Lembro-me, e ainda belisco o braço quando me lembro, de que, quando eu era ainda uma criança, tínhamos uma grafonola de manivela. Lembro-me de dar à manivela, de pôr um disco de 78 rotações no prato, de levantar o braço da agulha, de ouvir o som desconcertado e distorcido que de lá saía. Da última vez que a minha filha cá veio, instalou o Spotify no meu telemóvel…
Isso é uma espécie de medida de quão depressa os nossos tempos mudam. Essa viagem extraordinária, uma viagem que se deu, surpreendentemente, na minha vida: da pilha de discos cheios de pó, guardados em capas de cartão a desfazer-se, até à música do mundo inteiro. No meu telemóvel.
Sei que estou a envelhecer, e sei que isto é confrangedoramente óbvio, mas o mundo está a mudar.
Quando comecei a ganhar a vida como escritora, escrevia as peças numa máquina de escrever. Costumava, literalmente, “colar e copiar”: cortava bocados dos diálogos com uma tesoura e colava-os no sítio em que ficavam melhor.
E se precisasse de informação sobre uma coisa qualquer, ia procurá-la à biblioteca. Porque não havia internet. E se quisesse enviar uma carta, punha-a num envelope, punha um selo no envelope, e deitava-a numa caixa de correio. Porque não havia outra maneira de enviar uma carta…
E naqueles dias do antigamente, em que eu ouvia a canção “Tea for two” na grafonola de manivela, não havia nada que pudesse fazer com o sentimento intenso e assustador de que eu não era um rapaz, ainda que tivesse um nome de rapaz e um corpo de rapaz.
Não havia nada que eu pudesse fazer com esse sentimento a não ser tentar reprimi-lo.
Mas agora posso viver abertamente como uma mulher, e ser protegida legalmente na minha necessidade de o fazer, e a mudança na nossa consciência coletiva que permitiu que isso acontecesse parece-me ainda mais miraculosa.
Mas mudanças há muitas neste mundo, e nada lhes é imune, muito menos o Ato de União entre a Escócia e a Inglaterra de 1707, e fingir que é imutável é completamente absurdo.
Parece que é preciso repetir isto: as mudanças acontecem e uma das coisas que temos de fazer enquanto seres humanos é enfrentarmos a mudança, acomodarmo-la e até agradecer que tenha acontecido, e tentar garantir que se reflete adequadamente nos nossos compromissos políticos, sociais e económicos.
Tentar continuar a viver como antes seria tão absurdo como se eu tentasse ouvir música no autocarro com a minha grafonola de manivela. Ou como se eu continuasse a viver, cheia de medo, no armário.
Não tenhamos ilusões, a mudança é assustadora. Todos nos lembramos do medo de ir para uma escola nova, um emprego novo, uma relação nova.
Tenho uma fortíssima, ainda que em certa medida especializada, memória do medo: do tempo em que sabia que não conseguia continuar a viver como homem. O terror de viver como mulher. De apanhar o autocarro. De comprar leite na loja da esquina. De me encontrar com a família, com os amigos, com os colegas de trabalho.
A tentação nessas alturas é de nos ficarmos pelas já familiares formas de sofrimento, porque sabemos que, de uma maneira ou de outra, aprendemos a lidar com elas. Aprendemos a ficar no emprego que detestamos, na escola que sentimos que já ultrapassámos, ou com a pessoa que já não conseguimos amar. Ou a estar sozinhos.
Isto aplica-se a nível coletivo, ou a nível nacional, tanto quanto a cada um de nós individualmente. A mudança é, absolutamente, uma parte inescapável da vida, mas é também uma coisa assustadora e há sempre a tentação de tentar fingir que não está a acontecer, que não precisa de acontecer, ou que, se não olharmos, vai desaparecer.
E nesse medo reside poder. Um poder que é fácil de usar, uma tentação a que os políticos sem visão acham difícil de resistir.
A maior parte dos políticos do não nem sequer tentou.
Continuo pasmada pela falta de argumentos positivos que demostram.
No momento em que escrevo isto, o infeliz do Nick Clegg está a tentar tornar a campanha do não numa coisa positiva; a tentar fazer com que votar não no referendo seja uma coisa inspiradora. Não é fácil imaginar como conseguirá isso.
