debateram "os caminhos do socialismo". O deputado do PS garantiu que nunca haverá uma cisão de esquerda no seu partido e Luís Fazenda defendeu o regresso à agenda da esquerda do tema da propriedade pública de setores fundamentais para financiar o Estado Social e as políticas socialistas.

"RTP não pode deixar de ter dois canais"

No painel do Fórum Socialismo 2012 sobre a ameaça privatizadora ao serviço público de televisão, o cineasta António Pedro Vasconcelos defendeu a necessidade de dois canais de serviço público e criticou a irresponsabi-lidade dos partidos que endividaram a empresa para agora a entregarem com lucro garantido aos privados.

A "Sociedade da Austeridade" em debate no Socialismo 2012

O sociólogo António Casimiro Ferreira apresentou o painel "Crítica da teoria política da austeridade"  e defendeu que o modelo de austeridade que Portugal vive "é um ajuste de contas histórico com o 25 de Abril".

Lei dos Compromissos e do Setor Empresarial Local são devastadoras para a criação cultural

O diretor do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, esteve no Socialismo 2012 para apresentar o painel "Fora de Lisboa também se faz cultura". Mas com a recente Lei dos Compromissos do Estado e a do Setor Empresarial Local, agora publicada, José Bastos antevê "a extinção de muitas companhias" que hoje asseguram a presença da cultura em muitas localidades.

Vídeos do Socialismo 2012

Publicamos os vídeos da sessão de abertura e encerramento do Socialismo 2012, bem como entrevistas a António Pedro Vasconcelos sobre a privatização da RTP, a José Bastos sobre as ameaças à criação artística no país e a Casimiro Ferreira sobre o modelo de austeridade hoje imposto à sociedade.

Gramsci e as Relações Internacionais

Publicamos a comunicação de Bruno Góis, intitulada "Gramsci e as Relações Internacionais: um tubo de ensaio", sobre as origens e a evolução do pensamento das Relações Internacionais.

Encruzilhadas da dívida

Publicamos o resumo da comunicação de João Camargo, "Encruzilhadas da dívida: cenários, mitos e realidades", que pretendeu fazer uma reflexão aberta sobre as consequências das variadas propostas políticas e económicas para lidar com a questão das dívidas.

Trabalho sexual é trabalho (?)

Publicamos o resumo da comunicação de Alexandra Oliveira, que partiu dos estereótipos sobre a prostituição e as pessoas que se prostituem para chegar a uma visão próxima e subjectiva que devolve a voz aos actores do trabalho sexual

A actualidade do projeto de Karl Polanyi

Publicamos o resumo da comunicação de João Rodrigues, intitulada "O liberalismo é utópico, o socialismo é realista: A actualidade do projecto de Karl Polanyi"

“Juntar forças na pluralidade das opiniões”

O deputado bloquista Pedro Filipe Soares explica que, com esta iniciativa, o Bloco pretende “juntar forças na pluralidade das opiniões”. O Socialismo 2012 começa hoje, pelas 21h30, em Santa Maria da Feira, com uma sessão que conta com as intervenções de Luís Fazenda e Pedro Nuno Santos. Ver programa.

O impacto da ‘Crise de 1929’ na Ditadura

Publicamos o resumo do painel apresentado por João Paulo Avelãs Nunes, "A ‘Crise de 1929’, a ‘Grande Depressão’ e o respectivo impacto na Ditadura Militar e no Estado Novo".

Precarização em Portugal e o trabalho na nova economia

Resumo da comunicação de Moisés Ferreira sobre os desafios que a nova economia coloca ao trabalhador enquanto sujeito psicológico.

Canábis, da proibição à descriminalização

Um dos painéis de debate do Socialismo 2012 intitulou-se "Drogas: proibicionismo é solução?". Pedro Pombeiro, da MGM Lisboa, explica a história legislativa das drogas nas últimas décadas em Portugal.

O estertor do marcelismo e o combate à ditadura

Publicamos o resumo da comunicação de Miguel Cardina, "Becos da História: o estertor do marcelismo, o combate à ditadura e a construção de uma hegemonia de esquerda".

A geração adaptável e a produção do consentimento

Publicamos o resumo da comunicação de João Teixeira Lopes, que fala da interiorização por parte de uma larga parte dos “jovens adultos” das novas classes médias urbanas de um ethos baseado na ”flexibilidade”, no “empreendedorismo”, nas “novas tecnologias da informação e da comunicação”.

O que falta no SNS? Orçamento? Profissionais?

Resumo da comunicação de Cílio Correia sobre os problemas com que se defronta o SNS e a contestação de vários aspetos da política de Saúde do Governo PSD/CDS.

Gramsci e o Rendimento Social de Inserção

Um dos painéis de debate foi apresentado por Ricardo Sá Ferreira e intitula-se "Gramsci e o RSI: hegemonia e discurso sobre a pobreza em Portugal". Publicamos aqui o resumo.

Feminismos e Austeridade

Magda Alves e Nádia Cantanhede apresentaram um dos painéis de debate sobre o impacto da crise e das respostas austeritárias sobre as mulheres. Publicamos aqui o resumo.

Da crise de 1890 ao sonho republicano

Publicamos aqui a comunicação do historiador Luís Farinha, centrada na situação portuguesa na viragem do século XIX.

30 anos de "Blade Runner"

Num dos painéis do Socialismo 2012, Ivar Corceiro revisita o filme "Blade Runner", lançado em 1982, sublinhando as suas características de crítica do modelo capitalista. Publicamos aqui o resumo.

O grande assalto aos bancos - onde estão os ativos?

Publicamos o resumo da intervenção de José Castroque apontou a responsabilidade dos bancos na atual crise através das escolhas desastrosas nos seus investimentos financeiros, que hoje estão a ser pagas pelos contribuintes através do seu salário e do desmantelamento de serviços públicos.