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O estertor do marcelismo e o combate à ditadura

Começa esta sexta-feira em Santa Maria da Feira o Fórum Novas Ideias organizado pelo Bloco de Esquerda. Publicamos o resumo da comunicação de Miguel Cardina, "Becos da História: o estertor do marcelismo, o combate à ditadura e a construção de uma hegemonia de esquerda".
Foto de Paulete Matos

A 25 de Abril de 1974, um golpe militar feito essencialmente por capitães cansados de uma guerra sem fim à vista derrubou a mais velha ditadura da Europa. Nos dias que se seguiram, a presença e a acção do povo nas ruas – do assalto à sede da PIDE/DGS até à gigantesca adesão às manifestações do 1.º de Maio – conduziu o derrube do Estado Novo a um verdadeiro e imprevisto processo revolucionário. Várias são as causas que ajudam a explicar esta erupção popular, mas uma delas radica claramente na quebra de legitimidade que assolou o regime nos últimos anos. Essa quebra manifestou-se, desde logo, na crescente insatisfação com a guerra colonial e na diversificação e radicalização do campo da esquerda, sobretudo a partir de 1969/70.

A relação entre o impasse na resolução da guerra colonial – que na verdade começara na Índia mas que adquirirá visibilidade e dramatismo em África, a partir de 1961 – e a queda da ditadura é um fenómeno realçado pela generalidade dos estudos sobre a época. Um país criado numa “mística imperial” e onde sectores da esquerda legitimaram até tarde a existência de colónias, viu o início do desfazer do Império com comoção e fervor nacionalista. Os anos seguintes assistiram, no entanto, ao alastrar da insatisfação com o conflito.

A continuidade de uma guerra travada em condições adversas, a milhares de quilómetros dos territórios de origem das tropas e levada a cabo em contra-ciclo histórico, provocara o aumento continuado de desertores e refractários e acentuava a vaga emigratória dos anos sessenta – agora deslocada para a Europa, sobretudo para França, onde centenas de milhares de portugueses afluem durante esses anos, muitos deles clandestinamente. Num contexto em que se consolidava a onda independentista que varria o então chamado “Terceiro Mundo”, o apoio aos movimentos de libertação africanos ganha peso externo. Na frente de batalha, as tropas iam sendo cada vez mais permeáveis à leitura de textos anticoloniais, à aceitação de jornais e revistas da oposição, à audição de “música de intervenção” e a um modo de estar e agir, consentâneo com o espírito da época, marcado pela informalidade nos relacionamentos e por uma valorização das noções de igualdade, autodeterminação e justiça social.

Apesar da censura impedir o debate público e produzir significativas manchas de silenciamento informativo, a partir de 1969/70 assiste-se a uma explosão de publicações, slogans, notícias, imagens e práticas políticas conectadas com o Maio de 68 e a contracultura, a guerra do Vietname e as lutas anticoloniais, a Primavera de Praga e a recusa do mundo bipolar oriundo da Guerra Fria, a experiência cubana e os ensaios guerrilheiristas na América Latina, a Revolução Cultural chinesa e o combate a todas as hierarquias pré-estabelecidas. Estes eixos de contestação, nem sempre convergentes e muitas vezes contraditórios, têm nos movimentos estudantis um foco essencial de afirmação, mas são capazes de penetrar igualmente nos terrenos associativos, cooperativos e sindicais.

