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Irão: Os símbolos não são suficientes para ganhar esta batalha

Este coro em direcção a Deus emanado dos telhados de Kandahar, todas as noites depois da invasão soviética do Afeganistão em 1979 - eu próprio ouvi-o em Kandahar e ouvi-o na semana passada nos telhados de Teerão - não impediu os ataques dos russos nem vai impedir os Basiji ou a Guarda Revolucionária. Os símbolos não são suficientes.

Na segunda-feira, a Guarda Revolucionária - um corpo que não é eleito nem representa a actual juventude iraniana - fez as suas ameaças para lidar com o "rebeldes" de "forma revolucionária".

Todos no Irão, até aqueles que são muito jovens para se recordarem do massacre dos oponentes ao regimes em 1988 - quando dezenas de milhar foram enforcados - sabem o que isso significa.

Largar um enxame de forças governamentais armadas nas ruas e afirmar que todos aqueles que são alvejados são "terroristas" é quase uma cópia perfeita da reacção pública do exército israelita à intifada palestiniana. Se os que atiram pedras são mortos a tiro, então a culpa é deles pois estão a infringir a lei e estão a trabalhar para as potências estrangeiras.

Quando isto acontece nos territórios ocupados pelos israelitas, estes alegam que as potências estrangeiras do Irão e da Síria estão por detrás da violência. Quando isto acontece nas cidades iranianas, o regime iraniano alega que são as potências estrangeiras dos Estados Unidos, Israel e Grã-Bretanha que estão por detrás da violência.

E foi de facto uma intifada que rebentou no Irão, não importa quais os objectivos impossíveis. Milhões de iranianos não aceitam a lei porque acreditam que as leis foram corrompidas pela eleição fraudulenta. A perigosa decisão do Líder Supremo, Ali Khamenei, ao usar todo o peso do seu prestígio para apoiar Mahmoud Ahmadinejad apagou qualquer hipótese de emergir acima da disputa como um árbitro neutral.

Parentes do poderoso aliado de Mir Hussein Moussavi, Ali Akbar Rafsanjani, são presos e depois libertos; Moussavi é ameaçado com a prisão pelo presidente do Parlamento. Contudo, um dos mais populares clérigos e aliado de Moussavi, Mohammad Khatami, continua intocável.

Moussavi pode ter sido primeiro-ministro, mas Khatami foi presidente. Para atingir Khatami, teria de retirar a futura protecção de Ahmadinejad. E o amigo político poderoso deste último, o ayatollah Yazdi, que gostaria de ser o próximo Líder Supremo, é uma ameaça para Khamenei. E enquanto todos os cadáveres nas ruas das cidades do Irão forem declarados como "terroristas" pelos amigos de Ahmadinejad, os seus inimigos irão declará-los como mártires.

Moussavi, para ganhar, necessita de organizar o seu protesto de forma mais coerente em vez de o fazer em "cima do joelho."Mas terá Khamenei uma plano a longo prazo que vá para além da mera sobrevivência?

Tradução de Sofia Gomes

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Resto dossier

A revolta iraniana

O Irão vive o maior momento de agitação desde a revolução islâmica de 1979. Com milhões de pessoas nas ruas contestando o resultado das eleições presidenciais, supostamente ganhas pelo actual presidente Ahmadinejad, os protestos já dividiram o regime e os resultados são imprevisíveis. Neste dossier, coordenado  por Luis Leiria, o Esquerda.net procura analisar e contextualizar a revolta.

Será que o gato sobre o precipício vai cair?

