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Ataques pessoais e acusações de corrupção no debate televisivo

Mahmoud Ahmadinejad confronta o rival em debate de TV

Guardian 4/6/2009

O presidente do Irão trocou ataques pessoais e acusações com o seu principal rival, na noite passada, num áspero debate televisivo visto como fundamental para decidir as próximas eleições presidenciais do país. Num encontro extraordinariamente conflitivo ao vivo de 90 minutos, Mahmoud Ahmadinejad desencadeou um furioso fogo de barragem contra os seus críticos, num esforço final de salvar uma corrida que parece estar a virar-se contra ele.

Ahmadinejad tentou ligar Mir Hussein Mousavi, antigo primeiro-ministro e o seu principal concorrente, a dois ex-presidentes, Hashemi Rafsanjani e Mohammad Khatami, cujos governos afirmou terem sido corruptos.

Moussavi teve mesmo de defender a carreira académica da sua mulher, Zahra Rahnavard, depois de o presidente a ter acusado de obter ilegalmente duas graduações. Rahnavard, uma académica importante, tem feito campanha ao lado do marido, numa ruptura com as convenções políticas dominadas pelos homens.

Lutando para manter a calma, Mousavi descreveu a sua mulher como uma das principais intelectuais iranianas e investigadoras corânicas, e acusou Ahmadinejad de vexar a Presidência. "Está abaixo da dignidade do chefe do governo citar nomes de pessoas sem lhes dar a possibilidade de se defenderem", disse ao presidente. "O sr. Rafsanjani e o sr. Khatami foram presidentes deste país. O senhor está a maculá-los na frente de 50 milhões de pessoas, quando eles não se podem defender".

O debate foi o segundo de uma série de seis levados ao ar pelo canal estatal IRIB antes das eleições de 12 de Junho, nas quais Ahmadinejad procura obter um segundo mandato. Mas em contraste com um desbotado debate na terça-feira envolvendo os outros dois candidatos, Mehdi Karroubi e Mohsen Rezai, o de ontem à noite estalou de antagonismo.

Ahmadinejad, que apareceu com duas grossas pastas, avisara antes que tencionava dar os nomes daqueles que acusava de corrupção. Ele destacou os filhos de Rafsanjani e alguns outros funcionários que acusou de apoiarem Mousavi.

Mousavi, por seu turno, acusou Ahmadinejad de ser "auto-centrado" e de ter políticas baseadas na "ilusão e na superstição". Disse que tinha decidido candidatar-se contra ele após 20 anos de afastamento da política porque temia que o país enfrentasse um "grande perigo" como resultado das políticas externa e económica de Ahmadinejad.

A certa altura, os dois entraram em confronto sobre a detenção, dois anos antes, de 15 militares britânicos, acusados de terem entrado em águas territoriais iranianas antes de serem libertados, no meio de grande alarde, por Ahmadinejad. Moussavi disse que a visão dos marinheiros vestidos de fato recebendo os acenos de despedida de Ahmadinejad tinha ferido a imagem do Irão. Mas Ahmadinejad insistiu que tinha desmascarado as acusações de que os iranianos tinham tomado reféns, e afirmou que Tony Blair, o então primeiro-ministro, lhe mandou um pedido de desculpas por escrito.

Moussavi criticou o frequente questionamento de Ahmadinejad ao Holocausto. Mas o presidente, que no início do dia descrevera o Holocausto como uma "grande fraude", respondeu: "Por que não levantar a questão do Holocausto? Por que deveríamos temer que os europeus venham aqui falar de direitos humanos no nosso país?"

O debate ocorreu num momento em que surgem indícios de que Ahmadinejad está atrás de Mousavi nas sondagens. Uma sondagem da semana passada mostrou Moussavi à frente, por 38% a 34%, nas maiores dez cidades. As sondagens iranianas, porém, são claramente pouco confiáveis.