Com efeito, uma parte significativa da juventude estudantil politiza-se crescentemente e efetua um processo sem retorno de “abertura à sociedade” – o que um episódio como as acções de auxílio às vítimas das Cheias, em Novembro de 1967, bem ilustra. O campo das oposições diversifica-se e radicaliza-se nos anos finais do Estado Novo: surgem grupos de luta armada apostados no desgaste no regime; emerge uma variedade de coletivos maoístas, trotskistas e socialistas radicais; aparecem grupos ligados ao catolicismo progressista que se empenham particularmente na denúncia da guerra colonial; fenómenos como as “eleições” – ainda que, em 1969, PCP e ASP (Acção Socialista Portuguesa) dinamizem plataformas distintas – e o II e III Congresso Republicano de Aveiro vinham estimular as oposições filiadas de matriz frentista e antifascista; o PCP, mantendo a estratégia unitária baseada no programa da “revolução democrática e nacional”, acciona gestos de radicalização, como o lançamento da ARA (Acção Revolucionária Armada) e tem presença – ainda que nem sempre única ou dominante – na dinamização das “listas B” para os sindicatos. No campo do trabalho, aliás,  entre Outubro de 1973 e Abril de 1974 intensificam-se as greves e as reivindicações salariais. Ao mesmo tempo, na cultura, nas artes e no jornalismo afirma-se uma paulatina hegemonia de esquerda. E uma conspiração militar constituída por oficiais de patente intermédia passa, em menos de um ano, de reivindicações corporativas até à consciência de que a guerra apenas terminaria com o derrube da ditadura. O regime cairá às suas mãos mas a presença imediata de largos sectores da população nas ruas mostra como a sua legitimidade há muito estava em causa.

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Resto dossier

Socialismo 2012

O Fórum de Ideias "Socialismo 2012", organizado pelo Bloco de Esquerda em Santa Maria da Feira, foi o mais participado de sempre. Neste dossier reunimos resumos feitos pelos autores das apresentações nos painéis de debate, artigos sobre algumas das sessões, fotogaleria e vídeos com entrevistas a participantes. Dossier organizado por Luís Branco.

Fotogaleria do Socialismo 2012

A fotógrafa Paulete Matos captou alguns dos momentos das sessões e dos intervalos deste Fórum de Ideias do Bloco de Esquerda.

"É preciso cortar com o memorando da troika para recuperar a economia"

No encerramento do Fórum Socialismo 2012, Francisco Louçã apresentou medidas para travar a agenda de empobrecimento do Governo. E sublinhou que o resultado do primeiro ano do memorando da troika, no qual a direita cortou salários, aumentou impostos e fez disparar o desemprego, é que a dívida portuguesa aumentou 18.374 milhões de euros.

"A esquerda europeia tem de ser a melhor oposição à austeridade"

O debate sobre a "Encruzilhada da Europa em Crise e a Alternativa da Esquerda" juntou no Socialismo 2012 a eurodeputada Marisa Matias e dirigentes do Parti de Gauche francês e do Syriza grego.

"O modelo privatizador liquidou a social-democracia"

Na sessão de abertura, Luís Fazenda e Pedro Nuno Santos debateram "os caminhos do socialismo". O deputado do PS garantiu que nunca haverá uma cisão de esquerda no seu partido e Luís Fazenda defendeu o regresso à agenda da esquerda do tema da propriedade pública de setores fundamentais para financiar o Estado Social e as políticas socialistas.

"RTP não pode deixar de ter dois canais"

No painel do Fórum Socialismo 2012 sobre a ameaça privatizadora ao serviço público de televisão, o cineasta António Pedro Vasconcelos defendeu a necessidade de dois canais de serviço público e criticou a irresponsabi-lidade dos partidos que endividaram a empresa para agora a entregarem com lucro garantido aos privados.

A "Sociedade da Austeridade" em debate no Socialismo 2012

O sociólogo António Casimiro Ferreira apresentou o painel "Crítica da teoria política da austeridade"  e defendeu que o modelo de austeridade que Portugal vive "é um ajuste de contas histórico com o 25 de Abril".

Lei dos Compromissos e do Setor Empresarial Local são devastadoras para a criação cultural

O diretor do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, esteve no Socialismo 2012 para apresentar o painel "Fora de Lisboa também se faz cultura". Mas com a recente Lei dos Compromissos do Estado e a do Setor Empresarial Local, agora publicada, José Bastos antevê "a extinção de muitas companhias" que hoje asseguram a presença da cultura em muitas localidades.

Vídeos do Socialismo 2012

Publicamos os vídeos da sessão de abertura e encerramento do Socialismo 2012, bem como entrevistas a António Pedro Vasconcelos sobre a privatização da RTP, a José Bastos sobre as ameaças à criação artística no país e a Casimiro Ferreira sobre o modelo de austeridade hoje imposto à sociedade.