Qualquer que seja o desenlace, é decisivo ter em conta que estamos a testemunhar no Irão um grande evento emancipatório que não cabe no enquadramento da luta entre liberais pró-ocidentais e fundamentalistas anti-ocidentais.
Por Slavoj Zizek, publicado em Support for the Iranian People 2009

Irão: Os símbolos não são suficientes para ganhar esta batalha

Não obstante os seus objectivos difíceis, o que rebentou no Irão é de facto uma "intifada". Mas não se derrubam revoluções islâmicas com as luzes do carro. E muito menos com velas. Os protestos pacíficos até podem ter servido a Gandhi, mas o Líder Supremo do Irão não vai preocupar-se com alguns milhares de manifestantes nas ruas mesmo que cantem "Allahu Akbar" nos seus telhados todas as noites.
Por Robert Fisk, The Independent, 23/6/2009

A esquerda e a revolta no Irão

Sectores de esquerda, inspirados por acontecimentos recentes no Médio Oriente e na Europa de Leste, interpretaram os protestos no Irão como mais uma versão das recentemente inventadas revoluções com nomes de cores, neoliberais, apoiadas pelos EUA. Mas é esse o caso no Irão? Este artigo, escrito pelos tradutores e filósofos iranianos Morad Farhadpour e Omid Mehrgan, tenta clarificar essa questão.

Siemens e Nokia ajudam Irão a censurar a Internet

Uma joint-venture entre a alemã Siemens e a finlandesa Nokia ajudou o regime iraniano a instalar um dos mais sofisticados mecanismos de censura da Internet do mundo, permitindo examinar de forma maciça o conteúdo dos pacotes de dados circulando na rede, sejam eles e-mails, fotos, vídeos ou até chamadas telefónicas pela rede. A notícia é avançada pelo Wall Street Journal.

Choram-se os mortos do Irão - mas a luta continua

Apesar da intimidação, a vontade de derrubar Ahmadinejad continua forte, afirma o jornalista Robert Fisk neste artigo publicado originalmente no The Indepedent de Londres. O "presidente" Ahmadinejad é cada vez mais um homem muito solitário, afirma o famoso jornalista

Quem é quem na política iraniana

O líder supremo, ayatollah Ali Khamenei O líder supremo, ayatollah Ali Khamenei

O grande ayatollah Sayyid Ali Hoseyni Khamenei é o Líder Supremo do Irão desde 1989, sucedendo ao ayatollah Khomeini depois da morte deste. O cargo de Líder Supremo, criado pela Constituição da República Islâmica, é o mais alto cargo político e a mais alta autoridade religiosa da Nação, superior, portanto, ao de Presidente da República. Aliás, é ele que nomeia seis dos 12 juristas que compõem o Conselho dos Guardiães, que decide quem pode se candidatar à Presidência.

O Irão em ebulição

Lee Sustar, do Socialist Worker, analisa a dinâmica dos protestos populares e da repressão no Irão, na sequência das eleições presidenciais fraudulentas.

Irão: As desigualdades fragilizam a República islâmica

Trinta anos depois da Revolução islâmica, o país reduziu as disparidades entre cidades e campos. Mas as províncias habitadas por minorias étnicas continuam marginalizadas.
O Irão é hoje um país complexo que conheceu uma verdadeira revolução das mentalidades no decurso das últimas três décadas. Nasceram grandes centros urbanos. A família iraniana aproximou-se, na sua forma, das famílias dos países industrializados e o nível médio de educação progrediu fortemente.
Artigo de Thierry Coville

Ataques pessoais e acusações de corrupção no debate televisivo

Entre 2 e 8 de Junho, a TV estatal IRIB promoveu debates entre os candidatos presidenciais, sempre envolvendo dois deles. Foi a primeira vez que houve debates televisivos nas eleições iranianas. O mais aceso foi o que opôs Moussavi a Ahmadinejad, que envolveu ataques pessoais e acusações de corrupção. Artigo do Guardian resumindo o debate.

A agenda Moussavi

Um resumo do programa apresentado por Mir Hussein Moussavi durante a campanha eleitoral. Artigo de Tara Mahtafar, do Tehran Bureau.
Mir Hussein Moussavi apelidou a sua futura administração de "Governo da esperança" (dolat-e omid). Numa entrevista de televisão, ele convidou os eleitores a estudar a brochura de cem páginas que detalha as suas políticas, em formato impresso ou electrónico. Eis alguns destaques programáticos da agenda Moussavi: