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A marcha de um milhão

Foram aqueles eleitores banidos por Cavaco quem trocou as voltas ao centrão. Mas este caminho ainda mal começou. Artigo de Jorge Costa.
Foto de Paulete Matos

O presidente tratou como lixo, muitos o disseram, aquele milhão de votos conferidos aos partidos à esquerda do PS. Menos dito é que foi esse milhão de pessoas quem definiu a nova situação política. O muito que a direita perdeu, foi o Bloco, mais do que o PS, que conquistou.

A eleição de 36 deputados à esquerda (19 do Bloco, 17 da CDU) serviu não só para tirar a maioria absoluta à coligação como para impedir qualquer aliança que o PS, se fosse o mais votado, pudesse dirigir com os partidos da direita. Chegado em segundo lugar à noite de 4 de outubro, António Costa não podia telefonar a um substituto de Passos Coelho. Diante dos resultados, só lhe restaria converter o PS na quinta roda da direita. Mas isso teria riscos enormes para uma alternância já podre. Assim, mais do que virar à esquerda, o PS seguiu o único caminho que evitava uma "UGêTização", uma "pasokização" à portuguesa.

Ainda antes da campanha, quando António Costa ainda não adivinhava a sua rota, o Bloco disponibilizou-se publicamente para participar em soluções, desde que fossem descartados os aspetos mais graves do programa eleitoral do PS e assumidas algumas medidas ali ausentes. Depois das eleições, já fortes de 36 deputados, os partidos à esquerda sentaram-se à mesa das negociações e começou uma transformação do quadro político. A direita iniciava o seu calvário até à oposição e o confronto passou para a definição de um acordo para terminar o ciclo de empobrecimento e iniciar a recuperação do trabalho na distribuição do rendimento. Aquele milhão condenado por Cavaco continuou a sua marcha.

Nem um passo atrás

A impotência do presidente não suspendeu a guerra aberta da direita. A “venezuelização” da paisagem mediática, com invocações do PREC e de uma guerra civil embrionária, não passou ainda de uma amostra do confronto prolongado que se inicia. Apesar das garantias dadas pelo PS de que não abandona as restrições que previu no “programa macro-económico” apresentado por Mário Centeno, a direita portuguesa não se conforma com uma interrupção dos seus quatro anos mais felizes, o ciclo de concentração da riqueza comandado por Passos e Portas. Para quem beneficiou destes anos, um governo que inicie funções sob o signo da reposição de rendimentos é uma heresia sem nome e um autêntico apelo à ira redentora de Berlim.

É precisamente aqui que está o maior risco para o acordo de maioria assinado entre PS, Bloco e CDU - a máquina de guerra europeia contra os direitos sociais. Como Catarina Martins tem assinalado, as expectativas criadas por este acordo terão de se confrontar com a intransigência de poderes europeus que não recuam perante qualquer critério social. Quando os verdadeiros números do défice virem a luz, vai apertar-se o garrote de Bruxelas e o governo português terá de escolher. Ou impõe novos aumentos de impostos e cortes - uma espécie de regresso à “normalidade” definida por Passos Coelho - ou respeita os compromissos que o PS assinou. Nessa altura, o caminho será mais difícil e nenhum estado de graça poderá substituir decisões fortes sobre a dívida portuguesa.

Essa será a nova fase desta marcha de um milhão que deve ampliar-se. Desde já - e mais ainda quando a pressão europeia, patronal e mediática se acentuar -, uma maioria para a recuperação dos rendimentos depende da mobilização. É indispensável um novo protagonismo popular, que exija a aplicação do que foi assinado e imponha novos avanços. Disso depende o regresso dos que foram forçados a partir, o apoio a quem perdeu o emprego, a recuperação dos serviços públicos. O caminho iniciado a 4 de outubro apenas começou.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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Resto dossier

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