Gramsci e as Relações Internacionais

Publicamos a comunicação de Bruno Góis, intitulada "Gramsci e as Relações Internacionais: um tubo de ensaio", sobre as origens e a evolução do pensamento das Relações Internacionais.

Encruzilhadas da dívida

Publicamos o resumo da comunicação de João Camargo, "Encruzilhadas da dívida: cenários, mitos e realidades", que pretendeu fazer uma reflexão aberta sobre as consequências das variadas propostas políticas e económicas para lidar com a questão das dívidas.

Trabalho sexual é trabalho (?)

Publicamos o resumo da comunicação de Alexandra Oliveira, que partiu dos estereótipos sobre a prostituição e as pessoas que se prostituem para chegar a uma visão próxima e subjectiva que devolve a voz aos actores do trabalho sexual

A actualidade do projeto de Karl Polanyi

Publicamos o resumo da comunicação de João Rodrigues, intitulada "O liberalismo é utópico, o socialismo é realista: A actualidade do projecto de Karl Polanyi"

“Juntar forças na pluralidade das opiniões”

O deputado bloquista Pedro Filipe Soares explica que, com esta iniciativa, o Bloco pretende “juntar forças na pluralidade das opiniões”. O Socialismo 2012 começa hoje, pelas 21h30, em Santa Maria da Feira, com uma sessão que conta com as intervenções de Luís Fazenda e Pedro Nuno Santos. Ver programa.

O impacto da ‘Crise de 1929’ na Ditadura

Publicamos o resumo do painel apresentado por João Paulo Avelãs Nunes, "A ‘Crise de 1929’, a ‘Grande Depressão’ e o respectivo impacto na Ditadura Militar e no Estado Novo".

Precarização em Portugal e o trabalho na nova economia

Resumo da comunicação de Moisés Ferreira sobre os desafios que a nova economia coloca ao trabalhador enquanto sujeito psicológico.

Canábis, da proibição à descriminalização

Um dos painéis de debate do Socialismo 2012 intitulou-se "Drogas: proibicionismo é solução?". Pedro Pombeiro, da MGM Lisboa, explica a história legislativa das drogas nas últimas décadas em Portugal.

O estertor do marcelismo e o combate à ditadura

Publicamos o resumo da comunicação de Miguel Cardina, "Becos da História: o estertor do marcelismo, o combate à ditadura e a construção de uma hegemonia de esquerda".

A geração adaptável e a produção do consentimento

Publicamos o resumo da comunicação de João Teixeira Lopes, que fala da interiorização por parte de uma larga parte dos “jovens adultos” das novas classes médias urbanas de um ethos baseado na ”flexibilidade”, no “empreendedorismo”, nas “novas tecnologias da informação e da comunicação”.

O que falta no SNS? Orçamento? Profissionais?

Resumo da comunicação de Cílio Correia sobre os problemas com que se defronta o SNS e a contestação de vários aspetos da política de Saúde do Governo PSD/CDS.

Gramsci e o Rendimento Social de Inserção

Um dos painéis de debate foi apresentado por Ricardo Sá Ferreira e intitula-se "Gramsci e o RSI: hegemonia e discurso sobre a pobreza em Portugal". Publicamos aqui o resumo.

Feminismos e Austeridade

Magda Alves e Nádia Cantanhede apresentaram um dos painéis de debate sobre o impacto da crise e das respostas austeritárias sobre as mulheres. Publicamos aqui o resumo.

Da crise de 1890 ao sonho republicano

Publicamos aqui a comunicação do historiador Luís Farinha, centrada na situação portuguesa na viragem do século XIX.

30 anos de "Blade Runner"

Num dos painéis do Socialismo 2012, Ivar Corceiro revisita o filme "Blade Runner", lançado em 1982, sublinhando as suas características de crítica do modelo capitalista. Publicamos aqui o resumo.

O grande assalto aos bancos - onde estão os ativos?

Publicamos o resumo da intervenção de José Castroque apontou a responsabilidade dos bancos na atual crise através das escolhas desastrosas nos seus investimentos financeiros, que hoje estão a ser pagas pelos contribuintes através do seu salário e do desmantelamento de serviços públicos.