Porque votar Não significa aceitar ser governados por um estado cujas políticas económicas estão devotadas aos interesses financeiros da City de Londres — uma minoria dentro da minoria para quem o enriquecimento é feito à custa do empobrecimento de toda a gente.
Votar Não significa votar sim a um estado para quem a defesa e a política internacional passam por fingir que não fazem parte da Europa. Fingir que vivemos numa espécie de isolamento glorioso com os nossos “amigos” Estados Unidos. Significa negarmos que somos o estado cliente dessa potência em declínio. Fingirmos que ainda somos capazes de dar passos maiores do que as pernas. Fingirmos que ainda somos uma potência imperial e que precisamos de nos defender com meios de intimidação nucleares absolutamente inúteis.
Votar Não significa votar sim a um estado cujas políticas sociais não conseguiram nada senão aumentar uma já desastrosa combinação de desigualdade e injustiça.
Votar Não significa votar sim a um sistema eleitoral maioritário claramente datado e injusto, e uma monarquia hereditária datada e grotescamente cara.
Como já foi dito muitas vezes e precisa de ser repetido: o problema não é saber se apoiamos ou não Alex Salmond e o SNP, mas sim saber se aceitamos o direito e o dever da Escócia de gerir a sua vida. E se aceitamos, o que é que isso implica?
É difícil apresentar argumentos positivos para isto. E o establishment de Westminster nem nos quer a pensar nisso porque, desconfio, põe em causa um sistema em que se estão todos a dar muito bem. E isso explica muita coisa se pensarmos na dificuldade que parecem ter em fazer reformas.
Mas o resto de nós está a dar-se muito mal com isto. E, com o passar dos anos, a dar-se cada vez pior. Porque é sobejamente claro que, a tantos níveis, o sistema atual de governo britânico não é adequado à crise que enfrentamos.
O que quer dizer que votar Não é votar não à mudança e votar Sim, em contrapartida, a um desastrado e prolongado suicídio coletivo.
E é tão triste ver que a resistência a este sinistro ato de auto-destruição já não vem do Labour, que se perdeu no caminho, abandonou os seus valores, traiu os seus princípios e não nos pode oferecer mais nada a não ser uma espécie de versão leve e injusta do Conservadorismo inglês.
Mas há mais do que política partidária em causa. Como já foi dito muitas vezes e precisa de ser repetido: o problema não é saber se apoiamos ou não Alex Salmond e o SNP, mas sim saber se aceitamos o direito e o dever da Escócia de gerir a sua vida. E se aceitamos, o que é que isso implica?
Podemos começar — mas não acabar — com as políticas que esse partido propõe. Pelo menos têm princípios e políticas sãs e de energias sustentáveis. Reconhecem o direito ao ensino superior gratuito. Reconhecem o direito aos serviços de saúde gratuitos. Recusam a posse de armas nucleares. Reconhecem as nossas ligações à Europa continental. Têm um comportamento humano e saudável em relação à imigração. Estão empenhadas na justiça e igualdade para pessoas como eu, que pertencem a minorias historicamente perseguidas. Compreendem a importância das artes e de um governo que as proteja.
Isto é tudo muito bem vindo e de louvar no contexto da ideologia injusta e auto-destrutiva do consenso em Westminster.
E está tanta coisa a acontecer na Escócia neste momento. É o que já está a fazer da Escócia um país diferente da Inglaterra. Com ou sem referendo.
Mas isto não é a coisa mais importante em que estaremos a votar.
O que importa para a maior parte de nós, talvez, é que estaremos a votar pelo direito de imaginar um presente melhor e um futuro melhor para nós e para os nossos filhos. O direito de imaginar um país que não foi construído sobre as mais vis e egoístas noções de humanidade, mas sobre qualquer coisa mais nobre e mais autêntica: no nosso desejo coletivo de justiça, decência e igualdade básica. O direito de imaginar um país de que temos orgulho de fazer parte, em vez de um país de que temos vergonha. Estaremos, em suma, a votar pelo direito a sonhar.
E é depois disso haverá muito que fazer…
Jo Clifford é dramaturga, atriz e professora.
Publicado inicialmente na antologia Inspired by Independence, editada pelo National Collective, publicado por World Power Books. Traduzido por Mariana Vieira.