Tradução de Luis Leiria

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Resto dossier

A revolta iraniana

O Irão vive o maior momento de agitação desde a revolução islâmica de 1979. Com milhões de pessoas nas ruas contestando o resultado das eleições presidenciais, supostamente ganhas pelo actual presidente Ahmadinejad, os protestos já dividiram o regime e os resultados são imprevisíveis. Neste dossier, coordenado  por Luis Leiria, o Esquerda.net procura analisar e contextualizar a revolta.

Será que o gato sobre o precipício vai cair?

Qualquer que seja o desenlace, é decisivo ter em conta que estamos a testemunhar no Irão um grande evento emancipatório que não cabe no enquadramento da luta entre liberais pró-ocidentais e fundamentalistas anti-ocidentais.
Por Slavoj Zizek, publicado em Support for the Iranian People 2009

A esquerda e a revolta no Irão

Sectores de esquerda, inspirados por acontecimentos recentes no Médio Oriente e na Europa de Leste, interpretaram os protestos no Irão como mais uma versão das recentemente inventadas revoluções com nomes de cores, neoliberais, apoiadas pelos EUA. Mas é esse o caso no Irão? Este artigo, escrito pelos tradutores e filósofos iranianos Morad Farhadpour e Omid Mehrgan, tenta clarificar essa questão.

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Não obstante os seus objectivos difíceis, o que rebentou no Irão é de facto uma "intifada". Mas não se derrubam revoluções islâmicas com as luzes do carro. E muito menos com velas. Os protestos pacíficos até podem ter servido a Gandhi, mas o Líder Supremo do Irão não vai preocupar-se com alguns milhares de manifestantes nas ruas mesmo que cantem "Allahu Akbar" nos seus telhados todas as noites.
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Uma joint-venture entre a alemã Siemens e a finlandesa Nokia ajudou o regime iraniano a instalar um dos mais sofisticados mecanismos de censura da Internet do mundo, permitindo examinar de forma maciça o conteúdo dos pacotes de dados circulando na rede, sejam eles e-mails, fotos, vídeos ou até chamadas telefónicas pela rede. A notícia é avançada pelo Wall Street Journal.

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Quem é quem na política iraniana

O líder supremo, ayatollah Ali Khamenei O líder supremo, ayatollah Ali Khamenei

O grande ayatollah Sayyid Ali Hoseyni Khamenei é o Líder Supremo do Irão desde 1989, sucedendo ao ayatollah Khomeini depois da morte deste. O cargo de Líder Supremo, criado pela Constituição da República Islâmica, é o mais alto cargo político e a mais alta autoridade religiosa da Nação, superior, portanto, ao de Presidente da República. Aliás, é ele que nomeia seis dos 12 juristas que compõem o Conselho dos Guardiães, que decide quem pode se candidatar à Presidência.

Ataques pessoais e acusações de corrupção no debate televisivo

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A agenda Moussavi

Um resumo do programa apresentado por Mir Hussein Moussavi durante a campanha eleitoral. Artigo de Tara Mahtafar, do Tehran Bureau.
Mir Hussein Moussavi apelidou a sua futura administração de "Governo da esperança" (dolat-e omid). Numa entrevista de televisão, ele convidou os eleitores a estudar a brochura de cem páginas que detalha as suas políticas, em formato impresso ou electrónico. Eis alguns destaques programáticos da agenda Moussavi:

O Irão em ebulição

Lee Sustar, do Socialist Worker, analisa a dinâmica dos protestos populares e da repressão no Irão, na sequência das eleições presidenciais fraudulentas.

Irão: As desigualdades fragilizam a República islâmica

Trinta anos depois da Revolução islâmica, o país reduziu as disparidades entre cidades e campos. Mas as províncias habitadas por minorias étnicas continuam marginalizadas.
O Irão é hoje um país complexo que conheceu uma verdadeira revolução das mentalidades no decurso das últimas três décadas. Nasceram grandes centros urbanos. A família iraniana aproximou-se, na sua forma, das famílias dos países industrializados e o nível médio de educação progrediu fortemente.
Artigo de Thierry Coville